Jornal dos Desportos

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Reportagens

O extremo-poste que encesta na rádio

Matias Adriano - 08 de Outubro, 2010

Nelson Ventura extremo poste de grandes recursos técnicos o radialismo desportivo

Fotografia: Jornal dos Desportos

É talvez o mais explosivo relator de basquetebol do nosso radialismo desportivo e quiçá do espaço lusófono. A gama de convites que já teve de outras estações, incluindo a Antena-1, acodem-nos nesta suposição que não é aleatória. Não se trata de um velhote com tarimba dos tempos da outra senhora. Mas de um jovem que à custa da sua dedicação profissional e vocação já é um campeão de rádio.

Falámos de Nelson Ventura, ou se preferirem, Nelson Geraldo Garcia Ventura, como consta do seu B.I. O nosso convidado para o perfil de hoje personifica um percurso que se divide entre as quadras de basquetebol e os estúdios da Rádio Nacional de Angola. É, enfim, alguém que, ainda jovem, assumiu uma atitude difícil e corajosa. Numa altura em que técnicos como Vitorino Cunha,Vlademiro Romero e outros viam despontar nele uma verdadeira pepita de ouro para o basquetebol, não vacilou perante a oportunidade de abraçar uma carreira profissional. E zás, trocou o basquetebol pela paixão de rádio.

Hoje, diz que não se arrepende pela decisão um dia tomada. “A vida tem destas coisas. Às vezes é preciso parar e reflectir sobre aquilo que pretendemos fazer, e preferi abraçar a carreira radiofónica”. Mas quanto a nós o que vale é que se o basquetebol perdeu um extremo poste de grandes recursos técnicos o radialismo desportivo ganhou um profissional de reconhecida tarimba. Temos fé que terá sido uma decisão difícil para quem ainda como juvenil, ao serviço do CDUA, já era chamado à selecção de honras. “A primeira vez que fui chamado à selecção jogava ainda nos juvenis. Aliás, eu era juvenil mas treinava com os seniores”.

Enquanto atleta vestiu a camisola do CDUA (não federado), Ferroviário, 1º de Agosto e Dínamos. Neste percurso passou pelas mãos de Vlademiro Romero, Vitorino Cunha e outros técnicos de basquetebol. Vareze, Paulo Manita, Paulo Múria, Sidrak, Admar Barros são alguns nomes de que se lembra como colegas de equipas que representou antes de cair da tabela para os estúdios da rádio. Quando no fim do campeonato nacional de 1985 desviou o caminho que dava ao campo do Dínamos, fazendo a curva para a Rua Comandante Gika, trazia na bagagem um título de campeão nacional e uma Taça de Angola, ambos conquistados ao serviço do Dínamos de Angola.

O seu rápido crescimento na rádio deveu-se muito à qualidade dos profissionais que na época compunham a extinta Redacção Desportiva. “Quando entrei para a rádio encontrei muito bons profissionais, todos eles exigentes. Falo do Arlindo Macedo, Manuel Rabelais, Mateus Gonçalves e outros.” Aponta, entretanto, Mateus Gonçalves, agora na Luanda Antena Comercial, como seu principal tutor, o profissional em quem diz se ter inspirado. “Foi o Mateus que me levou à Rádio Nacional, que acompanhou todos os meus passos até que achou que eu já podia caminhar sozinho. A ele devo o que sou hoje profissionalmente.”

Maputo foi a sua primeira escala na condição de enviado especial. Aí também fez o seu primeiro relato de basquetebol. Conta como foi: “Fui levado pelo Mateus Gonçalves num torneio em que todas as equipas participantes faltaram. Em função disto o torneio resumiu-se às selecções de Angola e Moçambique. O regulamento arranjado à última hora previa a disputa no sistema de melhor de três jogos. Angola venceu os dois primeiros e não foi preciso realizar o terceiro. Como o torneio tinha perdido algum interesse em função das ausências o Mateus deixou-me relatar os dois jogos, e comecei aí.”

Como todo principiante numa carreira, Nelson Ventura imitou algumas vozes na altura já consagradas, como Mateus Gonçalves, Arlindo Macedo e Estêvão Timóteo, mas teve de criar o seu próprio estilo. “Tentei imitar um pouco aqui e ali e acabei por criar o meu próprio estilo. Hoje ninguém pode confundir a minha voz com a de outro colega no activo ou passivo.”

“Já joguei futebol”

Sendo filho de um homem de futebol, como foi Chico Ventura, era suposto que tivesse maior inclinação para o futebol. Mas quer Nelson quer o irmão Tó Ventura tiveram maior paixão pela bola ao cesto, mesmo tendo uma regular frequência aos campos em companhia do pai. Entretanto Nelson Ventura ainda fez uma perninha antes de enveredar para o basquetebol. Mas, sem uma aposta por aí além. “Cheguei a jogar futebol no Maxinde. Era meu treinador Severino Miranda Cardoso “Semica” e actuava com médio. Também cheguei regularmente futebol na escola.”

Entretanto, a paixão pelo basquetebol falou mais alto e o futebol recebeu um cartão vermelho. “Cresci no futebol porque acompanhava sempre o pai no ASA (Taag noutro tempo). Muito cedo estávamos no campo ou no clube com o Ti Lino. Mas, foi no basquetebol onde me sentia melhor inserido e atingi alguma projecção.”

“Tive vários
convites de rádios


Ao longo da sua carreira radialista Nelson Ventura teve vários convites de outras estações radiofónicas. Mas nunca respondeu positivamente a nenhum em função das limitações que lhe eram impostas pela direcção da RNA. “Em 1994 vinha eu de Porto Rico quando fui convidado a trabalhar na Antena-1em Portugal. Entretanto carecia de uma autorização da direcção da emissora e na altura a resposta de Manuel Rabelais foi não.”

Em 1999 aquando da realização, pela segunda vez em Angola do Afrobasket fui convidado a relatar, em regime de contrato, os jogos pela Luanda Antena Comercial-LAC. “Também não fui autorizado. Realmente foi difícil dizer não ao Mateus Gonçalves, mas não tinha outra saída. Também já fui convidado a trabalhar para uma rádio que emite em português em Toronto. Em 1994 pediram que eu ficasse por lá, mas na altura estava de casamento marcado.”

Por dentro
Nome: Nelson Geraldo Garcia Ventura
Nascimento: 21 de Abril de 1966
Local: Luanda
Profissão: Radialista
Mulher: Joceline Nelson dos Santos
Cidade: Miami
Religião: Católica
Defeito: Falar pouco
Virtude: Sociável
Cor: Azul
Prato: Feijoada
Bebida: Vinho ao almoço
Perfume: El Cours
Diversão: Televisão, leitura e passeio
Filme: acção
Leitura: Todo o tipo de revista
Música: Semba e romântica
Poligamia: Respeito
Escritor: Wanhenga Xitu
Cozinha: Sou mestre