Jornal dos Desportos

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Reportagens

Mendinho "vibrava" as multidões

Augusto Fernandes - 13 de Julho, 2015

Mendinho diz que o seu tempo é anterior ao CAN nem ganhavam balúrdios de dinheiro porque jogavam por amor à camisola

Fotografia: Jornal dos desportos

António Mendes da Silva é o nome completo do conhecido Mendinho, antigo jogador do Inter e do 1º de Agosto. Veloz, forte no jogo um contra um, forte pontapé,  bom a marcar livres, fisicamente dotado de “ pulmões de aço”. A antiga estrela do futebol nacional, a conversa com o Jornal Desportos, conta que foi por volta de 1974/75, que começou a jogar futebol no Rangel, bairro que o viu nascer e por volta dos oito anos começaram a sobressair os seus dotes futebolísticos que não passaram despercebidos a um “olheiro”  do Sporting do Maxinde.

“ Na época, tinha cerca de 14 anos de idade,  um kota que me via jogar no bairro, levou-me ao futebol jovem do Maxinde. Quando lá cheguei, era treinador o Semica e encontrei o Quim Sebas, Malé, Pai Lopes, Jaburú, Manuel, e muitos outros até atingirmos os seniores.”  Depois de  começar a jogar alguns meses como sénior, Mendinho revela que teve de alistar-se nas Forças Armadas, por ter atingido a idade militar,  assim, depois da recruta foi colocado na Marinha de Guerra de Angola e teve permissão para jogar mais uma época no Sporting do Maxinde.No seguimento da carreira, foi duas vezes campeão nacional pelo 1º de Agosto, mas foi no Interclube de Luanda onde se notabilizou. No activo jogou ao lado de Quim Sebas,  Malé, Pai Lopes, Ângelo, Lourenço, Ndunguidi, Zico, Amândio, Zico, Jesus, Lufemba, Sarmento, Lúcio, Paulão e outros antes de partir para Portugal, onde actuou três épocas no Alverca.

No entanto, o falecido Ângelo da Silva, antigo guarda redes do 1º de Agosto, e o também falecido Comandante Orlogue, conheciam-no muito bem, fizeram a “papinha” para que  Mendinho,  na altura com  20 anos de idade, fosse representar o clube militar.

“ Quando cheguei ao 1º de Agosto, o treinador era o Nicola Beraldinelli e dentre outros encontrei o Zeca, Garcia, Mascarenhas, Sabino, Amândio, Lourenço,Napoleão, Ndunguidi, Ndogala, Sansão, Mateus César, Luvambo, Julião Dias e outros e depois vieram o Nelo, Barbosa, Ivo, Vieira Dias e outros”, conta Mendinho.

Nesse período, disse, o 1º de Agosto era simplesmente a melhor equipa do país. Todos os jogadores acima mencionados era craques. Só jogavam os craques nessa equipa e por isso, o nosso entrevistado teve de aplicar-se a fundo para conseguir a titularidade. Recorda-se, que nesse tempo, o meio campo do 1º de Agosto era muito forte, tinha o Zeca, Amândio, Mateus César, Chimalanga e outros. Como em relação ao Chimalanga, Mateus César, Sabino eu era mais novo, à medida que  eles saíam dava-se oportunidade aos mais novos e assim aos poucos “agarrei a titularidade porque sempre que  me fosse dadas  oportunidades eu aproveita-as muito bem”.

Mendinho passou a jogar a titular na poderosa equipa militar e o seu primeiro jogo com a camisola rubro negra foi com o Matchedje, de Moçambique, no estádio da Cidadela.

OUTROS VOOS
Contrato com Alverca
e o regresso a Angola


 “ No Alverca, fui muito bem recebido por todos os colegas, que maioritariamente, eram portugueses com excepção do Jaiminho, que era brasileiro e eu angolano. Não foi difícil impor-me. Mas isso não significa, que os demais jogadores eram pêras doces, aliás a segunda divisão portuguesa naquela altura era muito competitiva”, diz Mendinho.

 Para a  sua cedência, o Inter de Luanda beneficiou de equipamento desportivo  e estágios em Portugal, porque  a sua saída foi pela porta de frente, numa época em  que  “a nossa política não permitia que os jogadores angolanos jogassem fora do país, os que conseguiam saíram de ‘fininho’, mas felizmente, no meu caso os dirigentes do Alverca falaram com a direcção do Interclube e lá viajei para Portugal” comentou Man Mendes, como também é conhecido. No Alverca, Mendinho jogou três épocas, na segunda divisão e não teve nenhuma conquista de realce, conseguiu um terceiro lugar na zona B  que contava com 16 equipas, em 1990.

Mendinho diz, no entanto, que “durante o tempo que vivi em Portugal fiz muito boas amizades e dignifiquei o futebol angolano, pois, era muito querido pelos adeptos  do Alverca e não só”. Isso, até em 1993, altura que regressou a “casa” e ingressei no Progresso do Sambizanga.                

1982
Ingresso no Inter
com técnico Semica

Entre os anos de 1982 e 83, Mendinho rumou para o Inter de Luanda, onde veio a  afirmar-se como grande jogador de futebol, tendo sido três vezes vice - campeão nacional e ganhou uma taça de Angola e uma super - taça.

A influência de Mendinho, foi tão grande no Inter de Luanda, que ainda hoje é uma figura incontornável naquele mítico clube.
Quando chegou ao clube, o treinador era o seu professor no futebol jovem do Maxinde, o lendário Severino Miranda Cardoso, ou simplesmente Semica. De entre outros, encontrou o Raúl Kinanga, Simão, Paciência, Pirocas, Gomes e o Quinito.

Mendinho confessa, que “não foi difícil impor-me no Inter, pois, vinha de um grande clube e também justificava a minha contratação, porque sempre trabalhei duro para estar entre os melhores nas equipas por onde passei”.

À medida que o tempo passava o Inter de Luanda foi evoluindo e a dada altura, chegou a ser uma das equipas mais perigosas do Girabola, nos anos 85/86, com o famoso futebol de três toques.

O antigo médio, conta, que esse estilo consistia no facto do guarda redes entregar a bola a um defesa, que por sua vez entregava-a a um dos médios criativos, no caso, lembra” eu ou o Raúl que depois de abrir um buraco no meio campo do adversário, com um ou mais dribles lançava em profundidade para o ponta de lança, que normalmente era o Quinito  e fazia o golo. Dificilmente, esta estratégia falhava”.

No Inter, durante cerca de nove anos, disputou mais de 200 jogos e marcou uma boa dezenas de golo, porque  marcava muitos golos embora fosse médio ofensivo.

O antigo “camisola 8,” nos clubes por onde passou, era um jogador fogoso. Rápido, veloz e com pulmão de aço, bom executantes de livres directos, porque tinha um pé direito fortíssimo e fazia cruzamentos perigosos  para a aérea adversária ao alcance da cabeça do ponta de lança. Também era forte na execução de pontapés de canto, que normalmente eram feitos com muita intenção. Com Raúl Kinanga e Kinito, constituíam o trio maravilha do Inter de Luanda.

Mendinho recorda-se, da primeira vez, que enfrentou o 1º de Agosto com  a camisola do Inter. Ele diz que “ os mais velhos como o Lourenço, Zeca, Ndunguidi e outros vinha para cima de mim com conversas do tipo: oh rapaz, cuidado, se quiseres sair inteiro do campo” e eu nas calmas, ia fazendo o meu jogo sem medo dos kotas, “mas com todo o cuidado.” Contra o Petro de Luanda, com jogadores como Tó Zé, Balalau, Jesus, Antoninho, Abel Campos, Lufemba, Mona, Avelino, Betinho,  e outros,  que destronou o 1º de Agosto do reinado do futebol angolano  a partir do 1982, eram dos jogos mais difíceis a nível do Girabola, além de outros jogos com a Académica do Lobito, Petro do Huambo, Construtores do Uíge, Taag, Petro do Huambo, com Picas,  Saavedra, Almeida, Avelino Lopes, eram jogos de grande nível técnico e de fazer inveja a muitos jogos na Europa, segundo o nosso entrevistado.

RECORDAÇÃO DOS PALANCAS
Chamado para defrontar Cuba


Mendinho foi convocado, pela primeira vez, para representar a selecção nacional de futebol em 1977, quando ainda representava o Maxinde. Recorda-se ainda e diz que “foi com grande espanto que recebi a convocatória para o torneio Angola -Cuba. A selecção era composta de jogadores como: o Inguila, Arménio, Dinis, Garcia e outros,  fomos a Cabo Verde e a Moçambique”.
Conta, que “não fiz nenhum jogo com Cuba, estava no banco. Aliás, não tinha grandes hipóteses diante daqueles cotas. No entanto, a partir de 1979/80 passei a ser chamado com regularidade.” 

Mendinho não tem em mente o número de vezes, que representou os Palancas Negras, mas fica agrado dizer que “ foram várias vezes e sempre titular, um dos jogos que mais me marcou pela selecção nacional foi com  a Guine Equatorial na Cidadela”, disse.  “Estávamos a perder por uma bola a zero. Eu marquei o golo do empate e acabamos por vencer o jogo por 4-1. Fiz uma grande exibição e senti-me muito feliz naquele dia. Houve mais jogos, que também me marcaram muito, contra o Gabão e o Zimbabwe, nas suas respectivas casas”, lembra.

Das várias vezes, que representou os Palancas Negras, jogou  ao lado de jogadores como o Jesus, Santinho, Paulão Sarmento, Fuso, Maluka, Ndunguidi, Nsuka, Mané, Vieira Dias, Mavó, Quim Sebas, Vicky, Lourenço, Salviano, Eduardo Machado, Avelino, Zico, Mona, Felito, Nelson, Ivo e muitos outros.

“ No meu tempo não fomos a um CAN e nem ganhávamos balúrdios de dinheiro, jogávamos por amor à camisola e à Pátria, mas dignificávamos o nosso pais com futebol de qualidade. Todos os chamados grandes do continente, como os Camarões, Nigéria, ou Costa do Marfim, tinham de suar a camisola para nos levarem de vencida com todos os profissionais deles”, gabou-se.

Mendinho diz, que “ fico muito triste ver a nossa selecção jogar sem personalidade, sem a garra que nos é característica. Mas acredito, que em pouco tempo, vamos reverter o quadro. O maior erro foi não termos apostado sério nas camadas de formação. Mas vamos superar esta situação o mais rápido possível, porque por natureza, somos bons jogadores”, garantiu.

RECONHECIMENTO
“1º de Agosto era o viveiro do futebol no meu tempo”


Embora ainda hoje muita gente discorde do facto do 1º de Agosto, no seu tempo, recrutar a maior parte dos melhores jogadores em idade militar, Mendinho defende tal posição.

“Com tal atitude, sem se aperceber, o 1º de Agosto era o viveiro do futebol angolano no meu tempo, os melhores jogadores estavam concentrados no mesmo clube e com o mesmo treinador. Não foi em vão que as nossa melhores selecções foram as compostas maioritariamente por jogadores do 1º de Agosto e depois com os do Petro de Luanda que também foi viveiro do futebol nacional durante um bom tempo.”

“Desde que o 1º de Agosto e o Petro de Luanda deixaram de ter esta supremacia, o futebol a nível de selecção decaiu, mas em termos de clubes deu um salto muito grande. Hoje já temos um Libolo, Kabuscorp e um Benfica de Luanda a ombrearem com os antigos crónicos candidatos ao título. Tudo isto graças ao equilíbrio que hoje existe nos orçamentos de algumas equipas.”

Mendinho lembra ainda que no tempo em que jogou no clube militar aprendeu muito e fez muito boas amizades.
“Sou filho do Inter de Angola, mas sinto um carinho especial pelo 1º de Agosto, por ter sido o clube que me abriu as portas para o profissionalismo. Ganhei dois campeonatos nacionais em 1980 e 1981 e fiz vários jogos internacionais para as taças dos clubes campeões contra equipas como o Canon de Yaundé, Bilima de Kinshasa, Enugu Ranger da Nigéria, Vita Clube de Kinshasa, e outras. Depois disso as coisas não me correram bem e preferi abandonar clube.”

O Girabola, lembra ainda o antigo médio, era muito forte e a maior parte dos estádios eram pelados. Haviam apenas seis estádios com relva, Coqueiros e Cidadela em Luanda, Cacilhas e do Ferroviário, no Huambo, o da Nossa Senhora do Monte e o do Ferroviário, no Lubango.

“Mesmo assim, todos os estádios lotavam por completo em jogos normais e em jogos de cartaz, como por exemplo 1º de Agosto-TAAG, nos Coqueiros. As barrocas em frente ao estádio ficavam completamente cheias de gente e no prédio atrás das bancadas metálicas via-se o terraço abarrotado de gente. No Lobito, no estádio do Buraco, um Académica do Lobito-1º de Agosto lotava toda a montanha em frente da bancada principal do estádio”, lembra com saudade.
                   

PERFIL

Nome completo:
António Mendes da Silva
Filiação: Domingos António Mendes e de Joana Domingos
Data e local de nascimento: 04 de Março de 1959, no Rangel (Luanda)
Estado civil: Casado
Filhos: 08
Altura: 1,68m
Habitualmente jogava com a camisola nº: 8
Música preferida: Kizomba
Prato: Fungi de bagre
Bebida: Cuca bem geladinha
Tempos livres: Ler, ouvir música… estar com amigos
O que mais teme na vida: A morte
Acredita em Deus: Sim
Porquê: Porque sem Ele  seria impossível eu existir
Casa própria: Tenho
Carro: De momento não tenho
Sonho: ver os meus filhos realizados e Angola desenvolvida