Jornal dos Desportos

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Reportagens

O dono do rali

06 de Outubro, 2010

Sebastião Loeb colecciona o sétimo título mundial na terra natal

Fotografia: AFP

Ganhar em Haguenau seria um sonho, um momento mágico. Uma magia impulsionada pela motivação dobrada nas pistas. O hepta-campeão mundial de ralis é filho de Haguenau e correu mais rápido nas ruas do vilarejo, contagiando a emoção à população da localidade que o viu nascer. Entre o sonho e a realidade, os conterrâneos de Loeb acolheram a meta da consagração e surpreenderam-no com uma homenagem.

Em resposta aos admiradores, Loeb disse que eram os grandes momentos como aqueles que o faziam acelerar. “O sétimo título é bonito, mas o primeiro é inesquecível; ganhar em casa, com todo o mundo, é alucinante”, declarou. Loeb conquistou a 60ª vitória da carreira, tem agora mais três ceptros do que os finlandeses Juha Kankkunen e Tommi Makinen. Com duas etapas por cumprir (Espanha 22-24 de Outubro e Grã-Bretanha 12-14 de Novembro), bastou ao francês vencer seis dos dez ralis esta época, para se tornar no campeão dos campeões.

Os rumores de abandonar no final da próxima edição não têm respaldo, porque Loeb deixou o futuro em pratos limpos: até que “a gasolina acabe”. “Antes de parar tenho de me mentalizar, porque ainda não cheguei aos 62 anos”, disse o responsável pela hegemonia da Citroên em meio à celebração.

O percurso
Sébastien Loeb nasceu em Haguenau, Alsácia, no dia 26 de Fevereiro de 1974; é filho de um professor de ginástica, precisamente a disciplina onde começou a actividade desportiva, antes de se tornar conhecido da polícia de trânsito nas estradas dos arredores de Hanguenau. É um piloto francês de rali, vencedor do Campeonato Mundial de Rali de 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 e 2010, sempre ao volante de Citroên e com o navegador Daniel Elena.

Loeb detém o recorde de ter vencido onze ralis mundiais em 2008 e é o piloto que possui o maior número de vitórias (60) na história do WRC, sigla em inglês do Campeonato Mundial de Rali. É também bicampeão da Corrida dos Campeões, depois de levar para casa o Henri Toivonen Memorial Trophy e o título de “Campeão dos Campeões” em 2003 e 2005. Em 2004, venceu a Taça das Nações para a França com Jean Alesi.

Ficou famosa a vitória de Loeb no campeonato de 2006, em que, por ter fracturado o húmero direito num acidente de BTT perto da sua casa na Suíça, não pôde participar nas últimas provas do campeonato, mas a grande vantagem pontual que detinha face ao segundo classificado, Marcus Gronholm, permitiu-lhe vencê-lo. Recebeu a notícia em casa via um vídeo da Internet. Devido à diferença de fuso horário, comemorou com um café da manhã ao invés do tradicional champanhe, vendo toda essa experiência “muito estranha”.

Loeb cresceu em Oberhoffen-sur-Moder com sonhos de se tornar num ginasta/acrobata, mas ao invés disso, mudou o interesse, quando adulto, para piloto de corridas de carros. Em 1998, começou a entrar nos eventos da série de Troféus Citroên Saxo francesa e ganhou o título de 1999. Guy Fréquelin, da Equipa Principal de Desportos da Citroên, serviria como mentor de Loeb para que entrasse no Campeonato Mundial de Rali Júnior, que conquistou em 2001. Durante esse tempo, foi também autorizado para participar de vários eventos do Campeonto Mundial de Rali num Citroên Xsara WRC, onde em Sanremo, surpreendentemente, perseguiu o Peugeot do vencedor e experiente Gilles Panizzi até ao final da corrida.

Em 2002, seria a primeira participação de Loeb numa época completa com a Citroên. Venceu o Rali da Alemanha, o primeiro evento da sua carreira, embora em estrada também vencesse a corrida de abertura da época no Rali de Monte Carlo. A sua vitória foi retirada por uma penalidade de tempo controversa depois da última etapa e que deu vitória para o segundo colocado Tommi Makinen. Em 2003, Loeb venceu três eventos da WRC antes de perder para Petter Solberg no Rali da Grã-Bretanha no País de Gales e também perder o campeonato para Solberg por apenas um ponto.

O recordista ímpar

Em 2004, Loeb dominou a cena do WRC de maneira semelhante a que Michael Schumacher dominou a Fórmula-1 de 2000 a 2004, ao vencer seis eventos e conquistar muitos pódios em outros que lhe deram o título de pilotos. Foi também o responsável pelo segundo título de construtores para a Citroên. Originalmente conhecido como um especialista no concreto asfáltico, 2004 foi o ano em que mostrou ao mundo as suas outras qualidades.

Venceu o Rali da Suécia de Uddeholm, tornando-se no primeiro não-escandinavo a vencer a prova. Loeb venceu muitos outros ralis como o Rally Telstra da Austrália e o Rally Automobile Monte Carlo. As seis vitórias de Loeb no WRC fizeram com que igualasse ao recorde de vitórias numa época do companheiro francês Didier Auriol, que venceu seis em 1990.

Uma época
de recordes
Em 2005, com a vitória na nona etapa (Rali da Argentina), Loeb tornou-se no primeiro a vencer seis ralis consecutivos e o primeiro a vencer sete numa época, tendo já vencido a etapa de abertura do Rally Automobile Monte Carlo. Conquistaria o título da época, quando liderava o Rally Britânico no País de Gales, mas após ser anunciado o cancelamento das duas últimas etapas, devido à morte de Michael Park, num acidente na etapa 15, Loeb deliberadamente incorreu numa punição de dois minutos, o que o deixou com o terceiro lugar e impediu que levasse o título.

Venceu todas as doze etapas do Rally de France, em 2005, um outro recorde, pois foi a primeira vez que um piloto venceu todas as etapas de um rally da WRC. Esta havia sido a sua nona vitória no ano e com a vitória do Rally de Catalunha, na Espanha, fez a 10ª vitória, em 2005, batendo o seu próprio recorde (e o de Didier Auriol) de seis vitórias numa só época.

Em 2005, também participou das 24 Horas de Le Mans na equipa de Pescarolo n° 17. Loeb preparou-se para a corrida treinando no circuito de vídeo game da Sony PlayStation 2 Gran Turismo 4 a bordo de um jacto particular, segundo notícias postas a circular naquela época. Na corrida, o seu carro teve vários problemas, mas Loeb provou poder dirigir rapidamente na sua primeira corrida em circuito fechado. Finalmente, também ganhou o título individual de Campeão dos Campeões em 2005 na Corrida dos Campeões.

Le patron 
A matriz da Citroên, a PSA Peugeot Ciên, retirou as duas companhias do WRC no fim de 2005, mas a Citroên tinha planos de voltar em 2007 com o Citroên C4 WRC, um projecto ao qual Loeb estaria intimamente ligado. Planeia juntar-se à equipa da fábrica sedeada em Versalhes em 2007. Enquanto isso, “aventurou-se” na Kronos Citroên. Apesar de dirigir um carro no término do seu potencial, mostrou ainda que era Le Patron (o Chefe), dominando a época e conquistando o terceiro título com o Xsara.

A primeira vitória daquela época surgiu no Rally Corona no México e o colocou na liderança, que nunca mais seria perdida, do campeonato. Conseguiu uma série de cinco vitórias consecutivas que o deixaram próximo do recorde de vitórias individuais de ralis, que pertencia a Carlos Sainz com o número de 26 vitórias, e que finalmente igualou em Agosto com a sexta vitória do ano na Alemanha.

Com a vitória no Japão, passou a recordista mundial com 27 vitórias. A vitória no Chipre colocou-o bem próximo de obter o terceiro e consecutivo título do Campeonato Mundial de Rali, o que se concretizou na etapa da Austrália. O segundo colocado na competição, Marcos Gronholm, não havia conseguido fazer muitos pontos. Loeb terminou em segundo lugar na classificação geral das 24 Horas de Le Mans de 2006, num Pescarolo-Judd.

2007 E 2008 E 2009
Em 2007, Sébastien Loeb é novamente o piloto oficial da Citroên, com o novo Citroên C4 WRC. Venceu o Rally de Monte Carlo, a primeira corrida do novo C4. Com o terceiro lugar obtido no Rally da Grã-Bretanha, no País de Gales, Loeb garantiu o quarto título mundial consecutivo. Loeb chegou a testar um carro de Fórmula-1. Com onze vitórias, em 2008, ao volante do Citroên C4 WRC, Sébastien Loeb e o co-piloto Daniel Elena sagraram-se campeões mundiais pela quinta vez consecutiva, um recorde na disciplina.