Jornal dos Desportos

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Reportagens

"No quero ganhar dinheiro sombra da bananeira"

Augusto Panzo , em Benguela M.Machangongo - 06 de Outubro, 2009

Augusto Manuel quer futebol feminino nas escolas

Fotografia: Jornal dos Desportos

Jornal dos Desportos (JD) – A inoperância da selecção sénior feminino de futebol deixa-vos tranquilo no exercício das vossas funções?
Augusto Manuel (AM) – Nem pensar. Por incrível que pareça, estou a aproximar do fim do meu contrato (termina em Fevereiro de 2010), e até agora só fiz um jogo de controlo. Que política estamos a fazer para que o futebol feminino cresça? Não entendo.

JD – Quem deve dar resposta a sua inquietação?
AM – Vamos ser realistas. É preciso que as pessoas olhem para isso. Os treinadores são contratados para programar jogos ou planear torneios. Estamos cansados, porque escrevemos muito para que haja competições, mas ninguém nos presta a atenção; ninguém vem dizer-nos alguma coisa sobre o nosso programa, se é ou não é possível realizar esse ou aquele jogo. Tudo está estancado como se as coisas estivessem a correr bem. Não quero ganhar dinheiro à sombra da bananeira. Não é digno, porque quero trabalhar para tentar mostrar as minhas capacidades profissionais e, também, para que o meu empenho possa ser avaliado pelos outros.

JD – Afinal, como funciona a selecção feminina de futebol?
AM – Quando as pessoas se deparam com uma eliminatória para o Campeonato Africano das Nações, Campeonato do Mundo ou Jogos Olímpicos, as preocupações de todos unem-se à volta da selecção. Mas essas pessoas esquecem-se de que a probabilidade de se ficar na primeira eliminatória é grande. É isso que tem acontecido nos últimos tempos com a nossa selecção feminina. Assim, não estamos a fazer nada. Temos de aprender a perder, para que possamos ganhar a posterior. É essa coragem que não temos de assumi-la.

JD – Qual é o remédio para salvar o futebol feminino?
AM – O remédio para essa “enfermidade” é estruturar o futebol feminino a partir da base. O Estado tem de colocar as mãos nisso. O futebol feminino tem de começar nas escolas. Não podemos dar o rótulo como se fazia no passado em que os dirigentes diziam que a jogadora fulana ou sicrana é craque. É puro engano, porque elas não têm estruturas para ficar no rectângulo de jogo; entram trémulas, porque não têm rodagem competitiva. Isso é notável através de um simples olhar atento às caras das jogadoras. Mas se tivéssemos muitos jogos, nos quais aprendessem a perder e a comer a relva, o medo seria pouco acentuado.

JD – Isso indicia a razão do declínio do futebol feminino no país…
AM – Claro. Estou lembrado que, na primeira eliminatória para o CAN Feminino de 2002, a selecção comandada por professor Miller Gomes ganhou à Guiné-Equatorial nas duas “mãos”, mas na segunda eliminatória em que nos encontramos para outra competição africana, depois de termos ganhado por 3-2 na primeira “mão”, em Luanda, perdemos por 3-1 para a Guiné, na segunda, e ficámos eliminados. Isso significa que a Guiné-Equatorial investiu e cresceu, ao contrário de Angola que baixa cada vez mais.

Naturalização é essencial para o futebol angolano

JD – Como se pode caracterizar o investimento da Guiné-Equatorial?
AM – As autoridades desportivas da Guiné-Equatorial apostaram na formação das atletas locais e na naturalização de jogadoras nascidos noutros países. Há no nosso país um tabu que prevalece até aos dias de hoje: critica-se muito a questão de naturalização de jogadoras. Isso é triste. Estamos numa era de globalização e continuamos agarrados a esse preconceito. A Guiné-Equatorial naturalizou jogadoras de origem camaronesa. Fomos surpreendidos, porque nos acomodamos na ignorância de que iríamos defrontar a mesma selecção fraca de sempre; estávamos a dormir e levámos um bom presente ao sermos eliminados por essas.

JD – Esse preconceito é muito notável nos clubes?
AM – Até hoje existe. Só a título de exemplo, posso citar-lhe o caso de muitos dirigentes que acusam o Progresso do Sambizanga de formar uma equipa com muitas jogadoras da República Democrática do Congo. Agora questiono: por que é que as congolesas não podem jogar no nosso campeonato, se ajudam as angolanas a ganhar traquejo competitivo. A RDC é a mais forte a nível da região austral da África.

JD – Essa é uma das saídas para que o futebol feminino angolano cresça?
AM – Logicamente, se quisermos obter louros a curto e médio prazos. Temos de trabalhar deste modo. Podemos naturalizar sem beliscar a integridade do país. Se começarmos a ganhar como se ganha no basquetebol e no andebol, muita juventude feminina poderá aderir à prática de futebol.   

Incentivos à prática de futebol
mexem com as adolescentes

JD – Pode aferir-se que o caminho é longo para que haja um Girabola feminino?
AM – Os campeonatos nacionais que realizamos, são competições que, talvez, visam despertar a Nação e levar às pessoas a existência do futebol feminino. Por outro lado, queremos que as restantes províncias ganhem maior motivação e possamos ter um maior número de equipas a praticar o futebol feminino. Actualmente, o modelo de organização do campeonato nacional tem a configuração de um torneio. As equipas competem nas suas localidades (províncias ou região), depois seleccionam-se duas ou três de cada uma dessas regiões e concentram-se numa só cidade para a disputa do campeonato nacional. Para que haja Girabola feminino, o investimento deve ser maior.

JD – Há muitas dificuldades para concentrar as equipas?
AM – Evidentemente. Só para chegar até à realização de um campeonato nacional, tem sido um "calcanhar de Aquiles".

JD – Existem condições para que o futebol feminino evolua?
AM – Se houvesse uma maior participação do empresariado nacional ou se as equipas estivessem filiadas aos grandes clubes, sejam de Luanda, de Cabinda, do Huambo ou de qualquer outra província, teríamos equipas com uma maior dimensão a nível regional. Só assim poderíamos pensar num Girabola. Os actuais grandes clubes do país estão em condições de incluir no leque das modalidades o futebol feminino, só não o fazem por razões óbvias.

JD – Defende que os grandes clubes devem abraçar o futebol feminino?
AM – Exactamente. Da mesma forma que o fazem para as modalidades de andebol, basquetebol, voleibol e outras modalidades, também poderiam encaixar o escalão feminino na mesma proporção. Mas, isso não tem sido possível, porque só o Progresso do Sambizanga (também Bravos de Maquis e Benfica de Luanda) assume(m)-(n)o de forma séria. Perante essa realidade, não se pode esperar que tenhamos futebol feminino de grande envergadura, porque não existem investimentos na base. Em suma: a forma como são organizados os campeonatos nacionais não dá grande competitividade à selecção nacional. É imperioso repensar o futuro do nosso futebol feminino.

JD – O país realizou dois encontros nacionais de futebol…
AM – Sim, é verdade. O último foi realizado antes do torneio da Cosafa disputado em Malanje, no qual a maior abordagem versou mesmo sobre o futebol feminino. Esperamos que em função das orientações ora emanadas, seja feita alguma coisa. As pessoas tiveram a oportunidade de ver alguns jogos desse torneio e avaliaram a qualidade (fraca) produzida pela nossa selecção. Fui técnico do Progresso do Sambizanga durante 10 anos e a qualidade do futebol feminino naqueles tempos é de longe muito diferente do presente. Ao invés de evoluir, está em regressão. Temos de ter a coragem de falar sobre isso, sem receio de sermos mortos, como muitas pessoas podem pensar quanto à segurança da minha vida.

JD – Quantas equipas movimenta o futebol feminino na província de Luanda?
AM – A capital conta com oito equipas, cujas direcções não se cansam de fazer tudo para manter o futebol feminino em movimento contínuo. Refiro-me às formações do Progresso do Sambizanga, Fagec, Amigas do Mártir, Terra Nova, Benfica de Luanda, Mabo, Regedoria de Viana e mais uma de Viana, cujo nome não me ocorre de momento.

JD – Como caracteriza o futebol feminino no país?
AM – Se ainda existe até aos dias de hoje, devemos dar graças à mão do departamento de selecções da Federação Angolana de Futebol (FAF), que pensou na realização de campeonatos nacionais femininos, cujo objectivo primário é a motivação das meninas, pois, precisam de viajar de província em província; conhecer novas zonas do país, respirar outros ares. Isso é visível nos rostos de cada uma das atletas, quando saímos fora de Luanda.

JD – Está a dizer que se não fosse a vontade de viajar, não haveria campeonatos nacionais?
AM – Sim. E se houvesse, não teria tanta força como tem sido agora. Na fase provincial, elas apresentam um elevado índice de absentismo; quase não treinam. Numa semana, às vezes, só aparecem duas ou três vezes, e vêm jogar. Quando se apercebem da fase nacional, treinam todos os dias, porque querem viajar. Elas procuram dar o seu máximo para convencer o treinador e pensando na selecção nacional. A política da federação sobre a descentralização dos campeonatos nacionais em certas regiões incentiva o futebol feminino. Mas, não podemos viver apenas disso, se quisermos ter um futebol feminino activo e actuante. Temos de fazer com que a actividade, a prática do futebol feminino seja sistemática e contínua. E, para que isso aconteça tem de haver incentivos.

JD – Refere-se a dinheiro?
AM – Não. É certo que quando se fala em incentivos muitos dirigentes pensam logo em dinheiro. Mas não é. Se estou bem recordado, no meu tempo em que pratiquei futebol e atletismo, saía do bairro Prenda ao ex- D. João II (actual Mutu ya Kevela) a pé. Largava às 18 horas e de seguida ia ao Estádio dos Coqueiros treinar o atletismo e regressa a casa às 19H00. Imagine o sacrifício!

Por que é que fazia isso?
As direcções das equipas ofereciam sapatilhas de pico, camisolas e calções, enfim, equipamento completo que, depois dos treinos, ao invés de colocar esses objectos numa mochila ou outro recipiente qualquer, ia para casa vestido com os mesmos (as tais sapatilhas penduradas ao ombro para fazer banga, quer dizer vaidade). Isso é incentivo. A juventude gosta de andar equipado depois do jogo, para ser visto que o fulano ou o sicrano está a praticar desporto. Isso mexe de forma positiva com a memória do adolescente.