Jornal dos Desportos

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Reportagens

O atacante que virou treinador

21 de Novembro, 2011

Aos 32 anos Bebeto deixou o Desportivo voltando ao Flamengo.

Fotografia: AFP

José Roberto Gama de Oliveira, mais conhecido como Bebeto, é um treinador e ex-futebolista brasileiro que jogava como avançado. Enquanto jogador, foi tetracampeão mundial pelo Brasil no Campeonato do Mundo de 1994 e vice-campeão na de 1998. Conseguiu ser ídolo nos rivais Flamengo e Vasco da Gama, sendo campeão brasileiro por ambos. Passou brevemente por outro rival, o Bota-fogo, mas conseguindo deixar sua marca. No entanto, foi no Desportivo de La Coruña que foi o ídolo máximo dos adeptos, integrando o “SúperDepor” da década de 1990.

Mundialmente, Bebeto notabilizou-se pela comemoração simulando embalar o recém-nascido filho Matheus, realizada depois de ter marcado o segundo golo do Brasil contra a Holanda no Mundial de 1994. Fundou, juntamente com Jorginho, o Instituto Bola Para a Frente, inaugurado a 29 de Junho de 2000, com o intuito de promover o resgate de meninos e meninas de 6 a 16 anos, em situação de risco social.

O instituto está localizado em Guadalupe, comunidade de baixo rendimento da zona norte do Rio de Janeiro. Durante o Campeonato do Mundo de 2010, foi comentador desportivo da Al Jazira, maior rede de televisão do Qatar. Foi eleito para o cargo de deputado estadual pelo estado do Rio de Janeiro para a vigência de 2011/14.

Começou no Vitória
Bebeto começou a sua carreira em 1982, no Vitória, destacando-se e sendo transferido para o Flamengo no ano seguinte. Zico tinha acabado de se ir embora para a Itália, logo seguido por Júnior, e o jovem e franzino baiano chegou como candidato a príncipe para a órfã massa rubro-negra.

O início não foi fácil: tricampeão brasileiro em 1983, o Flamengo passou o ano de 1984, em que Bebeto foi lançado, mesmo com um elenco recheado de craques, sem títulos: terminou em terceiro lugar na Taça dos Libertadores (mesmo possuindo a melhor campanha), perdeu a final do Carioca para o Fluminense e, no Brasileirão, a equipa foi eliminada nos quartos-de-final pelo Corinthians por 1-4, depois de ter vencido por 2-0 no Maracanã. Para piorar as coisas, o título foi decidido entre os rivais Fluminense (eventual campeão) e Vasco.

A maior tristeza, porém, esteve longe dos relvados: Bebeto perdeu o irmão num acidente de avião, que matou também um colega do Flamengo, o defesa Figueiredo. O ano de 1985 também foi escasso em títulos. O Carioca ficou outra vez com o Fluminense e, no Brasileiro, o Flamengo caiu na segunda fase de um grupo cuja única vaga ficou surpreendentemente com o Brasil de Pelotas.

A maior alegria rubro-negra naquele ano foi o regresso de Zico, que, todavia, logo depois sofreu uma violenta lesão em jogo contra o Bangu. Bebeto só foi conquistar o seu primeiro título em 1986, um Carioca sobre o Vasco. No Brasileirão, já em 1987, o clube acabou eliminado nos oitavos-de-final pelo Atlético Mineiro. O clube disputou este campeonato com muitos desfalques, entre eles Zico, Sócrates, Adalberto, Adílio e o próprio Bebeto, ao contundir-se em Goiânia contra o Atlético Goianiense.

Em 1987, ganhou finalmente de vez o coração dos adeptos. O Flamengo perdeu o Carioca para o Vasco, mas no torneio Copa União (um dos módulos do Campeonato Brasileiro daquele ano, mas considerado pelos participantes como o próprio campeonato), o jovem marcou um golo por jogo, inclusive o solitário tento do título na final, contra o Inernacional. O título do torneio, no entanto, não foi considerado oficial pela CBF. Ainda assim, Bebeto integrou uma das últimas grandes equipas do Flamengo, que reunia os veteranos Zico, Leandro e Edinho.

Vasco da Gama
Apesar da controversa transferência, deu-se bem: mesmo criticado, o elenco conseguiu quebrar 15 anos de jejum e facturar o segundo título brasileiro do clube. Bebeto participou activamente na conquista daquela SeleVasco. Em 1990, o clube voltou a contar com o ídolo Roberto Dinamite, que naquele Brasileirão tinha estado emprestado à Portuguesa. Porém, o ano foi sem títulos: detentor do título, o Vasco não conseguiu classificar-se para as fases finais do Campeonato Brasileiro de 1990, e perdeu o Estadual daquele ano para o Bota-fogo.

Na Taça Libertadores da América de 1990, a única disputada por Bebeto (Flamengo e Internacional ficaram de fora da de 1988, devido ao não reconhecimento oficial do título da Copa União), os cruzmaltinos caíram nos quartos-de-final. A seca continuou no ano seguinte: o clube não facturou no Carioca e também não alcançou as fases finais do Brasileirão. Em 1992, a situação voltou a melhorar: o Vasco facturou o Carioca e ia bem no Brasileiro, liderando a fase inicial, com Bebeto, em grande forma, a fazer dupla com o jovem Edmundo.

Porém, na segunda fase de grupos, o clube perdeu a vaga na final para o arqui-rival Flamengo, que se sagrou campeão. Restou a Bebeto a artilharia do campeonato e as primeiras e únicas Bolas de Prata da Placar, como um dos melhores avançados e também como o melhor marcador daquela edição do Brasileirão. O seu desempenho chamou a atenção de uma pequena equipa espanhola, o Desportivo de La Coruña.

Bebeto deixou o Vasco como ídolo, despertando suposições contraditórias sobre qual dos dois rivais do Rio de Janeiro onde mais se destacou era o seu clube de coração. No entanto, noutras ocasiões, também disse ter sido vascaíno na infância e enquanto jogou pelo Vasco, em homenagem ao avô chamado Vasco da Gama, mas o seu amor pelo Flamengo ninguém lhe podia tirar.

Em entrevista dada ao programa “Tá na área”, de 22 de Março de 2009, realizado pelo canal SporTv, Bebeto voltou a declerar-se flamenguista e disse que em sua casa apenas o filho mais velho, Roberto Newton, é vascaíno. Em 2009, reafirmou-se como flamenguista à “FourFourTwo”, onde explicou também as razões da polémica transferência de 1989.

Desportivo La Coruña
Chegou com outro brasileiro ao clube galego: Mauro Silva. Bebeto demonstrou logo o seu faro para o golo: terminou a sua primeira temporada em La Liga, a de 1992/93, como melhor marcador, com 29 golos. O Coruña termina em terceiro, atrás apenas da dupla Barcelona (campeão) e Real Madrid, e quatro pontos atrás do vencedor. Os prognósticos para a temporada seguinte foram mais promissores, com o clube a disputar a Taça UEFA pela primeira vez.

No torneio europeu, o Desportivo caiu nos oitavos-de-final, contra o Eitracht, e concentrou forças na Liga Espanhola, onde liderava com folga e rumando para um inédito título. A conquista foi perdida de forma dramática: o clube começou a perder pontos, enquanto o Barcelona reagia, somando 28 nos últimos 30 que estiveram em disputa. Os clubes terminaram a última volta empatados em pontos, mas o título foi para a Catalunha pelo melhor saldo de golos.

O La Coruña teve uma grande hipótese no minuto final da sua partida, disputada em casa contra o Valencia, ao ter um pénalti a favor no último minuto. Apesar de Bebeto ser o cobrador oficial, a penalidade foi chutada pelo colega Miroslav, que perdeu. Na temporada 1994/95, o Desportivo continuou a disputar o título, voltando a um vice-campeonato, desta vez menos dramático e para o Real Madrid. Na Taça UEFA, a equipa voltou a cair nos oitavos para um clube alemão, agora o Borrussia.

A recompensa veio com a Taça do Rei, em final contra o mesmo Valência, que 13 meses antes tinha representado amargura para os corunhenses, que venceram por 2-1. Foi o primeiro grande título do clube. Após três anos a disputar o título espanhol, na temporada 1995/96 o La Coruña terminou apenas em nono. Na liga europeia o clube chegou às meias-finais, onde caiu diante do Paris Saint -Germain. Aos 32 anos, Bebeto deixou o Desportivo, voltando para o Flamengo, numa transacção que envolveu a ida de Romário, então o grande ídolo rubro-negro, para o Valência.

Deixou a Galiza como o maior marcador da história do clube, que por mais algum tempo continuou a disputar assiduamente os títulos nacionais. Bebeto treinou a equipa do América no início de 2010. No dia 13 de Fevereiro, foi demitido depois de uma derrota para o Olaria, pelo Campeonato Carioca.