Jornal dos Desportos

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Reportagens

O campo de ciúmes

Avelinbo Umba - 09 de Novembro, 2010

Escola do 1º de Agosto vai fazer sorrir Angola, diz técnico militar

Fotografia: Domingos Cadência e Benjamim Cândido

Com dimensões internacionalmente recomendáveis (44x22), a infra-estrutura dispõe de uma quadra com piso sintético em cores do clube militar, bancadas para acomodar 200 pessoas, quatro torres de iluminação, dormitórios com 38 camas, uma piscina, um refeitório, balneários, uma sala de conferências, recepção, entre outras áreas de serviços. Também está prevista a construção de um ginásio. A cargo de duas empresas portuguesas, as obras conheceram várias fases, dentre as quais o levantamento do edifício, instalação de equipamentos, assim como a aplicação do piso sintético de origem americana.

Quanto ao custo da obra está reservado à cerimónia de inauguração, devido a outros acabamentos. Para Hélder José Serpa, director do complexo desportivo, tudo está aposto para o arranque e as atenções do momento prendem-se com o apetrechamento da cozinha. O objectivo principal é absorver as equipas de iniciados, mas o complexo vai albergar também as equipas de juniores e seniores.

Embora as obras não tenham finalizado, o complexo já trabalha com 64 crianças divididas em dois períodos, nos quais 32 petizes no período da manhã e igual número no período da tarde, com idades compreendidas entre os 10 e 12 anos, e Paulo Pereira, treinador da equipa principal de andebol do 1º de Agosto, é o coordenador-geral, segundo o director do Complexo.

Para salvaguardar a saúde das crianças, a direcção contratou uma equipa composta por um médico cubano, terapeuta e psicólogo. Dada a localização (Quartel General), o complexo desportivo utiliza a clínica que também está (rá) aberta para atender qualquer situação que possa acontecer com as atletas ou outro pessoal ligado à equipa. Curiosamente, o médico cubano também atende a equipa sénior de futebol, razão pela qual o atendimento está assegurado, na óptica de Hélder Serpa.

A direcção convidou dois jovens angolanos para assumirem a responsabilidade para coordenarem os períodos da manhã e da tarde. “Vamos ver a necessidade ou não de aumentar o número de treinadores, porque depende do número de atletas que tivermos” disse Hélder José Serpa. Relativamente ao enquadramento dos atletas, o director do complexo diz que qualquer interessado pode fazê-lo desde que tenha idade entre 10 e 12 anos.

O dirigente refutou informações que correm, segundo as quais, só os filhos de militares afectos ao Quartel-General estavam autorizados para integrar na escola de formação de atletas. “No 1º de Agosto, as capacidades motoras são determinantes na selecção dos formandos”, teceu.

Técnico animado

José Terça Chuma, coordenador do núcleo e técnico principal do período da manhã, disse que todas as condições indispensáveis estão criadas. O vice-presidente do clube, General Carlos Hendrick, faz o possível para que nada falte no complexo, de acordo com Chuma.
“É uma pessoa muito incansável e procura fazer com que não falte material e equipamento necessário à nossa disposição para desempenharmos o trabalho”, disse. Envolto as excelentes condições, José Terça Chuma gaba-se: “acredito que o 1º de Agosto é o único clube no país”. E justifica-se: “temos tudo”.

Face à realidade, o jovem treinador está ciente das responsabilidades que a direcção espera. “Temos de fazer muito para a rápida evolução das atletas, pois quanto mais se sentirem motivadas, rapidamente podem engrenar na aprendizagem”, disse. O resultado do trabalho diário pode ser visto no próximo ano. A garantia é de José Terça Chuma. “Em 2001, as nossas atletas poderão fazer sorrir a província de Luanda, em particular, e o país, em geral”, disse.

Quanto à formação de pessoal técnico, José Chuma afirma que o General Hendrick, o mentor do projecto, “é uma pessoa que aposta na formação do homem” e já tratou com a equipa técnica para se adoptar estratégias de capacitação dos treinadores, à semelhança do que se faz em países evoluídos.  “Temos na pessoa do coordenador geral, o treinador Paulo Pereira, possuidor de um currículo invejável e de conhecimentos que estão a inovar o clube, quer a nível humano quer material”, disse o jovem treinador e recheado de alegria atiçou: “outras agremiações far-nos-ão ciúmes, quando se aperceberem da mais-valia do nosso clube”.

Foemação académica

A aposta no andebol feminino no 1º de Agosto transborda para além dos resultados desportivos. A estratégia da direcção passa na formação de um colectivo de mulheres com elevada visão de jogo, força e técnica. Para o alcance desses objectivos, as jovens mulheres estão submetidas a um acompanhamento escolar rigoroso. “Muitas atletas estão a formar-se com a ajuda do clube, porque é nosso desejo ter atletas que consigam jogar a nível internacional descomplexadas”, disse Chuma. O treinador revelou que a direcção o recomendou, aquando do convite para integrar o grupo de responsáveis do Centro de treinos do ex-RI-20, a obrigatoriedade da formação académica a todas as atletas para além da vertente desportiva.

Condições do complexo
satisfazem as crianças

As atletas manifestaram o agrado pelo facto de o complexo desportivo estar dotado de todas as condições para a prática de andebol. É o caso de Denize Caetano, uma jovem de 13 anos de idade, estudante da 7ª classe na Escola de S. José de Cluny e residente no bairro de São Paulo. Joga a meia-distância e diz que tudo começou com o impulso da mãe e da irmã mais velha, que a convenceram a prática do andebol no 1º de Agosto. Denize Caetano está a gostar dos treinos e espera tornar-se numa grande atleta e fazer parte da Selecção Nacional.

Rossana dos Santos tem 17 anos de idade, estuda a 12ª classe no Colégio Pitabel. A jovem confessa que desde as primeiras aulas até aos dias correntes, em quatro meses de aprendizado, a prática de andebol está a mudar a sua vida. Sempre sonhou ser uma grande atleta e os professores ajudam-na a concretizá-lo. “Há sensivelmente quatro meses de treinos já consegui aprender boas coisas com os professores e fazer novas amizades”, diz Rossana, que se sente empolgada com o ambiente: “se tudo dependesse de mim, não gostaria de sair tão cedo dos escalões de formação”.

Como a idade não perdoa, Rossana vai abandonar algum dia a escola de formação e seguir o percurso. Ciente das responsabilidades que lhe esperam, Rossana advoga: “Pretendo não decepcionar as pessoas que directa ou indirectamente me apoiam para alcançar o pico, pois sei que hoje estou nos juvenis e posteriormente nos seniores” diz a jovem. Felícia de Carvalho Nzambi tem 14 anos de idade, reside na comuna da Corimba, no município da Samba e frequenta a 9ª classe na Escola Povo em Luta.

Por iniciativa dos pais, foi levada ao complexo desportivo do 1º de Agosto (Gama), nos arredores do Miramar. Inicialmente, estava céptica para aceder ao pedido dos progenitores para a prática do andebol, mas acabou por aceitar o desafio com a influência de algumas amigas. “Treinava no Gama, mas a distância, entre o Miramar e a Corimba, obrigou-me a pedir transferência para o novo complexo. Estou a gostar do ambiente de trabalho, dos treinadores e dos colegas”, disse a adolescente que pretende atingir o píncaro do andebol.

Felícia de Carvalho Nzambi não abdica dos estudos e quer formar-se em gestão empresarial. O andebol, diz, vai ajudar-lhe a concretizar o objectivo.Jacira da Graça Félix tem 13 anos de idade, reside no bairro do Prenda, no município da Maianga, e estuda a 8ª classe. A garota diz que já aprendeu muito no centro especial para formação de andebol, pois nem bater a bola sabia. Hoje, com dedicação e força de vontade, Jacira de Carvalho aprendeu a fintar, fazer “gancho” e ir ao contra-ataque. O estudo e a prática da modalidade têm sido bem arquitectados. Para a Jacira, há um período para os estudos e outro para os treinos, para além dos afazeres domésticos.

Breve historial do andebol

Atribui-se a invenção do andebol ao professor Karl Schelenz, da Escola Normal de Educação Física de Berlim, durante a Primeira Guerra Mundial. No início, o andebol era praticado apenas por moças e as primeiras partidas foram realizadas nos arredores de Berlim.
Os campos tinham 40 x 209m e eram ao ar livre. Pouco depois, em campos de dimensões maiores, o desporto passou a ser praticado por homens e logo se espalhou por toda a Europa.

Em 1927, foi criada a Federação Internacional de andebol Amador (FIHA), porém, em 1946, durante o congresso de Copenhaga, os suecos oficializaram o seu andebol de salão para apenas 7 jogadores por equipa, passando a FIHA a denominar-se Federação Internacional de andebol (FIH), e o jogo de 11 jogadores passou para segundo plano. Em 1933, foi criada a federação alemã que, três anos depois, introduzia o andebol nos Jogos Olímpicos de Berlim. Em 1954, a FIH contava com 25 nações.

No dia 26 de Fevereiro de 1940, foi fundada, em São Paulo, a Federação Paulista de Andebol, mas o desporto já era praticado no Brasil desde 1930. Até 1950, a sede da FIH era na Suécia. Transferiu-se no ano seguinte para a Suíça. A primeira vez que o andebol foi disputado em Jogos Olímpicos foi em 1936, depois foi retirado e voltou em 1972, já na sua nova versão (de 5 jogadores) e, em 1976, o andebol feminino também passou a fazer parte dos Jogos Olímpicos.