Jornal dos Desportos

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Reportagens

Não tenho preferências por nenhum dos candidatos

Auguto Panzo - 21 de Maio, 2011

Rui Mingas inclina-se para quem tem melhor programa

Fotografia: Jornal dos Desportos

Jornal dos Desportos: Doutor Rui Mingas, estamos a viver um momento de eleições na FAF. Das duas listas candidatas ao pleito eleitoral já divulgadas, para qual vai a preferência do senhor?
RM: Não tenho preferências por nenhum dos candidatos ao cadeirão da Federação Angolana de Futebol, mas a minha opção vai para aquela lista que apresente um projecto assente na resolução dos actuais problemas que enfermam o futebol nacional.

JD: Já teve contacto com os programas das duas listas?
RM: Ouvi assim por alto o programa da lista B. É bastante abrangente e muito ambicioso. As ambições normalmente nascem quando nós ainda temos vitalidade. Quando as pessoas estão mais velhas são mais cautelosas, portanto, acho que essa lista B é uma lista muito bem estruturada no seu programa. Me pareceu um projecto com alguma consistência. É muito bonito encontrar pessoas da nova geração, que possam apostar num projecto dessa natureza, porque têm consciência que ser um dirigente da FAF acarreta muitos riscos.
JD: Mas o projecto ainda está em papel…
RM: Certo. Em primeiro lugar, devo dizer que é louvável ver um grupo de jovens a apostar em assumir a direcção de uma federação de futebol, porque isso representa uma aposta de risco. Falando em riscos, a geração da qual faço parte já correu esse risco. Agora, respondendo directamente à sua preocupação, acho que tudo o que se faz, parte de um esboço em papel.

“Nosso futebol só tem selecções”

JD: Na óptica do senhor, e na qualidade de um dos primeiros secretários de Estado de Educação Física e Desporto deste país, qual é o principal mal que enferma o futebol angolano na actualidade?
Rui Mingas: Vou lhe dizer uma coisa. Há uns anos, quando era secretário de Estado, perguntaram-me qual era o mal do futebol angolano e eu disse que era a falta de instrução primária. Nós nascemos todos pequeninos, depois de crescermos com saúde e bem orientados, chegamos à idade adulta e somos bons. Se crescermos mal, é evidente que ficamos mal. O nosso futebol só tem selecções nacionais, e no escalão sénior. Acho que uma das prioridades dessa federação é precisamente trabalhar a camada jovem. É apostar nos jovens, nos escalões juvenis em solidariedade com os estabelecimentos de ensino, onde estão os nossos filhos e os nossos netos.

JD: Essa aposta passa necessariamente pela existência de infra-estruturas desportivas…
RM: Essa constitui também outra grande preocupação. É preciso apostar-se igualmente e de forma séria na melhoria das infra-estruturas desportivas do país, porque sem elas não podemos fazer o desporto de forma séria. É apostar na formação de quadros para o futebol. Isso é de suma importância, não podemos descurar esses aspectos fundamentais. Um país que não tem uma competição regular nos escalões que são de suporte, que são a essência, dificilmente pode fazer uma boa coisa no escalão sénior. Porque se esse escalão não estiver uma escolaridade boa ele tem muitos vícios, tem muitos defeitos. Ouvi por alto o programa da lista B e de facto aponta para aspectos fundamentais. Nós fazemos a instrução primária, fazemos a matemática, estudamos a aritmética, depois passamos para a secundária e fazemos a álgebra, quer dizer, vamos crescendo devagar.

JD: No nosso caso deveria ser assim….
RM: Obviamente, no nosso caso. A nossa selecção nacional não pode ser descurada. O que tem que se aprender é que ao mesmo tempo que se suporta as selecções seniores, tem que se trabalhar fundamentalmente nos escalões juvenis e juniores, e sobretudo desenvolver uma actividade inter-provincial.

JD: Para que serviria isso?
RM: É lógico que serviria para dar o suporte à actividade nas províncias, para que não só se descubram muitos talentos que estão nas províncias. É aí que a federação deve fazer um trabalho, que até acaba por representar uma forma de sensibilização aos próprios responsáveis das associações provinciais, que dêem o reconhecimento da associação na federação para com a sua função a nível das províncias.

JD: Se calhar, isso até iria mobilizar ou motivar os pais dos jovens…
RM: Exactamente. Isso mobiliza os pais dos jovens nas províncias, porque eles vão sentir que afinal a federação está apostada em fazer algo para os seus filhos. Repare que nós estamos com um vício de fazer campeonatos com os clubes que treinam nas cidades, enquanto as nossas províncias têm muitos municípios, mas só quem está na capital da província é que vê o campeonato de futebol, nem sequer se faz o trabalho de sensibilização da massa jovem que vive nos outros municípios. Portanto, há todo um conjunto de trabalho a ter em atenção. As infra-estruturas estão todas elas degradadas, os recursos humanos são poucos, o que nos obriga a fazer constantemente recursos a técnicos estrangeiros.

“Temos de apostar na formação”


JD: O recurso à contratação de técnicos estrangeiros é benéfico para nós? 
RM: Bem, até eu não sou contra isso. Não podemos rejeitar os estrangeiros, mas temos de apostar na formação do quadro angolano. Temos muitos que foram praticantes de futebol e que estão perdidos. Formados podem ser bons dirigentes desportivos, bons treinadores ou bons activistas desportivos. Há que aproveitar todas essas valências, porque a gente está naturalmente sensibilizada. Até mesmo aquele que nunca foi praticante de futebol, mas que foi um autor directo, porque gosta de futebol, sempre acompanhou, é potencialmente um bom dirigente. Há que aproveitar tudo isso, porque são factos variáveis, que interferirão para redefinirmos um bocado o desporto no nosso país, porque é uma arma política muito importante.                                   

JD: Realmente?
RM: Eu diria mais. Só catástrofes mundiais como tremores de terra, tufões e outras é que tornam o país mais popular que o desporto. Repare a importância política que tem em nós apostarmos a sério no nosso futebol ou noutras modalidades. Esta importância política decorre de um facto simples. Quando nós vamos às grandes competições internacionais e ganhámos uma medalha, o que acontece? Toca-se o hino nacional e hasteia-se a bandeira. Por isso, temos de tratar o problema do desporto na nossa terra com cuidado.
Augusto Panzo