Jornal dos Desportos

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Reportagens

"O estado do atletismo no pas precrio"

Pedro Futa - 16 de Dezembro, 2017

Jos Saraiva afirma que a ausncia de incentivos e a falta de vontade dos dirigentes.

Fotografia: Jornal dos Desportos

Como caracteriza o actual momento do atletismo no país?
O estado do Atletismo em Angola é precário, na medida em que se conferirmos as estatísticas da Federação Angolana de Atletismo, concluímos que devemos prestar a atenção a diversos aspectos concernentes às especialidades. Não diversificamos as disciplinas, e o primeiro recorde já dura há  20 anos.

Quais são os principais motivos que influenciam os dirigentes a não apostar nesta competição?
A falta de resultados condicionam os apoios, não temos melhores marcas, tanto em masculinos como no femininos. Se melhorarmos, com certeza que aparecerão os patrocínios.

Luanda e Huíla são as províncias que apostam no atletismo. Há falta de incentivos nas restantes circunscrições?
Não. Estamos perante a boa vontade dos treinadores, mas o atletismo não se faz sem as ciências auxiliares, como a natação, ginástica e ginásio. A falta de pista também é um empecilho para que as demais províncias apostem no desporto.

DESPORTO ESCOLAR
O plano do Executivo de apostar no desporto escolar, acha que a iniciativa já se faz sentir actualmente?

É necessário ter uma visão, para abordarmos o desporto escolar, é um processo que não pode haver exclusão. Se formos às academias escolares, se os meninos que saem das escolas não tiverem motricidade motora, logo, o miúdo é excluído.  No desporto escolar, é necessário que haja pistas para o atletismo, os alunos têm de praticar natação e exercitar no ginásio. Isso, não temos no país. É preciso criar primeiro as infra-estruturas escolares. As escolas não têm um recinto para a prática desportiva. As aulas de educação física são dadas na areia, em alguns locais. É preciso que se criem as condições materiais e financeiras, para que os professores possam aplicar com eficácia os fundamentos, no desporto escolar. Os Ministérios da Educação, da Juventude e Desportos e os clubes têm de trabalhar em conjunto num projecto a longo prazo, para que tenhamos bons resultados no futuro. Os clubes deviam fazer parcerias com as escolas, no sentido de terem sempre os melhores alunos a trabalharem com eles, desde que não interfiram nos estudos.

REGRESSÃO
Em relação ao passado, sente que actualmente há evolução ou regredimos?

Claro que regredimos. É só olhar para as nossas marcas. É uma vergonha, que um recorde do arremesso de dardo que foi feito por Bernardo João, dure mais de 20 anos. Um recorde de lançamento  de salto em altura, que foi do Orlando Bonifácio, perdure há mais de 25 anos.  Posso afirmar que estamos há mais de 25 anos atrasados. Há necessidade de mudar o paradigma. O Atletismo deve ser dinamizado a nível nacional, e os clubes devem procurar os melhores atletas. Só assim, poderemos perspectivar o melhor para a modalidade.

SÃO SILVESTRE
Angola está a poucos dias da realização da São Silvestre de Luanda. Como treinador e antigo praticante, o que se lhe oferece dizer sobre a prova?

A São Silvestre já esteve melhor nos anos 2011 e 2012. Foi considerada uma das melhores provas do Mundo, porque tinha os melhores corredores a nível nacional e internacional. Vinham do Quénia e da Etiópia, atletas de elite que tão somente têm recordes mundiais. Tínhamos tudo para  ter uma excelente prova.

O que a fez esmorecer?
Em 2013, com a morte de atletas, a expulsão do director da prova e por egoísmo de certas pessoas que não adianta citar nomes, de lá para cá, sentimos uma certa declinação da qualidade da prova. A crise financeira que o mundo acarreta, veio de certa forma piorar a situação. Este ano, não vamos ter atletas de elite, devido às causas que citei. Não podemos fazer projectos com valores inexistentes, para não passarmos pelo ridículo.

Os fundistas angolanos estão há muito tempo fora do pódio, o que podemos fazer para melhorar o quadro?

Temos de agarrar nas ciências auxiliares ao desporto, para que a metodologia de treinos possam ser aplicadas. Tem de se trabalhar com o Centro de Medicina Desportiva para que tenhamos bons resultados. Temos bons fundistas no nosso país e em África, só faltam as condições de trabalho. Os atletas não têm a alimentação condigna e nem repouso. Tudo isso, são condições indispensáveis para que tenhamos bons resultados. Os atletas em Angola não são profissionais. A maioria sai dos treinos para o emprego, e muitos deles ainda, vão para a escola de noite. Tudo isso, contribui para o pouco rendimento.

ORGANIZAÇÃO
ADMINISTRATIVA

Sobre o funcionamento da actual Federação Angolana de Atletismo, que comentários se lhe oferece fazer?
A actual Federação, quando pensamos que fosse melhorar, houve uma espécie de empurra -empurra, e a Federação Internacional de Atletismo (IAAF) é bastante rígida no cumprimento de tempo de entrega do relatório. Ainda temos de melhorar os aspectos organizativos. A teoria apenas não basta, é preciso pôr tudo em prática.

Quer dizer que há um péssimo trabalho da Federação?

Não diria péssimo, mas houve um desconhecimento das regras da Federação Internacional de Atletismo (IAAF), o que transparece é que não houve boa passagem de pastas do antigo presidente Carlos Rosa para o actual, Bernardo João.

Quantos especialistas temos na área de Atletismo?

Temos muitos especialistas. Não posso falar em números, a Federação Angolana e a Federação Internacional formam muitos técnicos não a nível superior. Mesmo se um treinador tiver a formação académica superior, tem de obrigatoriamente obter as especialidades de nível um, dois e três. Esses cursos só são dados pela Federação Internacional de Atletismo.  Em Angola, falta a formação de nível três. Hoje, os treinadores não têm a remuneração suficiente para custear os cursos. Para exemplificar, nos meus 32 anos no 1º de Agosto, como treinador, auferia 42 mil kwanzas. Tinha de viver da boa vontade de alguns patrocínios para fazer os cursos no Brasil e em Portugal.

No país valoriza-se mais o técnico estrangeiro em detrimento do angolano?
É uma pergunta muito pertinente. Esta questão é transversal, em quase todas as modalidades. Dá-se mais valor ao estrangeiro do que ao nacional, mas considero isso como mediocridade, e falta de boa gestão. É só olhar para os resultados desde o futebol, andebol, basquetebol e atletismo. Tivemos sempre melhor com os nacionais.
 
PERFIL
José Saraiva nasceu no Moxico, a 3 de Outubro de 1957. É especialista em atletismo, pelo Instituto Nacional dos Desportos, desde 1982, nas especialidades de meio fundo e fundo; tem formação pela Federação Internacional de Atletismo nos níveis 1, 2 e 3. Actualmente, é comentarista desportivo na Supersport canal da plataforma DSTV.