Jornal dos Desportos

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Reportagens

Mabi encara Benfica como missão dificìl

21 de Dezembro, 2009

Mabi de Almeida não esconde a responsabilidade

Fotografia: Jornal dos Desportos

Os actuais níveis competitivos dos Palancas Negras devem-se à "politização do evento" em detrimento dos aspectos técnicos desportivos. As palavras são do antigo seleccionador, Álvaro de Almeida Mabi, vulgarmente conhecido por Mabi de Almeida. Em entrevista ao Jornal dos Desportos, o técnico aborda os pergaminhos para manter os níveis competitivos do Sport Luanda e Benfica. O novo comandante das águias de Luanda quer reforços para colmatar as possíveis saídas e pede à direcção a manutenção do "eixo" principal para não defraudar os objectivos. O antigo treinador das equipas 1º de Maio de Benguela, Futebol Clube de Cabinda, Sporting de Cabinda, bem como da Selecção de Cabinda augura êxito da equipa nacional na Taça Africana das Nações Orange-Angola.

É do conhecimento geral que Mabi de Almeida é um homem "amante" de desafios. Como encara o novo à frente do Sport Luanda e Benfica?
Sei que é uma tarefa difícil face ao historial do clube, sobretudo, pelos resultados que a equipa alcançou no ano passado e o facto de a equipa correr o risco de perder jogadores influentes na sua manobra. Não obstante a isso, espero por um grande apoio da direcção para ultrapassarmos essas dificuldades e assim fazermos o nosso campeonato da melhor maneira.

Quanto tempo está vinculado ao clube das águias?
A permanência de um treinador à frente de uma equipa depende muito dos resultados que esteja a alcançar durante o campeonato. Apesar do eventual reconhecimento da competência do técnico, nem sempre os resultados almejados apareçam. Desse modo, os técnicos acabam por saírem mais cedo do que o tempo de contrato. Espero que esse casamento (entre mim e a equipa) dure por muito tempo e se preconize os objectivos da direcção. É certo que fico na equipa por dois anos opcionais.

É um contrato digno do seu nome?
Não é isso. Infelizmente, os treinadores angolanos ainda não são bem remunerados como merecem, mas é um acordo que me deixa satisfeito. Em Angola, as estrelas são os jogadores ao invés dos treinadores e existem casos de atletas que ganham mais do que os treinadores. Penso que, num país como o nosso, isso não se justifica, porque não acontece com os treinadores estrangeiros; ganham melhor que os nacionais e, infelizmente, no fim do trabalho, somos cobrados os mesmos resultados. Gostaria que este quadro se invertesse para o bem do desporto nacional. Apesar do mal que enferma a classe, penso que o contrato que fiz com o Benfica é bom.

Que exigências lhe foram feitas pela Direcção do Clube?
O clube tem duas prioridades. A primeira passa pela construção de infra-estruturas para oferecer condições aceitáveis aos atletas e aos técnicos. A segunda é a ambição da equipa técnica e da direcção no sentido de manter a equipa dentro da classificação da época passada. Sabemos que será muito difícil, porque muitas equipas tiveram uma classificação atípica no ano passado, ou seja, que não são habituais, com particular realce para as equipas do 1º de Agosto e do ASA. Penso que em 2010 tudo farão no sentido de melhorarem as classificações passadas. Recordem-se que as equipas do Petro de Luanda, Recreativo de Libolo e do 1º de Agosto estão a reforçar-se muito bem e isso se torna ainda mas difícil, caso a equipa perca os atletas influentes na sua manobra.

SAÍDAS DOS CRAQUES
VAI AFECTAR A EQUIPA


A saída dos atletas Avex, Kikas, Totó, Amaro e Kizamba está confirmado?
É um dado que não posso confirmar, visto que são assuntos da direcção. Sem medo de errar, digo que, caso a equipa perca os atletas influentes, os objectivos traçados pela direcção ficam difíceis de serem alcançados com agravante de, até ao momento, ainda não termos respostas dos reforços solicitados. Não obstante a isso, estamos firmes com o fito de fazermos um trabalho que satisfaça os anseios do clube.

Caso mantenha o plantel anterior, ainda poderá clamar por reforços?
Sim. Os objectivos traçados por uma equipa devem ser reais e, quando assim acontece, obriga a reforçar-se, sobretudo, com atletas que ofereçam mais qualidade ao grupo e se identifiquem com a equipa que representam. A soma de tudo isso pode dar numa definição mais eficiente dos nossos objectivos.

Concretamente quais os sectores que gostaria de reforçar?
De formas a termos um grupo mais competitivo, gostaria de reforçar a baliza. O meio campo, embora possua bons atletas como Totó, Adawa e Avex, o seu lado direito deve ser reforçado; a zona do ataque necessita de um ponta-de-lança para fazer companhia ao Ndó. O lado esquerdo da defesa, onde Amaro tem sido quase o único a fazer com eficiência àquele lugar, também merece um apoio.
O clube não tem campos de treinos e de jogos oficiais. Essa falta pode comprometer os objectivos que perseguem?
Claro que atrapalha. Não há campos para treinos. O do São Paulo está em péssimas condições; há inúmeras equipas a trabalharem lá e igualmente o do Estádio dos Coqueiros. No entanto, torna difícil cumprir os nossos programas. Gostaríamos de ter o nosso campo para treinarmos a qualquer hora do dia. A direcção está empenhada na resolução da questão de infra-estruturas. Sei que vai levar algum tempo, mas acredito que, dentro de dois anos, teremos as nossas infra-estruturas para fazermos um trabalho mais tranquilo.

Como foi recebido pelo grupo de trabalho?
Gostei da forma como fui recebido quer pela Direcção quer pelos atletas. Espero integrar-me da melhor maneira possível na cultura do clube, de formas a levar avante os objectivos do mesmo.

Como avalia os níveis qualitativos do Girabola?
Tem havido um crescimento técnico, apesar de ser ligeiro. Noto que os atletas já interpretam da melhor maneira os esquemas tácticos concebidos pelos treinadores; já há melhoria de condições de trabalho para os atletas e os treinadores; existe intercâmbio entre a Federação Angolana de Futebol e outras Federações Internacionais, paradigma que promove o nosso futebol além-fronteira. Hoje, muitos dos atletas do Girabola fazem parte da Selecção Nacional; já se realiza campeonatos em campo relvado; existem alguns técnicos expatriados com experiência e a utilização de métodos modernos para treinamentos. Todos esses factores são indicadores que me levam a afirmar que o nosso Girabola está a crescer. É com muita pena é que os nossos atletas não conseguem se impor fora do país e chegam a jogar em campeonatos poucos competitivos.

Que avaliação se lhe oferecer fazer sobre a geração dos atletas da selecção de Sub-20 que ganhou o CAN’2001, uma vez que poucos ainda se encontram no activo, como Kikas, Mendonça, Lamá e Mantorras…
É com muita pena que a geração de atletas campeões africanos de Sub-20 e que foram ao Campeonato do Mundo na Argentina não conseguiram singrar no exterior. Creio que se houvesse uma visão sobre uma política de desenvolvimento desportivo, cuja estratégia virasse na protecção dos jovens talentosos, colocá-los a trabalhar em clubes ou centros de formação desportiva na Europa, onde podiam dar saltos qualitativos, hoje, vê-lo-íamos a jogar nos grandes clubes e nos diferentes campeonatos europeus. Essa perspectiva falhou e hoje temo-los poucos a competir, mas não a seu melhor nível. Falhámos uma grande oportunidade de termos grandes atletas e gostaria que não voltasse a acontecer.

Que comentário se lhe oferece fazer da Taça Africana das Nações Orange-Angola’2010 que o país vai organizar?
O CAN vai trazer muitos ganhos para o país e o mesmo já começa a fazer-se sentir com a construção de hotéis, melhorias da rede viária, aeroportos, campos de futebol entre outros ganhos imensuráveis que não vão servir apenas os intervenientes à competição, mas para todo o cidadão angolano e estrangeiro que habita e frequenta o país.

O que lhe diz o processo de preparação da Selecção de Angola?
Devia ter iniciado tão logo o país ganhou o concurso da realização da competição, de formas a obter-se uma preparação mais eficiente e que desse à selecção as garantias de passagem para diferentes fases da competição. Isso não aconteceu. Politizou-se em demasia o evento; colocou-se demasiada pressão sobre a selecção e, hoje, os objectivos deixaram de ser reais tornando-se numa tarefa muito difícil.

Que avaliação faz do grupo A da competição?
Calhámos num grupo equilibrado, apesar de ser com equipas, cujos jogadores militam nos melhores campeonatos da Europa; são agremiações, cujos níveis motivacionais estão em alta pelo facto de se qualificarem para o Campeonato do Mundo da África do Sul. O mais importante nesse tipo de competição é vencer o primeiro jogo. E acredito que, caso isso aconteça, os outros jogos serão encarados com mais motivação e determinação.