Jornal dos Desportos

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Reportagens

Miroslav Maksimovic pensa ganhar tudo em Angola

Manuel Neto - 24 de Novembro, 2010

A crise da selecção angolana de futebol não passou despercebida

Fotografia: Jornal dos Desportos

Celebrou com o Petro de Luanda um contrato válido por dois anos. Gostou do acordo?
Sim. É um contrato que satisfaz ambas as partes, por isso não tenho razões para me queixar. Desse modo, vou procurar fazer a minha parte para o honrar condignamente. É um acordo que, das cláusulas contratuais, consta uma residência e uma viatura, que de momento já recebi, e a residência está para breve. É um acordo que me deixa bastante satisfeito e ansioso. O futuro dirá o resto.

Como tem sido acolhido no seio do grupo?
Estou a ser bem acolhido, quer por parte da direcção quer dos atletas. É um dos motivos que me deixa satisfeito. O povo angolano é alegre, transmite confiança e eleva o moral da equipa. Durante a preparação, tem demonstrado uma grande postura. Assim, é muito salutar para qualquer treinador ou equipa que almeja atingir patamares altos.

Qual o seu objectivo à frente do Petro de Luanda?
Primeiro, estou satisfeito por estar num grande clube (Petro de Luanda) e em segundo lugar, vou trabalhar para ganhar o Girabola e a Taça de Angola. São questões normais nesse clube, tendo em conta a sua dimensão.

Fala com muita propriedade. Conhece o futebol angolano?
Sim. Conheço-o desde o primeiro ao último clube e a selecção angolana. Apesar da distância que nos separava, sempre pude fazer um acompanhamento milimétrico através da Internet, TPA internacional e outros meios de comunicação.

Que avaliação faz?
Está no bom caminho. Basta ver que antes eram 14 equipas e hoje cresceu para 16. Realço que, este ano, foi mais renhido do que nos outros, fruto da competitividade de algumas equipas, como o Recreativo da Caála, Interclube, Libolo, entre outras. Essas fizeram frente às ditas grandes equipas, como o Petro de Luanda e 1º de Agosto. Aliás, vimos sete equipas a lutar ‘a ferro e fogo’ pela conquista do título e, no final, sorriu para o Interclube. Não obstante viver certos problemas, podemos concluir que o futebol angolano está em franco desenvolvimento.

O plantel que possui oferece garantias para o que ambiciona?
Creio que sim. Acompanhava a equipa à distância e, felizmente, no final do campeonato vi-a jogar contra o Recreativo da Caála, mas, embora tenha gostado da prestação, devemos trabalhar muito para as conquistas que ambicionamos.

Vai reforçar a equipa para a próxima época?
Sim. É normal pensar nisso, porquanto qualquer equipa que esteja numa competição da dimensão do Girabola deve reforçar-se. De momento, estou empenhado em trabalhar com os jogadores que encontrei.

Que sector mais o preocupa?
Os sectores ainda não estão determinados, porque estamos à espera da definição total das dispensas. Mas devo adiantar que tenho preferência em trabalhar com jogadores jovens, sobretudo os de sub-20. Indubitavelmente, essas são as minhas grandes apostas, tendo em conta os desafios que tenho pela frente.

O Interclube mereceu a conquista do Girabola?
Conquistas não se ignoram. O Interclube foi a equipa mais regular durante a competição, apesar de viver alguns sobressaltos no final. É normal em qualquer competição. Para vencer não é preciso jogar bem, mesmo ganhando por uma ou mais bolas, são sempre três pontos que podem ser interessantes para os objectivos finais.

Já atingiu o apogeu como técnico?
Não sou um treinador de topo. Sou um treinador normal e faço o meu trabalho sem correrias, pautando-me, acima de tudo, por uma postura cada vez mais profissional e com o fito de formar atletas que garantam uma boa confiança aos seus clubes e às selecções.

“Quem aqui trabalha não deve brincar”

O recado é muito sério para os atletas. O sérvio colocou à disposição dos jogadores uma nova postura e comportamento profissional. As brincadeiras e os incumprimentos das cláusulas contratuais vão ser regidos com expulsões. A nova mentalidade pode proporcionar à equipa do Catetão o resgate do prestígio.

Há muito que trabalha em África. Que visão tem sobre o futebol do continente?
Estou desde o ano 2000 a trabalhar em África e Ásia e conheço as qualidades dos jogadores africanos. Por isso, sempre disse que têm grandes facilidades em singrar, tendo em conta a sua capacidade física e poder de assimilação táctica e técnica. Assim sendo, sonho com um dia ver um país africano sagrar-se campeão do mundo, caso continue a lutar para a sua melhoria.

Como perspectiva a participação do Petro de Luanda nas competições africanas?
Essas competições, a par do Girabola e da Taça de Angola, também não fogem à regra. Significa que o Petro de Luanda vai mais uma vez perseguir a conquista de todas as competições em que estiver envolvido, embora reconheçamos que a maior parte dos países ambiciona os mesmos troféus, tendo em conta a sua dimensão. Não obstante isso, o apanágio do Petro de Luanda é trabalhar a sério e virado para as vitórias. Quem aqui trabalha, não deve brincar.

A selecção angolana atravessa um mau momento. Quer comentar?
Todas as selecções do mundo têm altos e baixo; acontece com o Brasil, França, Portugal, realço ainda a Arábia Saudita, que quase há oito anos não atinge grandes patamares, a Turquia está estagnada há 40 anos e nunca foi ao Campeonato do Mundo, ao passo que Angola e o Petro de Luanda têm representado muito bem o continente africano. Por isso, esse mau momento é próprio do futebol.

Qual é o caminho para o salvar do mau momento?
O técnico é que sabe, é o trabalho dele. Desejo que Angola encontre o melhor caminho para sair da crise. Não vou ficar alheado da situação. Garanto que trabalharei com rigor para fornecer bons atletas à selecção, pois penso que essa é uma das soluções para superarmos a crise.

Futebol jovem em Angola tem um futuro promissor. Que informações tem sobre o futebol juvenil de Angola?
Tem um futuro promissor. O jogador angolano tem uma boa performance que passa pelo seu bom porte físico, rapidez e força de vontade. Esses requisitos devem ser bem explorados num curto espaço de tempo, para que rapidamente atinjam grande maturidade e competitiva e isso lhes permita ombrear com qualquer profissional africano, e até europeu.

O Ante-Projecto da Lei do Desporto em Angola está em discussão. Que comentário se lhe oferece fazer?
É um valor para o desporto angolano, porquanto, se for bem aplicada e cumprida, poderá dar um contributo valioso para o seu desenvolvimento. O desporto está a crescer e é necessário que se faça um acompanhamento científico.

Angola vai apostar seriamente no desporto escolar. Qual é o seu ponto de vista?
É uma grande aposta, porque quando o desporto começa na escola, mais facilmente os formados se inserem no desporto profissional. Na escola, pratica-se todo o tipo de desporto e cada um pode escolher o que estiver de acordo com a sua inclinação, o seu bom futuro. Aliás, a maior parte dos desportistas, que vingaram no mundo, eram oriundos do desporto escolar. Logo, podemos concluir que este desempenha um grande papel no desenvolvimento desportivo.

Pode ser o caminho para evitarmos a importação de atletas, situação que proporciona até a contratação de alguns de inferior qualidade?
Sim. Em parte pode ser. Mas devo dizer que pode implicar uma grande concorrência entre os estrangeiros e os nacionais. Por exemplo, se tiver um jogador bem formado, não será necessário importar atletas, porque estaríamos a fechar as oportunidades dos jovens para mostrarem o seu valor e se afirmarem no contexto nacional e internacional. Por isso, devemos buscar apenas aqueles que o país não possui.

Infra-estruturas desportivas são excelentes e importantes. Que opinião tem sobre as infra-estruturas do clube?
São excelentes e deixam-me encantado. A isso alio o empenho, a organização e a atenção do pessoal administrativo. Julgo que esses requisitos são bastante comoventes para qualquer treinador trabalhar. Assim sendo, desejo que o clube continue com essa postura de desenvolvimento em todas as vertentes essenciais para a vida do clube.

E sobre as infra-estruturas desportivas do país, em geral?
Apesar da guerra, ainda vemos estruturas importantes. Destaco as que foram construídas para o Campeonato Africano das Nações. Conheço o que está no Huambo, onde joga o Recreativo da Caála, vi o Estádio 11 de Novembro, que é sem dúvida excelente e podemos compará-lo aos melhores estádios da Inglaterra e Alemanha, entre outros do mundo.

O que se deve fazer para o seu aproveitamento?
Qualquer equipa que tenha a necessidade do recinto deve utilizá-lo, desde que reúna os requisitos exigidos para o efeito. Além disso, quando não houver jogos, devem rentabilizá-lo com espectáculos de vária ordem. Só assim se poderá aproveitar o recinto e conservá-lo da melhor maneira.