Jornal dos Desportos

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Reportagens

Maradona: 50 anos vividos entre a glria e a decadncia

30 de Outubro, 2010

Antiga estrela argentina completa hoje meio sculo de vida

Fotografia: AFP

Diego Armando Maradona, para muitos considerado o melhor jogador da história do futebol, celebra hoje 50 anos de uma vida que oscilou entre a glória, campeão do mundo, e a decadência, consumo de droga. A vida desportiva daquele a quem “os argentinos tudo perdoam”, nascido a 30 de Outubro de 1960 num bairro pobre dos subúrbios de Buenos Aires chamado Villa Fiorito, iniciou-se aos nove anos, no Cebollitas, e prosseguiu aos 15 no Argentino Juniores.

Quatro anos passados, e já como campeão mundial Sub-21, Maradona juntou-se ao Boca Juniores, clube com o qual conquistou o seu primeiro título de campeão, em 1981. Um ano depois, e após participação na primeira de quatro fases finais de um Mundial (Espanha 82), o jogador transferiu-se para o FC Barcelona, clube onde apenas venceu uma Taça do Rei, frente ao eterno rival, o Real Madrid. Espanha marcou também a lesão mais grave na carreira do argentino. Fractura do tornozelo esquerdo, provocada pelo defesa Andoni Goikoetxea, do Atlético de Bilbau. Corria o ano de 1983. A lesão afastou-o dos relvados durante mais de três meses.

Esta primeira etapa espanhola ficou também assinalada por uma hepatite, logo no ano da chegada à Catalunha, doença que o impediu de jogar por três meses. Se a isso se juntar a expulsão no Brasil-Argentina no Mundial 82, a passagem pelos estádios espanhóis ficou aquém daquilo que se esperava da estrela argentina. A “maldição espanhola” levou o Nápoles a contratar Maradona em 1984. A opção italiana veio a revelar-se um misto de “céu e inferno” para o jogador.

Em Itália, levou o Nápoles, pela única vez na sua história, a sagrar-se por duas vezes campeão: 1987 e 1990. Ganhou ainda uma Taça UEFA (1989), uma Taça de Itália (1987) e uma Supertaça italiana (1991). Inspirado pelos ares de Itália, Maradona carregou a selecção argentina até ao segundo título mundial (depois do Argentina 78), ao vencer a Alemanha na final do México 86, por 3-2. Nesse torneio ficou célebre o episódio da “mão de Deus”, lance assim definido pelo próprio, para justificar o golo marcado com a mão frente à Inglaterra nos quartos de final, jogo ganho pelos sul-americanos, por 2-1.

Quatro anos depois, de novo liderada por Maradona, a Argentina repetiu a final do Mundial (Itália 90), afastando os anfitriões nas meias-finais (1-1, 4-3 nas grandes penalidades). Mas os alemães desforraram-se e venceram o torneio (1-0 na final).

Expulso de Nápoles

Apesar da fase italiana ser a mais vitoriosa na sua carreira, foi também, para muitos, o período em que se deixou enredar pelo consumo de droga (cocaína). Foi expulso do Nápoles, em 1991. A saída da Itália levou-o de novo a Espanha, para uma época sem história no Sevilha (1992/93). Daí rumou à Argentina para jogar pelo Newell’s Old Boys (1993/94), regressando ao Boca Juniores (1995/97), onde terminou a carreira, com 37 anos.

Pelo meio ficou uma passagem efémera pelo Mundial EUA94, onde Maradona teve um controlo antidoping positivo (efedrina). Isso valeu-lhe a expulsão da prova e posterior castigo de um ano, aplicado pela FIFA. Ao longo da vida submeteu-se a vários tratamentos de desintoxicação de droga, o mais famoso dos quais, em 2000, quando passou uma temporada em Cuba, onde surgiu publicamente ao lado de Fidel Castro.

Maradona regressou aos palcos mediáticos ao assumir o comando técnico da selecção argentina (manteve uma permanente tensão com a imprensa), levando a equipa até aos quartos de final no Mundial 2010, na África do Sul, eliminada pela Alemanha (4-0). Após este desaire, e apesar do apoio dos adeptos argentinos, Dieguito, El Pibe de Oro, El Diez ou Pelusa – nomes pelos quais é carinhosamente tratado na Argentina – abandonou a selecção das Pampas. A federação argentina chegou a propor a retirada da camisola 10 do equipamento oficial, em homenagem a Diego Armando Maradona.

“Dava a vida para
voltar à selecção”


Diego Armando Maradona não desiste da selecção argentina. “El Pibe” foi afastado do cargo após o Mundial mas o sucessor até pode ser...ele próprio. Sérgio Batista assumiu o cargo interinamente, mas Maradona diz que “nem no Uruguai o conhecem”, e até admite aceitar o afastamento de algum adjunto, se isso for condição obrigatória para voltar. “Isso teria de ser falado.” “Eu sei que ainda tenho uma hipótese. Não tenho férias há um ano e meio. A minha prioridade é, era e será a selecção. Até que esse assunto fique encerrado, fico por cá. Dava a minha vida para ser seleccionador”, disse Maradona, em entrevista à FOX Sports.

Sergio Batista recebeu algumas críticas, sobretudo por ter dito que Messi era mais feliz agora. “Esqueceu-se dos 40 dias que passou connosco em Pretória”, respondeu Maradona, antes de falar do craque do Barcelona: “Faltou-lhe a coragem que eu tive em 86. Eu apareci nos momentos chave, e ele não. Mas fez um Mundial fantástico. Tirando o Iniesta, não houve melhor. Uma coisa é ser o melhor e outra é ser contundente, como foi o Forlán.”

Adversários  enaltecem desportivismo
e seriedade de um “héroi exemplar”

Oceano Cruz e Carlos Manuel, dois dos portugueses que tiveram o “privilégio” de defrontar Diego Armando Maradona, enaltecem a “seriedade e desportivismo” de um “herói exemplar” no mundo do futebol. Contactados pela Agência Lusa, os dois antigos internacionais portugueses recordaram os célebres duelos entre Sporting e Nápoles, da primeira eliminatória da Taça UEFA de 1989/90, mas também desvendaram outros acontecimentos nos encontros com o “astro” argentino, que celebra o 50.º aniversário no sábado. Carlos Manuel, que era o “capitão” do Sporting nessa temporada e disse à Lusa “nunca ter sido daqueles que guardavam camisolas” de outros jogadores – “eram outros tempos” –, contou um episódio curioso e diz-se guardião de um “equipamento histórico”: o de Maradona suplente.

O antigo internacional argentino começou esse jogo (0-0) no banco, mas acabou por entrar, num momento que “parou Alvalade”. “No final, estava a fazer declarações a uma rádio e bateram-me nas costas: era Maradona, a querer trocar a camisola. Devo ser a única pessoa do Mundo com uma camisola do Maradona, com o n.º 16 nas costas. O que nessa época era sinal de suplente”, disse Carlos Manuel. Nesse dia, 14 de Setembro de 1989, Maradona terá também ajudado elementos da Torcida Verde a transportarem os cabos das bandeiras, de ferro pesado, para a sala de apoio às claques.

“É um Deus. Iguala-se a Eusébio, Cruyff, Pelé. Já em Nápoles, no jogo da segunda mão, chamaram-me fora do balneário. Era Maradona. Queria saber se precisávamos de mais alguma coisa, se as instalações eram boas. Preocupava-se muito com o bem-estar de todos os adversários. Depois, dentro de campo, é o que todos conhecem”, lembrou ainda Carlos Manuel. O médio, que jogou no Benfica antes de chegar a Alvalade, recordou-se também de um jogo que os “encarnados” fizeram em Buenos Aires perante a selecção argentina: “E, já em 1981, Maradona era um grande jogador, com 20 ou 21 anos”.

Oceano também jogou contra Maradona e em duas ocasiões diferentes: pelo Sporting, quando o argentino estava no Napóles, e também pela Real Sociedad, já com o craque a alinhar no Sevilha. “Está no top-3 dos melhores jogadores de sempre. Quando, daqui a muitos anos, se falar de futebol, falar-se-á sempre de Diego Maradona”, disse Oceano Cruz à Lusa. “Pelo que deu ao futebol, tem de se falar sempre de Maradona com todo o respeito. Era um senhor, dentro e fora do campo. Quando jogámos um contra o outro em Espanha, no final, veio dar-me os parabéns pela boa exibição. Era assim com toda a gente”, recordou.

Oceano também falou da célebre aposta entre Ivkovic, então guarda-redes do Sporting, e Maradona, antes de o argentino bater uma grande penalidade no Nápoles-Sporting: o croata apostou, defendeu e recebeu 100 dólares (72 euros ao câmbio actual), voltando a defender outro “castigo máximo” do argentino no Mundial de 1990. “Bem, nos bastidores, depois falámos todos uns com os outros. É sempre assim no futebol. Mas, do Maradona, guardo grandes recordações. Agora, enquanto treinador, sei que ninguém ganha jogos sozinho. Mas Maradona era diferente. Se queria, ganhava o jogo sozinho. Era fabuloso”, concluiu Oceano.

Aimar presta homenagem

“El Pibe” completa meio século de vida hoje, sábado, e Aimar, numa iniciativa da marca de equipamentos desportivos Puma, mais do que endereçar os parabéns ao seu ídolo, presta-lhe autêntica homenagem através de mensagem vídeo.  O actual camisola 10 do Benfica começa por falar da sua própria carreira, ficando a perceber-se a grande ligação que tem com Saviola. Mas a mensagem versa, sobretudo, Maradona, um ídolo que serviu de inspiração para Aimar.

Pelé diz que Maradona
não é um bom exemplo

É conhecida a rivalidade que opõe Pelé a Maradona e nenhum dos dois perde uma oportunidade para a alimentar. Agora, foi a vez do astro brasileiro voltar a deitar achas para a fogueira, afirmando que “Maradona não é um bom exemplo”.“Eles (argentinos) passam o tempo a tentar encontrar alguém que possam comparar a Pelé. Na época áurea do Santos e do Real Madrid, na década de 1960, diziam que Di Stéfano era melhor que Pelé – e Di Stéfano fintava com a direita e com a esquerda e cabeceava bem. Maradona só jogava com a esquerda e não cabeceava bem. Por isso, quando vou à Argentina, digo-lhes: discutam primeiro quem é o melhor da Argentina e depois tentem ver quem é o melhor do Mundo”, disse.

Quanto a Maradona, Pelé considera que “teve muita sorte porque, apesar de tudo o que lhe aconteceu de errado na vida, como as drogas, há pessoas que ainda lhe oferecem emprego”. “Se essas pessoas fossem conscientes, dir-lhe-iam que ou se reciclava ou não teria trabalho. Não há maneira de apresentar como um exemplo alguém que faz coisas erradas. Foi um grande jogador, mas não é um bom exemplo”, concluiu.