Jornal dos Desportos

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Reportagens

O amor dos amigos do Ciclismo

Manuel de Sousa no Namibe - 16 de Setembro, 2010

Ciclistas e pessoas singulares juntaram-se à dor de Osvaldo Filipe

Fotografia: Jornal dos Desportos

Jair Guerreiro, professor de Educação Física e integrante do grupo de Amigos na Luta contra o Cancro, afirmou que a situação de Osvaldo Filipe afectou os amigos, colegas e familiares. A ideia de solidariedade para com Chala surgiu no Centro Nacional de Oncologia, onde também se constataram outras realidades que tocaram o grupo. Para ajudar Chala e o Centro, decidiu-se chamar a atenção da comunidade com esta tournée.

"O Centro Nacional de Oncologia tem 16 camas para internamento. Atendendo à importância que tem no país, a situação choca qualquer pessoa", lamentou-se Jair Guerreiro, que acrescentou: "Por causa dessas situações, resolvemos nos juntar e formar um grupo a que designamos Amigos do Ciclismo na Luta contra o Cancro" justificou. A ideia inicial da criação do núcleo era de fazer algum "barulho" por Luanda, para despertar a consciência das pessoas, dos dirigentes políticos e do Governo, para que se olhe com mais atenção para esse mal.

Depois de ter a máquina montada e oleada, o grupo foi questionado pela Direcção Nacional de Oncologia se se podia alargar o "barulho" a algumas províncias. "Inicialmente, escrevemos a algumas instituições a solicitar apoio. Contactámos os governos provinciais, a Polícia Nacional, a Força Aérea Nacional de Angola. Mediante as respostas positivas, demos corpo ao projecto. Temos dois grandes patrocinadores: a Polícia Nacional, através dos Comandos Municipais, que nos apoiam, quando estamos no território das suas províncias, e a Força Aérea Nacional de Angola”, disse Jair.

A escolha do Namibe para o arranque da pedalada pretende desmistificar a falsa ideia de que "o Sul fica longe". "As pessoas têm a mania de dizer isso", afirma Jair Guerreiro. O Namibe ficou mais próximo dos amigos quando o grupo se propôs a desembarcar em terras da Welwitchia Mirabilis. A recepção calorosa do Governo local e da Polícia Nacional prestigiou o projecto. Durante o percurso entre Namibe e Tômbwa, a recepção do público deu força aos ciclistas, que já manifestavam algum cansaço. "Até chegar à meta prevista na Administração municipal de Tômbwa, outras iniciativas nasceram, como a criação de núcleo local de Amigos dos Ciclismo na Luta contra o Cancro. As pessoas congratularam-se connosco", disse Jair.

O desejo ardente da população local constituiu premissa para a edificação da representação do Centro Nacional de Oncologia. Assim manifestou o representante da instituição de saúde no grupo. Os habitantes mostraram-se felizes com a proposta, pois são inúmeros os casos que necessitam de atendimento médico especializado. O grupo é composto por 11 atletas de várias equipas de Luanda, ex-colegas do Chala na Selecção Nacional, ciclistas amadores e outros curiosos, que abraçaram a causa. A solidariedade para com Chala e o Centro Nacional de Oncologia faz percorrer o país pessoas vestidas de gratidão pela vida humana. São pessoas que se predispuseram a levar a solidariedade a 11 províncias do país.

O lema dos Amigos do Ciclismo na Luta contra o Cancro criou laços fortes entre as pessoas. A constatação verificada no final do Campeonato Nacional de Ciclismo vai marcar uma história de amor ao próximo. A presença de pessoas de várias idades no Circuito Contra o Tempo, prova no qual o jovem Naclides se quedou em segundo lugar e o veterano Carlos Araújo, com 42 anos de idade, em 11º, demonstrou a unidade que o ciclismo proporciona aos homens.

Além da filantropia, os Amigos do Ciclismo na Luta contra o Cancro pensam na saúde dos seus ciclistas, dos jovens e cultivam as pessoas através desta mensagem por onde passam: "Quem gosta de saúde, abraça esta causa". O grupo também mostra às pessoas que é possível viajar pelo país por estrada, aproveitando a oportunidade de apreciar a exuberância da natureza. O fantasma da guerra está substituído por amor ao próximo, solidariedade e paz.

Solidariedade humana
ao longo do percurso

O sucesso da tournée de solidariedade dos Amigos de Ciclismo na Luta contra o Cancro conta com o apoio de pessoas anónimas, que oferecem donativos diversos, principalmente, alimentação e vestuário nas zonas mais frias do país. A carrinha de apoio ao projecto não está disponível por problemas mecânicos. Um anónimo, que ouviu o clamor pela Televisão Pública de Angola, ofereceu duas carrinhas que transportam os equipamentos auxiliares. O grupo não aceita dinheiro, mas ofertas em espécime para o sucesso da tournée. 

Além de turismo, os Amigos do Ciclismo na Luta contra o Cancro estão a fazer esclarecimentos sobre a doença às populações, porque há um desconhecimento total nas comunidades rurais. O grupo integra médicos, enfermeiros, paramédicos, psicólogos, desportistas e pessoas singulares, que frequentaram um seminário no Centro Nacional de Oncologia. O último grupo de pessoas são "palestrantes", cuja missão é esclarecer as populações de várias localidades sobre a doença. Antes, participaram nas actividades ligadas ao Centro, o que de lhes permitiu um domínio abalizado da enfermidade.

"Somos activistas, levamos o conhecimento às pessoas e podemos falar com propriedade sobre o caso. Há muitas pessoas que desconhecem a doença", disse um palestrante. O desconhecimento do cancro não se verifica apenas nas comunidades rurais. "Quando frequentámos o seminário, levámos os prospectos às pessoas e não sabiam sobre o caso e nem sabiam onde se situa o Centro Nacional de Oncologia". O objectivo principal da tournée é levar a informação sobre o cancro às pessoas, para que saibam tudo à volta do mal. O cancro pode ser amenizado e prevenido. É importante dizer às pessoas que o cancro não tem cura, mas há paliativos para que as pessoas consigam ter uma vida saudável. Para o efeito, a protecção é a melhor cura.

O grupo de Amigos do Ciclismo é um movimento "provisório" e a sua oficialização como instituição depende dos resultados das acções em curso. A reflexão sobre a tournée vai abranger todos os participantes. air Guerreiro lamenta o facto de haver um pensamento fechado sobre a prevenção. Para sustentar a ideia, exemplifica: "Há muitas situações de cancro de próstata e os homens fogem aos exames. O meu irmão morreu em Janeiro último e fugia aos exames. Ninguém deve fugir da doença".

Carlos Araújo, antigo praticante e seleccionador angolano de ciclismo, abraçou a causa, porque o seu antigo atleta Osvaldo Filipe "Chala" contraiu um melanoma, tumor maligno da pele ou das mucosas. A pedido da vítima, resolveu juntar um grupo de amigos (ciclistas e não ciclistas) em Dezembro último. O cancro é, muitas vezes, uma doença que se desenvolve por falta de conhecimento e de acompanhamento. O grupo chama a atenção com a realização da tournée: "Osvaldo Filipe afirmou o cancro derivou da falta de conhecimento e do seu desleixo, o que fez com que se desenvolvesse no seu corpo. Hoje, luta para sobreviver com essa doença.

Temos fé que vai sobreviver. Estamos aqui a abraçá-lo e viemos dar o nosso contributo, o apoio moral a outras pessoas com essa doença e àquelas que são portadoras e não sabem. A doença está escondida nos seus corpos a desenvolver-se". O grupo de Amigos do Ciclismo foi criado para ajudar todos aqueles que vivem com cancro no que for possível. Todos os apoios das entidades nacionais, empresários, pessoas singulares, governantes e instituições governamentais são necessários. A doença está presente. O ciclismo é um desporto que consegue transmitir a mensagem de uma terra para outra, através das camisolas, bandeiras, actividades desportivas num percurso de até 160 quilómetros. A opção do Centro Nacional de Oncologia em abraçar o ciclismo é valiosa.

Ventos de Namibe
criam ciclistas fortes

A província do Namibe tem óptimas condições para a prática do ciclismo. A constatação é de Carlos Araújo, antigo praticante e seleccionador nacional. "Andei por várias regiões do país e o Namibe apresenta ventos que não se fazem sentir noutras localidades. Se houver apostas e trabalho sério no ciclismo, o Namibe terá atletas fortes", disse o especialista. Araújo assegura que "o grande inimigo dos ciclistas não é a subida, mas o vento. E se os ciclistas se tornarem bons no vento, são fortes em qualquer pista”. 

Carlos Araújo acredita que, com a realização da tournée, o ciclismo no país estará relançado. Um dos objectivos dos Amigos do Ciclismo na Luta contra o Cancro é a criação de grupos de ciclistas não federados nas 11 províncias escolhidas. O convite estende-se a ex-atletas e a pessoas singulares. O antigo seleccionador nacional afirma que o ciclismo parece ser uma modalidade cara, mas não é. E justifica: "Inicialmente, qualquer projecto pode adquirir bicicletas orçadas em 500 dólares cada. Não há necessidade de bicicletas caras".
Num dos percursos na cidade do Namibe, quatro crianças pedalaram ao lado dos ciclistas federados em bicicletas emprestadas pelos Amigos do Ciclismo. "Foram formidáveis", disse.

Fazer um investimento de seis bicicletas no valor de 500 dólares cada uma "não é nada", na visão de Carlos Araújo. Mesmo que se atribuam salários e despesas com a equipa, valor máximo ronda os 1500 a 2000 dólares. "Este é um valor irrisório comparativamente à de uma equipa de ciclismo. Por outro lado, a criação de uma equipa de ciclismo requer vontade das pessoas, porque se colocarmos os jovens a praticar desporto, terão menos tempo para se tornarem vadios. Se estudam, terão o tempo ocupado com os treinos e o restante servirá para revisar a matéria em casa e descansar. Assim, estamos a tratar da saúde dos jovens", disse Araújo.

Tournée nacional
deixa Chala feliz

Apesar da dor por ter perdido um dos membros inferiores e não poder pedalar, Osvaldo Filipe "Chala" sente-se confortável com a solidariedade dos colegas e dos amigos. Agradece de coração a atitude de todos os que diariamente o ajudam a sobreviver com o cancro. Chala apela a todos os desportistas e às pessoas que estão na sua situação que divulguem o cancro, porque "é uma doença devastadora encarem-na com seriedade".

Ilda Sebastião, médica e psicóloga do Centro de Oncologia, garante que o moral do grupo é alto e as expectativas também são boas, uma vez que todos souberam enfrentar o problema do colega. O melanoma é um dos cancros mais fáceis de ser detectado, porque está à superfície da pele. Se todos tiverem atenção a alterações na pele, manchas que de repente mudam de contorno ou de cor, podem evitar situações tão drásticas como a amputação de um membro. A situação do colega, que está no ciclismo há muitos anos, fez com que os demais ciclistas tivessem vontade e motivação para organizar a tournée.

A médica Ilda Sebastião garante que o cancro é uma doença que se desenvolve fora dos cuidados de cada um. Contrariamente ao Sida, que se pode contrair com comportamentos de risco, o cancro pode ser detectado com antecedência. Por isso, não é aconselhável escondê-lo, porque mata a qualquer momento. Depois do Namibe, os Amigos do Ciclismo na Luta contra o Cancro escalam as províncias da Huíla, Huambo, Bié e Benguela, onde o grupo pode ser engrossado com os ciclistas locais.

Os do Huambo predispuseram-se a acompanhar o grupo nas diferentes localidades da província. Serão feitos vários circuitos, tanto nas sedes das províncias como nos municípios. O percurso contempla a passagem pelo município do Lobito, a cidade do Sumbe e um acampamento na Vila de Calulo, a pedido das autoridades locais, onde se vai realizar uma actividade de beneficência com a entrega de donativos e depois seguir para o Dondo, Ndalatando, Lucala, Malange, Bengo e, finalmente, Luanda.