Jornal dos Desportos

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Reportagens

Médio do Polivalentes FC escapa a contrato com Ajax

Paulo Caculo - 02 de Julho, 2012

Anita prossegue carreira no país onde espera ganhar enorme visibilidade.

Fotografia: Jornal dos Desportos

Paulo da Rosa é a mais nova atracção do Polivalentes FC. O médio promissor, conhecido nas lides futebolísticas por Anita, esteve muito próximo de assinar pelo Ajax de Amesterdão aos 15 anos, em 2004, sonho que ficou adiado devido a um regresso inesperado do irmão mais velho ao país. Aos 22 anos, o jovem talento fala da brilhante experiência nas escolas de formação do clube holandês, como se de fotos guardadas numa memória se tratasse. Recorda com nostalgia as semanas de treino na Academia de Amesterdão, das aulas práticas de futebol e das longas abordagens aos fundamentos tácticos e suas definições.

“Jogar futebol não era o meu sonho. Desde pequeno que sonhava ser advogado, por isso é que eu e o meu irmão estivemos a viver na Holanda”, declarou o camisola 19 do Polivalentes FC, adiantando-se a esclarecer as circunstâncias em que surge a treinar nas escolinhas do Ajax de Amsterdão.
“Foi num torneio de futebol de rua, organizado pela Coca-cola, que fui visto pelos ‘olheiros’ do Ajax. Fizeram-me um convite para ingressar na Academia, mas rejeitei, porque não levava o futebol a sério.

No segundo torneio, voltei a ser contactado e houve uma conversa mais aberta, em que os responsáveis do clube acabaram por me convencer a ir treinar. Na altura, como o Nando Rafael jogava lá e era amigo do meu irmão, acabei por ganhar interesse em tentar a sorte”, acrescentou Anita, “peça” fundamental na manobra ofensiva do clube do Distrito do Kilamba Kiaxi.

EXPERIÊNCIA
A partir do momento em que pisou os relvados do Centro de Formação do clube holandês, o jovem angolano passou a encarar o futebol como grande paixão. Maravilhado com as condições de trabalho postas à disposição dos garotos, chegou a acreditar que o seu futuro passava pelo Ajax. “A partir dessa altura, o futebol passou a ser o meu sonho. Lembro-me da Academia como se fosse hoje. Tenho boas recordações da escola de Amesterdão. Aprendi a jogar futebol, não só em campo, mas também na carteira. Tive aulas sobre posicionamento táctico e pude aprender tudo.

Acho que foram os melhores dias da minha vida. Disputei torneios internacionais da Nike, na China, Ghana, Japão, Brasil. Foram momentos marcantes na minha carreira”, referiu. O jogador lamenta a forma como deixou a Holanda, volvidos sete anos, num momento importante do começo da sua carreira. Confessa ter ficado triste com a decisão do irmão em regressar, definitivamente, ao país, porque acha que caso permanecesse em Amesterdão hoje estava a atravessar uma carreira muito mais promissora do que aquela que protagoniza ao serviço do Polivalentes FC, do segundo escalão nacional.

“Sinto muita saudade dos tempos da Academia do Ajax. Gostava de poder continuar lá e sinto ciúmes quando fico a saber que os meus amigos da escola de formação estão hoje a jogar na equipa principal”, realça o jogador, que reafirma ter sido um regresso contra sua vontade. “O meu regresso deveu-se ao meu irmão, que tinha direitos sobre mim. Vínhamos apenas para visitar familiares e de repente ele decidiu ficar por cá e eu, enquanto menor de idade, não podia voltar para a Holanda sozinho. Os dirigentes do Ajax quiseram adoptar-me, mas o meu irmão rejeitou”.

FUTURO
“Quero ganhar visibilidade”

O Polivalentes FC surge na carreira de Anita como a mais nova oportunidade para o jogador ganhar projecção no país. Apesar de ser um clube modesto, que disputa o torneio de apuramento ao Girabola de 2013, o médio esquerdo acredita que pode ajuda-lo a ganhar enorme visibilidade para os clubes grandes do campeonato.

“Espero fazer uma boa época, ajudar o Polivalentes a conseguir os objectivos na Segunda Divisão. Acredito que tenho aqui uma boa projecção para um clube grande do Girabola. Esse é o meu grande objectivo. Quero representar um clube de topo em Angola”, confessou Anita, que aparece no Polivalentes depois de dois anos no Belenenses de Angola, onde foi descoberto pelo ‘mister’ Moniz.

“O técnico falou comigo e pediu que ficasse na equipa, porque acreditava que tinha um futuro promissor. Disse-me que tinha um estilo de jogar ofensivo e tinha qualidade para conseguir um bom contrato numa equipa do Girabola”,  Embora aponte o principal campeonato de futebol do país como uma das metas a alcançar nesta primeira aparição no mosaico futebolístico nacional, o jogador proveniente das escolas do Ajax de Amsterdão não descarta a possibilidade de regressar à Holanda ou ao futebol europeu.

“Gostava de aproveitar o campeonato em Angola apenas como trampolim para uma carreira fora do país. Acho que as condições lá fora são outras e melhores. Sou um jogador ambicioso e espero alcançar altos patamares na minha carreira”, rematou o atleta, que no sábado integrou a equipa titular do Polivalentes no jogo com o Pekandec de Malange.   PC

CARREIRA
Onda de lesões dificulta objectivos

Anita considera estar a enfrentar uma carreira afectada por constantes lesões. O médio acredita que se não fosse esta grande contrariedade, hoje estaria a envergar a camisola do 1º de Agosto ou do ASA, dois dos clubes grandes do Girabola que manifestaram interesse nos seus préstimos. “A minha carreira tem sido perturbada por lesões, visto que, quando cheguei aqui, fui ter com o técnico Johannes Brouwer, no 1º de Agosto, que viu o meu cartão da selecção da Holanda de sub-15, e pôs-me a treinar com os juniores, mas tinha apenas 16 anos. E como os atletas dos juniores tinham já uma massa muscular muito diferente da minha, a adaptação não foi fácil”, contou.

Apesar da condição física ou fraca robustez, Anita assegura que tentou conquistar um lugar na equipa, mas no ano seguinte, em que esteva para ser inscrito, não tinha a documentação angolana, outro pesadelo que o levaria a escapar à tal afirmação no clube militar, então orientado pelo holandês Jan Brouwer e o angolano Miller Gomes. “Disseram-me que não podia obter a dupla nacionalidade cá e tinha de entregar o passaporte e o bilhete holandês. Esse processo levou-me mais de um ano só para receber o bilhete angolano. Durante este tempo todo fiquei parado e esfumou-se a minha intenção de jogar no 1º de Agosto”, lamentou.

Depois do 1º de Agosto, Anita chegou a ter porta aberta para integrar a equipa do ASA, mas novos problemas de lesões o afastaram do estágio e, consequentemente, da assinatura do contrato. “A minha ambição não foi jogar apenas nos juniores. Mantive o contacto com o mister Paulão e num jogo no campo do São Paulo lesionei-me com gravidade no joelho esquerdo, devido à má condição do relvado e fiquei quase um mês parado. Nesse período, o técnico Paulão já projectava um futuro para mim no ASA”.  PC


HISTÓRICO
Anita jogou o Europeu de Sub-15 pela Holanda

O médio do Polivalentes FC recorda com satisfação a sua primeira internacionalização pela selecção de Sub-15 da Holanda. Anita afirma que em 2005 vestiu, pela primeira vez, a camisola da selecção de jovens da “laranja mecânica”, tendo conseguido corresponder às expectativas. “Foi uma experiência agradável. Penso que foi um campeonato muito bem disputado, em que conseguimos uma boa classificação. Pessoalmente, acho que fui capaz de cumprir com o esperado”, disse o jovem médio, que acredita poder voltar a marcar presença numa competição de dimensão mundial.
“Acredito que um dia vou voltar a jogar ao mais alto nível. Ainda tenho uma carreira longa pela frente. Sou jovem, tenho confiança e estou optimista num futuro brilhante. Preciso apenas de algum tempo para me afirmar no futebol angolano”, frisou.