Jornal dos Desportos

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Reportagens

Nucha Cangovi a " Camponesa agostina"

22 de Setembro, 2015

O novo reforço do 1º de Agosto é apontado como a maior garantia da equipa sénior

Fotografia: Dombele Bernardo

"É uma verdadeira camponesa". Assim é descrita Nucha Cangovi, adolescente de 16 anos de idade e 1,76 metros de altura, quando está em campo. A ponta direita da equipa juvenil feminina do 1º de Agosto é dona de uma pujança que lhe permite contornar com facilidade as adversárias. A força evidenciada em campo, coloca-a no "sete inicial" das militares no campeonato provincial de Luanda.

Margarida das Neves Cangovi, nome de registo civil, é uma excepção do andebol nacional. Seis meses depois de ter chegado ao ex -RI20, começa a dar resposta satisfatória aos que investiram no seu potencial. Revestida de humildade e dedicação, a jogadora está a ser submetida a um trabalho de melhoramento de questões básicas de que se mostra carente. Princípios de jogo, técnica individual e tomada de decisão são factores em que incidem os conteúdos que corporizam a preparação da jovem atleta.

José Chuma, treinador da equipa juvenil do 1º de Agosto, mostra-se satisfeito com a resposta da atleta em campo. "É uma jogadora que nos tem facilitado o trabalho. Quando está em campo é uma verdadeira camponesa. Luta e derrama muito suor", descreveu. Nucha Cangovi conserva virtudes adquiridas no berço. "É educada, estudiosa e trabalhadora". As boas qualidades da jovem atleta transformam-na em todos os sentidos. Em 180 dias de preparação, alterou a mentalidade, que deixa orgulhoso o treinador.

"O nosso desejo de a ter aqui, seria maior se tivéssemos de olhar o percurso que fez nesse curto espaço de tempo. Hoje, apresenta-se melhor. Do ponto de vista técnico e táctico, identificámos as dificuldades, próprias de quem vem de uma província com poucas equipas e não têm jogos para evoluir", disse.
Nucha Congovi "está  a ser lapidada" para o orgulho nacional. José Chuma ressalta: "Tenho a certeza de que se o povo do Huambo, dirigentes, atletas e familiares a virem jogar hoje, vão notar a grande transformação nessa atleta, que a viram em Janeiro".
Modesta, Nucha Cangovi, como é tratada  nas lides desportivas, confidencia que ainda falta muito para estar adaptada aos níveis das militares.
"Já me sinto agostina, mas falta algo para estar devidamente adaptada. No momento de decidir se faço remate ou o passe, ainda tenho dificuldades. Recebo apoios das colegas e em breve vou estar totalmente familiarizada com o modelo de jogo do meu clube", ressaltou.
No clube, a jogadora realça o apoio que recebe de colegas como Otília, Zolinda, Eliane, Rossana, Gisa e Luzia.
"Têm-me ajudado a aceitar a nova realidade na minha carreira e a enquadrar-me neste meio, onde tudo para mim era diferente.Dão-me muita força", disse.  
Superar as diferenças entre o andebol da sua aprendizagem, na Escolinha de São João, no Huambo, e o modelo do 1º de Agosto é algo que deve ser aceite. Nucha já joga independente, mas recolhida ao medo de falhar. "Têm sido dias de muita aprendizagem. Na Escolinha, por exemplo, quase não treinávamos jogadas. Aqui é diferente. É tudo mais rápido, tem jogadas e é muito mais estruturado", explica.

Nucha Cangovi deu um salto, no que "nem sequer era carreira". Durante os primeiros meses de rubro-negro ao peito, viveu experiências que inviabilizariam o percurso desportivo. Pela primeira vez, na vida, distanciou-se dos pais e irmãos. A conversa do dia-a-dia foi substituída pelas das novas colegas e amigas. Acrescido a isso, teve de alterar o curso académico que seguia no Puniv. A adolescente superou as transformações e diz-se refeita das situações. O apoio incondicional de colegas e a atenção da equipa técnica são fundamentais no equilíbrio psicológico.

DESCOBERTA
Amor à primeira vista nasce na cidade do Lubango

O namoro entre Nucha Cangovi e 1º de Agosto começou na cidade de Cristo Rei, Lubango, província da Huíla, durante o campeonato nacional feminino em juvenil, em Janeiro último. O piscar de olho veio da equipa do Rio Seco. Sedenta de nova "paixão", os olhares apaixonados recaíram para a menina de 1,76m da equipa Escolinha do Huambo. O "gingar" na quadra provocava ciúmes a outras tantas adolescentes e aos treinadores.

Diante da cobiça, a equipa técnica do 1º de Agosto antecipou-se à concorrência. O mundo era mais pequeno. Tinha o que precisava. Uma esquerdina e diamante raro por lapidar. "Interessou-nos, porque é esquerdina, além de ser alta. É raro encontrar atletas com boa altura e canhota", justificou José Chuma.

Depois dos primeiros encontros, ainda no Lubango, a Escolinha do Huambo apresentou a "carta de intenção" ao 1º de Agosto. A direcção da equipa rubro-negra cumpriu com todas as exigências. Os pais, Silva Cangovi e Mariana Nanjambela, flexibilizaram a transferência de Nucha. A inclusão do irmão de Nucha nas conversações foi importante para o 1º de Agosto. O jovem influenciou na transferência por ser também treinador de andebol.

Entre as exigências das famílias, ressaltam-se as responsabilidades relativas ao estudo, saúde, alimentação e estada em Luanda. O 1º de Agosto assume-se como "tutor" de Nucha Cangovi. Também é do clube militar fazer com que a adolescente se afirme desportivamente e confirme o potencial em si identificado.

A possibilidade de jogar no 1º de Agosto chegou à Nucha, em jeito de rumores, até  confirmar-se o interesse do clube militar. A ponta direita jogava o seu segundo campeonato nacional, no Lubango, depois de fazer a estreia no Namibe, no ano anterior.

FORMAÇÃO
Projecto Escolinha eleva investimento


A cedência de Nucha Cangovi, ao 1º de Agosto começou a beneficiar o projecto de formação de atletas na Escolinha São João do Huambo. A instituição desportiva vocacionada à formação controla 150 crianças, que aprendem o ABC de andebol nos escalões de iniciados, juvenis e juniores. Com a transferência de Nucha, a Escolinha viu-se desafogada de algumas carências. Hoje, está melhor servida de material desportivo, que ajuda na formação de 61 crianças em iniciados e restantes nas escalões de cadetes, juvenis e juniores.

Uma fonte da equipa do Huambo, que pediu anonimato, assegura que a equipa do 1º de Agosto ainda tem outras cláusulas a cumprir no âmbito da transferência de Nucha Cangovi. Contudo, "a transferência representa o reconhecimento do trabalho feito em condições muito difíceis". A mesma fonte assegurou que "outros talentos estão na forja para seguirem viagem a outros clubes" e os principais beneficiários vão ser sempre os jovens em formação. "Queremos manter este projecto para que mais jovens saiam das ruas e encontrem no andebol um princípio para encaminharem as suas vidas", disse.

DETERMINAÇÃO
Influência dos irmãos


Aos 10 anos de idade, Nucha Cangovi assistiu a um campeonato juvenil de andebol em Luanda. Uma das irmãs desfilou nas quadras pela equipa da Escolinha do São João, um dos mais populares bairros da cidade do Huambo. Inebriada com a ideia de um dia também viajar para jogar, aceita o convite da irmã e começa a frequentar a Escolinha. Osvaldo Congo e o seu irmão José Cangovi "Zezi" ensinaram os primeiros passos à atleta. O entusiasmo desvaneceu semanas depois. Nucha preferiu ficar "retida" em casa, longe das quadras.

A irmã insistia para evitar o sedentarismo e o treinador do Petro do Huambo fez-lhe o convite para integrar a equipa. Diante da "pressão" de pessoas próximas a si, Nucha Cangovi sente-se moralizada: "retomei os treinos". Para além da "estrela" do 1º de Agosto e de Zezi, treinador de andebol, a família Cangovi tem outros desportistas. Na equipa do Exército, em Luanda, desponta a Marlene (irmã); no Petro do Huambo, o Geovany (irmão) e na Escolinha de São João, a Ruth (irmã).

OBJECTIVO
"Ajudar o 1º de Agosto"


Ao mesmo tempo em que se adapta à realidade do clube militar, Nucha Cangovi identificou o seu lugar no projecto e definiu o seu objectivo, enquanto jogadora militar. "Agora o meu objectivo é jogar, aparecer nos escalões, chegar a sénior e fazer parte do grupo de atletas que engrandecem este grande clube que é o 1º de Agosto", disse.

Como qualquer atleta, as ambições de Nucha Cangovi vão além do engrandecimento do clube. A adolescente não descura a possibilidade de um dia defender as cores do país, embora admita que para tal pode haver ainda um grande caminho a percorrer. "Também penso um dia jogar numa selecção, mas estou mesmo concentrada no 1º de Agosto que é a minha nova família. O resto pode vir mais tarde", afirmou.

Quando chegou ao 1º de Agosto, a sua meta passava por adaptar-se a Luanda e ao novo rumo que a formação académica tem de seguir, uma vez que vem de uma cidade de movimentação e gente diferenciada. Para o efeito, diz sentir-se "bem" e conta com "grande apoio da equipa técnica e companheiras".