Jornal dos Desportos

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Reportagens

Moçambique quer chegar à segunda fase do CAN-2010

Augusto Panzo, em Benguela - 16 de Janeiro, 2010

Selecção de Moçambique

Fotografia: Jornal dos Desportos

O que se pode esperar desta selecção de Moçambique que está  a competir no CAN de 2010?
Alexandre Zandamela – Bem, em princípio, o objectivo de Moçambique neste CAN não vai até à conquista do campeonato. Se assim acontecer, digo com toda a minha franqueza que será uma das grandes surpresas deste CAN de 2010, e naturalmente iria regozijar o país. Mas conforme têm sido as palavras do treinador e dos jogadores, o objectivo de Moçambique passa pelo menos pela qualificação à segunda fase, o que seria histórico, porque nas anteriores tês participações do meu país, nas competições do CAN (Egipto/1986, África do Sul/1996 e Burkina Faso/1998), os Mambas terminaram na primeira fase, marcando apenas dois golos. Um na África do Sul e outro em Burkina Faso.

JD – Mas aqui em Angola os Mambas já marcaram dois golos logo na primeira ronda. Isso não constitui motivo para a elevação de estima?
AZ – Realmente, as coisas desta vez começaram da melhor forma, porque logo na jornada inaugural os Mambas já conseguiram marcar dois golos, o que é muito bom. Espero que não fiquem por aqui, para que possam superar a meta negativa até aqui alcançada. Acho que isso já é uma primeira fase da história que Moçambique pretende fazer. E depois de ter visto os jogos da primeira jornada entre o Egipto e a Nigéria, e o Moçambique- Benin, penso que continuo a acreditar no objectivo traçado

JD – Que comparação pode fazer entre o futebol actual de Moçambique, e o de há uns tempos atrás?
AZ – Bom, há uma coisa que é muito importante notar aqui. Grande parte destes vinte e três jogadores que cá vieram, metade ou mais de metade deles joga fora do país. Uns jogam na África do Sul, outros no Egipto, outros ainda na Europa e na Ásia. Este, já é um dado a ter em conta. Enquanto por exemplo os primeiros que foram no CAN do Egipto em 1986, isto há quase vinte e quatro anos, ninguém jogava no estrangeiro. Todos eles jogavam em Moçambique. E esta questão dos jogadores actuarem no estrangeiro, naturalmente que eleva do ponto de vista de motivação a qualquer pessoa. Isto é que fez com que Moçambique hoje tivesse uma selecção bastante forte, uma selecção que foi subindo no ranking, ao ponto de terminar o ano de 2009 na septuagésima nona posição (79º) da Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA), o que é extremamente positivo.

JD – E parece que esta fornalha de jovens no estrangeiro está a trazer alguns resultados para o futebol moçambicano?
AZ – Exactamente. Nesta campanha de Moçambique nos últimos dois anos, já sob comando deste treinador, isto foi notório. Quando foi da qualificação para o CAN do Ghana /2008, nós tivemos na nossa série o Senegal, mas conseguimos um segundo lugar. Este mesmo Senegal não nos bateu. Aliás, a nossa campanha tinha começado com a Côte d’Ivoire, que não conseguiu nos bater no nosso estádio da Machava, a seguir enfrentamos a Nigéria e a Tunísia, também não conseguiram nos derrotar em nossa casa, e este ano nós conseguimos bater a Tunísia.

JD – Pode-se considerar este período como sendo de graça para  Moçambique?
AZ – Sem dúvidas. Foi um percurso muito bom, faz augurar um futuro promissor. Acredito que mesmo que Moçambique não consiga o objectivo traçado para este CAN, daqui a dois ou quatro anos se conseguir qualificar-se para o CAN, vai conseguir fazer uma boa campanha, capaz de lhe possibilitar a consecução desse desiderato de pelo menos passar à outra fase.

JD – Em função do que acabou de falar, há esperança do vosso lado de que nos próximos dois CAN, Moçambique poderá mesmo participar?
AZ – Acredito sim, porque nós lá em Moçambique temos um lema, no qual dizemos que temos de nos habituar a estar nos CAN, e não estar nesta competições de dez em dez anos. Portanto, nós estivemos pela primeira vez num CAN em 1986, no Egipto, passaram-se dez anos e fomos no CAN de 1996. Felizmente estivemos também no CAN a seguir em 1998. Mas de lá para cá passaram-se doze anos.

JD – Acha então que o lema está ser cumprido na íntegra?
AZ - A leitura que se faz é a de que está a ser cumprida a palavra de ordem, segundo a qual temos de nos habituar a estar permanentemente nos CAN. Isso permite a que os jovens jogadores também se habituem a essas competições. Sabemos que hoje em dia temos um CAN para jogadores que evoluem dentro dos respectivos países, cujas eliminatórias começam em Março. Estes jogadores que actuam dentro do país também devem habituar-se a jogar com adversários bastante fortes, viajar, entrar em grandes estádios, saber enfrentar o público. Isso vai ajudar para que nós tenhamos uma selecção que, mesmo que alguns jogadores estejam de saída, como são os casos de Tico Tico e do Dário Monteiro, que fazem o seu último africano, os outros que vão entrando na equipa proximamente possam estar também na competição completamente à vontade e abertos para enfrentar qualquer adversário.

JD – Podemos então concluir que a transferência de jogadores para o exterior está a contribuir muito na melhoria do futebol moçambicano?
AZ – Sem dúvidas. É aquilo que eu disse antes; se nós, há vinte anos tínhamos jogadores que actuavam apenas dentro de Moçambique, hoje metade ou mais de metade da equipa está fora, e vemos a forma como estes jogadores abordam as outras selecções.
Podemos a bem pouco tempo ouvir de um jogador, o Simão, que alguns jogadores do Egipto, da Nigéria, da Côte d’Ivoire têm sido seus adversários nas Afrotaças. Essa naturalidade como ele encara esses adversários é muito diferente daquele que joga no Moçambola, designação oficial do nosso campeonato nacional de futebol, à semelhança do vosso Girabola.
Vemos no entanto que a nossa selecção ganhou muito, o próprio Moçambola também ganhou com isso, porque estes jogadores trazem uma mais valia muito grande nas suas equipas internas