Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Reportagens

Milhões queimados em queda livre

06 de Dezembro, 2017

O gerador

Fotografia: ARIMATEA BAPTISTA | Edições Novembro

A odisseia do gigante edificado no sopé da Serra da Chela, no bairro do Tchioco, começou com o lançamento da primeira pedra para a construção que durou quase um ano, passou para a realização de importantes jogos tanto do CAN2010, como para os compromissos dos Palancas Negras.
Nessa altura, foi palco de feliz memória para a selecção nacional: empate a zero com a Namíbia, em Dezembro de 2011, vitória sobre os “Leões Indomáveis” (1-0) em 2012, goleada no jogo com a Libéria, por 4-1, em Setembro de 2013, na despedida da campanha para o Mundial 2014.
O último foi a 13 de Junho, com a vulgarização da República Centro -Africana (4-0), jogo em que se revelou Gelson Dala que marcou na estreia dois golos. Tratou-se da primeira jornada do Grupo B, qualificativo para o CAN2017, do Gabão.
Hoje, para quem acompanhou desde o começo a história do Estádio, a imagem que se apresenta é de \\\"cortar o coração\\\", pois, a relva desapareceu por completo e deu lugar ao capim de meio metro.
O Estádio era abastecido por uma conduta da rede normal e que quase sempre falhou, o que levou à seca da relva.
Desde a inauguração, já foi obrigado a fechar as portas por quatro vezes, para recuperação da relva, mas nunca demorou tanto como agora, pois, já lá vão dois anos sem actividade desportiva, acolhe de vez em quando manifestações religiosas, porque as culturais evitam o local. O gerador \\\"desaparecido\\\" fragilizou o sistema de rega, que sofreu um novo golpe com o furto das electrobombas. Até agora, não há culpados,  nem há processo -crime na Procuradoria sobre o assunto.
Ninguém aceita falar acerca  da questão, nem procuradores, porta-voz da delegação do Ministério do Interior ou administrador da infra-estrutura, mas fonte que acompanha o caso disse que as autoridades sabem quem o levou. No interior do Estádio, nota-se a depredação da banca de imprensa, por completo, há também registo de saques de mobiliário e de loiça sanitária dos Wc onde a água não sobe, enquanto nas bancadas as cadeiras estão danificadas pelo sol.
Os três anos sem salários afugentaram os 20 trabalhadores da área de limpeza e manutenção, deixaram o administrador à sua sorte. Até hoje, passaram três gestores.
O director nacional para a política desportiva, António Gomes, prometeu em 2015, no Lubango, que o governo da Huíla e o ministério da Juventude e Desportos ia adoptar soluções viáveis para a manutenção do normal funcionamento do Estádio, com abertura de mais quatro furos de fornecimento água para a rega, mas não se  passou disso.
Hoje regista-se  movimentos, já que nele funciona uma academia de polícia, serviços de identificação civil e criminal, e o seu estacionamento é usado para provas de desportos motorizados.

OUTROS RECINTOS
Padecem do mesmo mal Tundavala e Senhora do Monte


A sintomática situação do Estádio da Tundavala não é um caso isolado. Os Estádios da Senhora do Monte e do Benfica do Lubango que também beneficiaram de investimentos públicos para o CAN2010, padecem do mesmo mal, embora este último, esteja a ser recuperado pelo clube que o detém.
Denominado 11 de Novembro, o Estádio do Benfica do Lubango teve um financiamento de quatro milhões de dólares, cujas obras incidiram sobre toda estrutura física e a aplicação de um novo relvado, em 2009.
O Estádio da Senhora do Monte, entregue pela administração do Lubango à gestão do Desportivo da Huíla, serve para congressos religiosos. Não se faz absolutamente nada,  para o recuperar.
Com capacidade para seis mil lugares, teve a reabilitação custeada também pelo Estado e custou 12 milhões de dólares.
Neste momento, o único Estádio em pleno funcionamento e que também foi reabilitado na mesma ocasião, é o do Ferrovia da Huíla e que acolhe as partidas do GirabolaZap.
Sabe-se que o Estádio da Tundavala necessita de pelo menos de 12 milhões de Kwanzas mês, para este fim, enquanto o pavilhão principal e os seus dois anexos, precisam  de cinco milhões.

Reacção das autoridades
Em declarações à Angop, no quadro desta reportagem, o director provincial da Juventude e Desportos, Joaquim Tyova, afirmou que o seu pelouro controla todas as infra-estruturas desportivas, incluindo as que estão ligadas ao desporto escolar.
As principais são os Estádios e os pavilhões de Nossa Senhora do Monte que depende directamente da direcção, do ponto de vista de manutenção e conservação.
Sobre o estado actual, disse que todas as infra -estruturas estão a funcionar, decorre com regularidade a manutenção e conservação das mesmas.
\\\"Estamos com problemas do relvado do Estádio da Tundavala e da Sra. do Monte, neste último, registou  problemas de avaria das bombas. Foi entregue ao Desportivo da Huíla, porém, está com dificuldades de recuperar o relvado\\\", disse.
Quanto ao Estádio da Tundavala, admite que foram saqueados o sistema eléctrico e o electrónico. \\\"Temos um problema de segurança na zona onde esta localizado o sistema de bombagem da relva, onde foi furtado todo o material de rega da relva, a sua recuperação requere muito dinheiro\\\".
Reconhece que o governo da província não tem a capacidade para repôr a relva e  todo o sistema que foi saqueado no Estádio da Tundavala.
\\\"Para além do relvado, há necessidade de manutenção de mais cinco sistemas no Estádio, nomeadamente, a limpeza, o electrónico, sensores, elevadores, painéis electrónicos, enfim, um conjunto de elementos que devem ser salvaguardados para não perdermos na totalidade a infra-estrutura\\\", frisou.
\\\"Perdemos o principal sistema que é o do relvado, mas os outros estão a funcionar, infelizmente, ainda não temos a resposta da Polícia Nacional, responsável pela guarnição e que está a trabalhar na investigação dos furtos que existiram, vão comunicar qualquer novidade\\\", continuou.
Quanto ao gerador desaparecido, afirmou que a direcção dos desportos fez queixa e a polícia está a trabalhar no sentido de encontrar os responsáveis, mas para todos os efeitos o governo provincial procura uma solução no próximo orçamento (2018), para reservar uma parcela e repôr a operacionalidade do Estádio.

milhões para
manutenção


Para o entrevistado,  esse é o grande problema, a manutenção é dispendiosa. O Estádio da Tundavala, por exemplo, precisa de 12 milhões de Kwanzas/mês, só o relvado está taxado em dois milhões.

Os três pavilhões precisam de cinco milhões de Kwanzas mensais, para a sua manutenção. “Esse dinheiro nunca existiu e não existe. Estamos a depender  destes pequenos alugueres de 50 mil Kwanzas por actividade\\\".

Segundo o director, o governo provincial definiu uma filosofia de funcionamento, baseada numa tabela que as administrações das estruturas aplicam para cada actividade, mediante a especificidade.

\\\"Estamos à procura de uma parceria válida, para o estádio da Tundavala, um investidor que diga que quer ficar com o Estádio. O que o Estado ganha com a infra-estrutura é que existe mais um campo para competição\\\", revelou.

Joaquim Tyova tranquiliza: \\\"A situação está salvaguardada, o que precisamos é que a sociedade nos compreenda, que temos de facto dificuldades para a manutenção das infra-estruturas por falta de financeiros para obter recursos humanos e materiais na gestão e manutenção das mesmas\\\".

FICHA TÉCNICA
A fenda e turismo conferiram o nom
e
       
O Estádio herdou o nome de um dos maiores destinos turísticos da província, a sétima Maravilha da Fenda da Tundavala, depois de um concurso público para atribuição da designação em que concorreram 112 propostas.
A infra-estrutura foi edificada numa área de 25 mil e 807 metros quadrados, pela construtora chinesa \\\"Sinohydro Corporation LTD\\\", com um orçado de USD 69 milhões e capacidade para 20 mil espectadores.
Comporta 20 casas de banho, igual número de salas Vip, duas subestações eléctricas com capacidade para 15 mil kV (quilovolt), uma sala presidencial, bancada de imprensa, quatro balneários para jogadores, duas salas para treinadores e igual número para árbitros.
Possui ainda sete postos médicos para atendimento público, jogadores e convidados Vip, 14 lojas, um restaurante e parque de estacionamento para 2.000 viaturas. A iluminação do Estádio está fixada em estrutura metálica, composta por 408 holofotes de dois mil watts cada.
No Estádio existem ainda salas de controlo e iluminação do recinto, de televisão, de imprensa e de jornalistas com capacidades para 65 e 200 pessoas, respectivamente, entre outras componentes. A obra contou com a participação de 750 trabalhadores, dos quais 300 angolanos e os restantes chineses.

APROVEITAMENTO
Espaços vão ser terceirizados


\\\"Adiámos, um processo de terciarização de espaços, que temos. Por exemplo, no Estádio da Tundavala temos espaços para armazéns, lojas, bancos e para outras actividades\\\", explicou o director.
O dirigente acrescentou que depois da avaliação  ao local, empresas e agências bancárias deram conta que a relação custo -benefício não lhes garantem  sustentar o negócio que querem colocar. Os privados estão a recuar de investir no Estádio\\\", frisou.
Informou ainda que há lá um restaurante, que um dos empresários da província estava a gerir,  lamentou que não teve rendimento, por isso, teve de fechar o estabelecimento.
Considerou que a localização do espaço não está a favor de um ambiente de investimento que se quer para os empreendedores.