Jornal dos Desportos

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Reportagens

Mariano Barreto aposta na conquista do Girabola

Avelino Umba - 23 de Março, 2010

Mariano Barreto termina contrato no final da presente época

Fotografia: Jornal dos Desportos

A eliminação prematura das Afrotaças mexeu com a estrutura psicológica da equipa?
Foi uma grande desilusão. Sofremos o golo quando faltavam poucos minutos para acabar o jogo, numa altura em que o APR não nos estava a criar dificuldades, embora os jogadores tivessem jogado sob o alerta de que o APR, sempre que jogou com equipas angolanas, saiu vencedor e fez bons jogos na segunda-mão. Julgo que houve alguma imaturidade, alguma ingenuidade pela forma como sofremos o golo. Não adianta estarmos a falar naquilo que não fizemos. Hoje, fica como uma triste experiência que não devíamos ter, porque experiências tristes, pessoa alguma gosta de as lembrar.

Que proveito tira do Esperance de Tunis, já que existe uma parceria com a mesma?
É um assunto que merece uma abordagem ao alto nível do clube, através do presidente Rui Campos. Mas posso dar um pequeno contributo em relação à mais-valia em termos de parceria com Esperance de Tunis. É um clube com crédito firmado no panorama futebolístico africano, tem uma estrutura profissional com uma larga experiência e com muitos conhecimentos nas competições africanas. São essas práticas que vão servir dentro do contexto daquilo que o Recreativo pretende ser no futuro. Aprendemos a trabalhar, fundamentalmente, com quem já tenha feito melhor. É essa troca de experiências que o Recreativo procura tirar nessa relação. Até agora, pelos contactos que já tive com essas pessoas, posso dizer que têm sido importantes na evolução daquilo que é a matriz posicional do próprio objectivo do Libolo, sendo hoje uma voz ouvida internacionalmente, apesar de só ter participado duas vezes nas competições da Confederação Africana de Futebol (CAF).

Que protagonismo o Libolo goza diante da CAF?
Hoje, a CAF sabe que o Recreativo de Libolo existe, toda a gente conhece o presidente e que foi ouvido num órgão de imprensa da CAF, onde deu uma longa entrevista. Isso só indica os aspectos positivos que terão reflexo também no próprio futebol angolano. O Recreativo de Libolo é parte integrante da Federação Angolana de Futebol e, sendo assim, o órgão reitor vai passar a ser uma voz presente quando o Libolo estiver. No fundo, é esse processo de aprendizagem e amadurecimento que, em boa hora, o presidente e a direcção do Clube decidiram ter, ao associar-se a uma referência internacional no panorama africano. Nessa conformidade, estamos bastante satisfeitos com tudo aquilo que temos vindo a aprender e a tirar as nossas ilações.  

"Gosto de estar onde me sinto bem"

Que razões o levaram a trabalhar em Angola?
Começo por lhe dar um exemplo. Em 2003, estava no Locomotive de Moscovo, quando o ministro dos Desportos do Ghana se encontrou comigo em Portugal. Em meia hora de diálogo, aceitei ir para o Ghana. Toda a gente me interrogava como era possível ter deixado uma equipa super profissional, que estava nos quartos-de-final da Liga dos Campeões, para comandar a Selecção do Ghana, que nunca tinha ido a um Mundial. Aceitei o convite, porque foi uma questão de desafio. E são os desafios que me absorvem e foi o desafio para criar condições para que o Ghana pudesse ir ao Mundial. Foi preciso acreditar que era possível esse projecto do Recreativo do Libolo de construir uma equipa que pudesse, não só ser também campeã em Angola, mas ser uma referência em África. Foi esse tipo de desafio que me fez vir para Angola, embora seja complicado para algumas pessoas que estão dentro de futebol, mas tenho-me sentido bem neste país. Se olhar para o meu passado, facilmente se apercebe que gosto de estar onde me sinto bem.   
         
A última equipa que treinou foi Kusan da Rússia. A sua vinda para Angola deve-se a um rompimento pacífico com a agremiação russa ou esteve no desemprego?
Tinha contrato até Dezembro do ano passado e vim para o Libolo em Maio. (Risos). Era o manager da equipa e responsável pelos treinadores do Kusan. Quando apareceu o convite do Libolo, pedi ao Kusan para ser autorizado a sair. Hoje, tenho muita pena pelo facto de a equipa russa ter descido de divisão. Quando estive no Kusan, em Junho, a equipa estava em oitavo lugar, uma posição tranquila, mas infelizmente as coisas acabaram por não lhes correr bem, mas não podia fazer nada. Algumas pessoas ficaram revoltadas comigo, mas infelizmente foi a opção que tomei como qualquer técnico. Estive lá no ano passado, para visitar amigos e tenho convite para voltar sempre que poder. Infelizmente, ficou a mágoa por ter saído. No futebol, nunca andei à procura de emprego. Naquela altura, estava empregado.

O contrato assinado com Recreativo de Libolo satisfaz-lhe?
O meu contrato termina no final desta época e espero que a sensação que tive, quando acabou o Girabola passado, seja igual e seja para mim uma satisfação pelo dever cumprido e a consciência de que as pessoas também ficaram contentes com o trabalho que desenvolvi.

E quanto às condições de trabalho, são boas?
São aquelas que temos. Eventualmente, podíamos pensar que tínhamos de ter um outro campo de apoio para desenvolver as nossas actividades, mas sabemos que a direcção faz esforços fortíssimos para termos um segundo campo. Está em estudo a possibilidade de termos um campo sintético que seria também o campo de apoio para trabalho de formação das equipas juniores e juvenis. Infelizmente, por falta dessas estruturas, esses grupos são obrigados a ficar em Luanda. Há um esforço titânico da direcção do clube no sentido de ultrapassar as dificuldades, embora não seja fácil, dadas as limitações existentes.

Alguns entendidos do futebol apregoam que o campo de Calulo tem curto tempo de vida...
A falta de um campo de apoio constitui na nossa preocupação, pois, podemos desgastar completamente o único que temos, se treinarmos nele todos os dias e fazermos os jogos oficiais. Em contrapartida, temos um ginásio, que deve ser o melhor existente em Angola, delineado para uma equipa de futebol, com máquinas da última geração, do melhor que existe. Os nossos balneários são os mais modelados, que preenchem todos os requisitos para uma equipa de alta competição.

"Ganhar o Girabola´2010
é a premissa mais forte"

Depois de se estrear na época passada, quais são as ambições para o Girabola´2010?
É dar sequência ao excelente trabalho que o pequeno clube do interior faz em prol, não só de futebol da região, mas também do contributo que dá à evolução do próprio futebol angolano. É um clube com pouco mais de três anos de experiência. No primeiro ano, em que ascendeu à competição, teve uma prestação excelente, posicionando-se em terceiro lugar, e no ano seguinte, conseguiu dar seguimento ao trabalho e terminou o campeonato com todo o mérito na segunda posição. Com essas performances, conseguimos despertar algumas consciências que estavam adormecidas e dinamizamos uma região que comunga connosco, carregando alegria e entusiasmo que o futebol foi capaz de transportar para uma pacata vila do interior de Angola. Sabemos que todo o ser humano tem as suas ambições e quanto mais ilimitadas, mais são as forças que o fazem viver.

Quer explicar-se melhor?
As nossas ambições não têm limites. Queremos todos os dias fazer melhor que nos dias anteriores. Quando falamos das nossas ambições, falamos de forma consciente e não de forma irresponsável, ou seja, temos da noção das dificuldades e limitações que temos. Sabemos onde estamos localizados e o Recreativo tem um caminho longo a percorrer. É para dizer que já conseguimos ou estamos muito próximos daquilo que são as nossas ambições. Queremos fundamentalmente corrigir os erros, estar melhor organizados e que o nosso clube funcione de forma profissional e melhore as infra-estruturas, para que as pessoas de Calulo também venham a fazer parte desse projecto, uma vez que todos os jogadores do Libolo são exteriores a Calulo. Para nós, melhorar é sensibilizar os jovens jogadores para que possam ser profissionais da equipa do Libolo. Portanto, para mim, estar melhor não é apenas estar em primeiro lugar, mas sim também melhorarmos as condições das infra-estruturas, do trabalho e criarmos raízes na terra. Nas anteriores convocatórias para a Selecção Nacional, apenas um jogador era convocado, ao passo que, neste momento, temos cinco ou seis jogadores convocados. Isso foi uma das coisas que fizemos com orgulho.

Chegar à primeira posição do Girabola’2010, no fim da época, é uma ambição pessoal ou uma exigência da direcção?
Se essa não fosse a minha principal ambição, acredito que não teria saído de uma equipa da Rússia para uma equipa angolana. A minha vinda para Angola tem a ver com um projecto, onde as ambições estavam explícitas e achava que havia todas as condições para organizar uma estrutura que pudesse dar garantias de conseguir um primeiro lugar. Ganhar o Girabola é, naturalmente, uma das premissas mais fortes. Como professor universitário, tenho dito aos meus alunos que, parafraseando Mourinho, que foi campeão de Itália no ano passado: "Se fosse possível contratar 18 Mourinhos, das 18 equipas da Série A italiana, apenas uma seria campeã".

O que quer dizer com isso?     
Que somos candidatos ao título e assumimos essa responsabilidade, embora saibamos que não vai ser fácil. Atendendo ao que somos capazes de fazer e ao que podemos ultrapassar, certamente, sem sombra de dúvidas, ganhar o Girabola’2010 é a meta que todos desejamos atingir, mas não é uma opção.

Como avalia o ambiente no clube?
É fantástico. Libolo tem tudo aquilo que uma equipa de futebol precisa para desenvolver a sua actividade. Estamos numa vila tranquila, de gente pacífica, fantástica, que nos apoia, vai aos treinos e que se revê nos jogadores.

Que avaliação faz do actual estado da equipa?
Passadas quatro jornadas, temos a impressão de que, em função do que já fizemos, devíamos estar melhor, mas temos noção das limitações. Trabalhamos para que essas limitações diminuam bastante e joguemos de uma forma diferente das outras equipas do Girabola. Acredito que também vamos fazer boa campanha este ano. Somos uma equipa que joga futebol apoiado, trabalhando-a bem. Procurámos identificar as nossas lacunas e as nossas insuficiências no final do ano passado e fizemos uma aposta nos jogadores angolanos dentro do mercado local para suprir as limitações. Conseguimos quase 90 por cento dentro da estrutura da equipa, reforçámos a nossa baliza, a defesa e o meio-campo, contratámos dois jogadores ofensivos que jogaram no estrangeiro, o Edson e o Zé Kalanga. Tínhamos programado a contratação de dois pontas-de-lança no início do presente Girabola, mas por situações que não podemos controlar e que têm a ver com a localização de Calulo, não aceitaram ingressar no Libolo, o que só temos de aceitar. 

Jogadores vieram
a custo zero

Há necessidade de se reforçar mais a equipa, mesmo com as contratações de luxo?
     
Quando se fala em reforços, temos de situar em dois patamares: há reforços no verdadeiro sentido da palavra e outros que são tidos como reforços, que no fundo, são entradas de jogadores. Tivemos na organização do plantel para esta equipa duas vertentes que são: o preenchimento do plantel, em função das lacunas criadas com a saída de alguns jogadores que terminavam os seus contratos, motivado pelo fim da carreira desportiva. São os casos de Gazeta, Rats, André Cunha, entre outros. Tínhamos de colmatar, porque nem todos os jogadores que entraram, podiam ser referenciados como reforços. Reforços são aqueles com provas dadas. Sabemos que há jovens com um nível potencial muito forte, tal como o Quinzinho, um jovem que veio do Bravos do Maquis. Tínhamo-lo identificado como jogador com uma margem de evolução interessante. Hoje, podemos dizer que é mais um reforço, mas quando foi trazido, era mais um jogador para o plantel.

E os outros?
Rami era um jogador que vinha suplantar a saída de um outro com algumas características interessantes e sei que vai ser um reforço. Pitchu foi contratado porque o Ângelo foi dos melhores guarda-redes do Girabola da edição passada, mas não tinha uma oposição à altura. As nossas ambições são de ter dois bons guarda-redes do mesmo nível. Osvaldo é um jovem com algumas qualidades, que teve algumas experiências que não lhe correram bem no estrangeiro. Não tenho dúvidas de que vai ser um grande reforço, tendo em vista o trabalho e qualidade demonstrados por si. Chinho é um jogador com alguma história no Santos Futebol Clube, já foi jogador da Selecção Nacional. Nos últimos cinco jogos no Girabola passado, não jogou por causa da uma lesão. Progressivamente, trabalha sem limitações e espero que também venha a ser um reforço. Yuri é um lateral direito que precisávamos, porque tínhamos em mente que é um excelente jogador. É verdade que não tínhamos em mente o substituto à altura, porque o jovem que tínhamos era um ex-júnior não rotinado com as exigências da competição, daí a sua contratação. Há três anos, Zé Kalanga brilhou em Portugal, mas desapareceu do panorama futebolístico na última época, em função da sua ida para o Dínamo de Bucareste. É um jogador que tem muito para dar ao futebol, faz parte de um lote de jogadores angolanos de qualidade, mas tem estado ‘apagado’.