Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Reportagens

Mundial sem risco

30 de Novembro, 2010

Comité Organizador do Campeonato do Mundo de 2014

Fotografia: Globo

A onda de violência no Rio de Janeiro chegou rapidamente às páginas dos jornais internacionais. O espanhol Marca destacou a crise que envolve traficantes e agentes da Polícia e lembrou que o Rio é uma das sedes do Campeonato do Mundo de 2014 e a cidade dos Jogos Olímpicos de 2016. O relato era destaque na versão online da publicação de Madrid no último fim-de-semana. Além de dados a respeito do clima de tensão vivido entre os cariocas, o periódico exibe fotografias e vídeos a relatar o que classificou como uma “onda de violência” que atinge a “cidade olímpica”.

Nos números apresentados pelos espanhóis, o Rio vive a sua crise de segurança actual. O presidente do Comité Organizador do Campeonato do Mundo de 2014 e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, divulgou, no site da FIFA, um comunicado oficial sobre os conflitos violentos dos últimos dias na cidade do Rio de Janeiro. O dirigente procurou tranquilizar o público a respeito da segurança na capital carioca para o próximo Mundial. Ricardo Teixeira declarou que deposita total confiança no poder público do Rio e no “esforço desenvolvido” para “reduzir a violência urbana”. Além disso, assegurou que a cidade será uma das sedes do Campeonato do Mundo de 2014 com o “clima de normalidade necessário”.

A confiança de Teixeira está expressa na maior operação já realizada pela Polícia local com a participação do Exército, Marinha e Força Área numa favela dominada pelo tráfico de drogas, que resultou na ocupação do “território” sem tiros. O morro Alemão é uma das principais fortalezas de criminosos na cidade. Os criminosos abriram mão do confronto e tentaram refugiar-se em casas de moradores, abandonando grande quantidade de armas e drogas. Houve troca de tiros apenas no início da acção, e somente um criminoso foi morto, de acordo com a Polícia.

Centenas de armas e pelo menos 10 toneladas de drogas foram apreendidas, informou a Polícia. “A todo o instante, temos pessoas presas, equipamentos e armas apreendidos e acredito que vai continuar por alguns dias”, afirmou o secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, acrescentando que a ocupação policial não tem prazo. O comandante-geral da Polícia Militar, coronel Mário Sérgio Duarte, disse a jornalistas que o trabalho de busca, procura, prisões e apreensões vai continuar. “Vencemos, trouxemos a liberdade para a população da favela do Alemão”, uma comunidade com 30 mil casas e que alberga mais de 100 mil pessoas. Cada casa vai ser vasculhada pela Polícia em busca de criminosos.

A crise de segurança do Rio apresenta números que variam em 45 suspeitos mortos em confronto com a Polícia, além de uma jovem de 14 anos de idade, vítima de bala perdida. Mais de 100 suspeitos ligados ao tráfico de drogas foram presos em diversas acções.
O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, afirmou que “a reconquista do território do Complexo do Alemão pelo Estado é um passo fundamental e decisivo na política de segurança pública que traçamos para o Rio de Janeiro. Mas o trabalho para garantir, de uma vez por todas, o direito de ir e vir dos cidadãos de bem apenas começou”.

A confiança total da FIFA

Apesar da onda de violência que assolou o Rio de Janeiro nos últimos dias, a FIFA e o Comité Olímpico Internacional (COI) declararam ter “total confiança” nas autoridades brasileiras, de quem se espera a implementação de planos adequados de segurança para a realização do Campeonato do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016. “As autoridades brasileiras já estão a trabalhar de perto com as maiores agências internacionais de segurança e com a Interpool para desenvolver o plano de segurança para o Mundial”, afirmou a assessoria de imprensa da entidade máxima do futebol, com sede em Genebra.

A FIFA afirma também que as autoridades brasileiras começaram a realizar um trabalho prévio durante o Campeonato do Mundo de 2010, com os seus respectivos correspondentes sul-africanos nessa área, “para obter maior ajuda em relação à compreensão desse processo operacional”. “A FIFA tem total confiança nas autoridades brasileiras para assegurar que os planos adequados estão a ser implementados”, declarou a federação. Por seu turno, o Comité Olímpico Internacional disse, em comunicado, que está a discutir a questão directamente com o comité Rio’2016 e “expressa confiança em que haverá segurança adequada para os Jogos”.

Segundo Andrew Mitchell, porta-voz do COI, “as medidas de segurança são de responsabilidade dos governos. No passado, o Rio e o Brasil mostraram que são capazes de receber grandes eventos com segurança. Temos grande confiança na capacidade das autoridades brasileiras de realizarem jogos seguros no prazo de seis anos”. “A segurança é um aspecto muito importante de quaisquer Jogos Olímpicos, em qualquer parte do mundo, e é uma prioridade para o COI”, diz o porta-voz.

Mais segurança para todos

Apesar dos graves problemas de segurança pública enfrentados pelo Brasil, o seu ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, afirmou que a área vai sofrer grandes mudanças até à realização do Campeonato do Mundo de 2014. Durante a sua participação na abertura do 2º Encontro Técnico de Segurança Pública voltado para o Mundial da FIFA, em Brasília, frisou que parcerias internacionais com países como os Estados Unidos vão ajudar o sector a desenvolver estratégias de treino e de combate a todo o tipo de problemas de ordem pública.
“O governo dos EUA está a ajudar-nos num trabalho de integração que já está no seu sétimo encontro.

Mais do que deixar um legado, queremos que o Brasil, nos próximos quatro anos, esteja muito mais avançado em termos de tecnologia, não apenas para os grandes eventos, mas também para a segurança do cidadão”, disse. Os problemas que o Rio de Janeiro enfrenta actualmente, com uma série de assaltos nas vias, começam a ser combatidos com mais rigor. “O projecto do Rio começou com a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora, novos mecanismos de segurança e tecnologia”, disse o ministro brasileiro. Participaram do encontro mais de 100 representantes de áreas diversas de segurança de todos os estados do Brasil.

O sonho de Brasília

As quezílias à volta da segurança pública começam a chegar ao fim com os desmembramentos das quadrilhas nos bairros periféricos do Rio de Janeiro. Um outro “conflito” está a nascer e envolve as cidades eleitas para albergar o Campeonato do Mundo de 2014. O governador do Distrito Federal de Brasília, Rogério Rosso, afirmou que a pretensão de ser a sede da partida inaugural do Campeonato do Mundo de 2014 se mantém de pé, uma vez que a FIFA ainda não definiu, onde o jogo se vai disputar.

O Comité Organizador do Mundial não confirmou oficialmente, até ao momento, as cidades que vão receber a abertura e a final da competição, mas os seus integrantes afirmam há algum tempo que o primeiro deve acontecer em São Paulo, Brasília ou Belo Horizonte, enquanto o último, provavelmente, vai ser no Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. O anúncio recente de que a capital paulista vai construir um novo estádio com os 65 mil lugares exigidos pela FIFA para o confronto inaugural foi interpretado como o resultado de uma negociação para ceder à maior cidade do Brasil a honra de albergar um jogo importante.

O governador disse que recebeu uma carta de resposta do secretário-geral da FIFA, Jérome Valcke, em que deixa claro que não está decidido o lugar, onde se vai realizar o jogo de abertura do Mundial. “Como a FIFA não confirma que a abertura será em São Paulo, posso dizer que Brasília segue na disputa”, completou. Rosso acrescentou que, para fortalecer as suas aspirações, o Governo do Distrito Federal não vai permitir qualquer atraso nas obras de reforma do Estádio Mané Garrincha. “A Companhia Imobiliária de Brasília suspendeu o envio de recursos para as obras este ano e isso preocupa-nos, mas, como temos mais um mês para fechar o ano de 2010, estamos a liberar recursos do Governo regional para que a obra não pare nem um minuto”, explicou Rosso.

Os números
das cidades-sede

Belo Horizonte
Estádio Mineirão
Capacidade: 74.300 pessoas
População: 2,4 milhões
de habitantes
PIB: R$ 32,7 biliões
(20 mil milhões de dólares)
PIB per capita: R$ 13,6 mil
(8 mil dólares)
Aeroporto: Aeroporto Internacional Tancredo Neves, Aeroporto de Belo Horizonte/Pampulha-MG-Carlos Drummond de Andrade e Aeroporto Carlos Prates
Rede hoteleira: 19 mil camas
Estabelecimentos de saúde: 1000 unidades
Transporte público:
7 mil autocarros
Metropolitano: sim

Rio de Janeiro
Estádio do Maracanã
Capacidade:
86.100 pessoas
População: 6 milhões
de habitantes
PIB: R$ 127,9 biliões
(76 mil milhões de dólares)
PIB per capita: R$ 20,8 mil
(13 mil dólares)
Aeroportos: Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro/Galeão - Antonio Carlos Jobim, Aeroporto  Santos-Dumont e Aeroporto de Jacarepaguá
Rede hoteleira:
550 estabelecimentos
Estabelecimentos de saúde:
28 mil camas
Transporte público:
12,5 mil autocarros
Metropolitano: sim

Brasília
Estádio Mané Garrincha
Capacidade:
76.232 pessoas
População: 2,4 milhões
de habitantes
PIB: R$ 89,6 biliões
(53 mil milhões de dólares)
PIB per capita: R$ 37,6 mil
(23 mil dólares)
Aeroporto: Aeroporto Internacional de Brasília - Presidente Juscelino Kubitschek
Rede hoteleira: 27 mil camas
Estabelecimentos de saúde: 1,7 mil
Transporte público: 6,6 mil autocarros
Metropolitano: sim

São Paulo
Projecto do estádio
do Corinthians
Capacidade inicial:
48 mil lugares
População: 10 milhões
de habitantes
PIB: R$ 282,8 biliões (cerca de 167 mil milhões de dólares)
PIB per capita: R$ 25,6 mil
Aeroportos: Aeroporto de São Paulo/Congonhas e Aeroporto Campo de Marte
Rede hoteleira: 42 mil camas
Estabelecimentos de saúde: 1759
Transporte: 33 mil táxis
e 10 mil autocarros
Metropolitano: sim