Jornal dos Desportos

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Reportagens

"O futebol feminino no pas no ocupa o espao que lhe devido"

Augusto Panzo - 29 de Setembro, 2009

Augusto Manue

Fotografia: M.Machangongo

 Depois de se ter notado um ligeiro ascendente do futebol feminino angolano no fim da década de 1990, o quadro é hoje extremamente sombrio. Que se lhe oferece dizer sobre o momento actual do futebol feminino?
O futebol feminino no país não ocupa o espaço que lhe é devido. Não há evolução nos campeonatos locais ou regionais, talvez por falta de investimentos nesse género. Há alguns esforços ínfimos de certos dirigentes, que considero carolas, que têm feito coisas boas e que não buscam (quase) nada em contrapartida. Investem e não têm retorno. Desportivamente falando, há um índice muito baixo nas performances das nossas jogadoras.

Concretamente, a que se deve esse facto?
A falta de treinadores com capacidade para fazer um trabalho condigno nos clubes mata o futebol feminino. Outro problema está ligado à falta de apoios do empresariado nacional. Se houvesse um maior apoio, o futebol feminino teria o seu espaço assegurado.

Qualquer investimento financeiro exige retorno. Que política se deve adoptar para o crescimento do futebol feminino?
Os dirigentes pensam na criação de uma Liga. É verdade que uma Liga não se faz de ânimo leve, porque ela só pode prevalecer com a existência de investimentos e isso passa, necessariamente, pela existência de dinheiro. A grande oportunidade do futebol feminino exige uma mão dos empresários, sem a qual vai desaparecer.

A falta de investimento é o único obstáculo ao crescimento do futebol feminino no país?
Não. Há um outro pormenor a que muita gente não dá importância, que se resume na não inserção dessa categoria no currículo escolar, à semelhança do que acontece com o género masculino nas disciplinas de basquetebol, andebol, voleibol ou atletismo. Defendo que essa categoria faça também parte do currículo escolar. Infelizmente, não é isso o que acontece em Angola. Aliás, até o futebol masculino, a nível de formação, também não faz parte do currículo escolar. Isso é contrário ao que acontece na Europa ou mesmo noutros países do continente africano. É necessária a sua inserção no currículo escolar para que possa ressurgir. Digo ressurgir, porque, em tempos idos, o futebol feminino deu alegrias a este país. Estou bem recordado da selecção liderada pelo malogrado Chico Ventura (treinador) e Filipe Mascarenhas (dirigente da comissão instaladora). Era uma equipa muito profissional, porque era conduzida por pessoas profissionais e de boa vontade, isto é, treinadores com gabarito. Esse profissionalismo ficou bem patente nos jogos disputados diante da África do Sul, em que vimos uma selecção à altura.

Está a referir-se à necessidade da intervenção do Estado no fomento do futebol feminino?
Efectivamente. Quando falo da inserção do futebol no currículo escolar, refiro-me à intervenção de certos organismos estatais, como o Ministério da Educação. Esse organismo tem de rever os seus programas, procurando incluir a modalidade de futebol como uma disciplina curricular.
A ascensão do futebol feminino em Angola passa necessariamente pelos pressupostos mencionados?
AM – Exacto. Nos tempos em que a nossa geração frequentou o ensino de base e o segundo ciclo, eram notórias algumas peladinhas nos intervalos ou durante as aulas de Educação Física. Os alunos sentiam-se satisfeitos com a prática do desporto, o que os atraía e incentivava a ir à escola, sobretudo, nos dias em que havia aulas de Educação Física ou de jogos de futebol dos campeonatos inter-turmas. Quando se realizavam esses campeonatos, a coisa era melhor. Os alunos apresentavam-se com melhor disposição e o índice de aproveitamento escolar era alto.

Qual os papeis dos professores de Educação Física?
São extremamente importantes, mas, infelizmente, estão esquecidos. Essa franja da sociedade, que se dedica exclusivamente à formação do homem na vertente desportiva, está muito esquecida no país, o que contraria a ideia de se ter um desporto com futuro garantido, particularmente, o futebol. São os professores que encaminham os alunos para as diversas modalidades desportivas, eles conhecem as reais capacidades de cada aluno, as suas habilidades, as preferências e encaminham-nos para o atletismo, basquetebol ou futebol.

Existem talentos capazes de guindar o nome de Angola no patamar continental ou mundial?
Se dissesse que não existem, estaria a mentir. O país tem valores, mas as políticas para podermos ter selecções fortes e estarmos condignamente representados em certos eventos não são cumpridas. Temos de ser realistas. Não se pode conceber, por exemplo, que organizemos um Campeonato Africano das Nações (CAN), preparando a selecção com percalços. Quantos treinadores já passaram por ela? Hoje, temos um que está a tentar acertar o grupo, quando, por obrigação, já deveria estar acertada. Isso está a acontecer com a selecção masculina. Agora, imaginemos a selecção feminina! Nem faço a mínima ideia de quanto seria necessário falar para que fosse prestada a devida atenção.

"Viveiros do futebol feminino
estão nas províncias do Leste"


O futuro do futebol feminino está longe da cidade de Luanda. Augusto Manuel aponta as cidades de Luena e do Dundo, no leste do país, como garantia segura dos próximos tempos. Para que o vaticínio se cumpra, as entidades de direito devem pensar nos programas de sustentação das equipas existentes.
O futebol deve merecer um tratamento especial, como defendem alguns dirigentes?
Sendo o futebol a modalidade que ostenta a coroa de rainha, deve-se traçar uma política diferente da actual, para contrariar a presente realidade no nosso país. Reconhecemos que o basquetebol e o andebol trazem louros, merecendo maior atenção, o que é contraditório. O futebol já provou que qualquer vitória de Angola provoca o delírio em todo o país.

Qual é a garantia do futuro da equipa nacional feminina?
Isso nem se fala e respondo com bastante tristeza. Como é que podemos pensar num futuro seguro da selecção de honras, quando não temos selecções de Sub-17 e de Sub-20? Pergunto-me, qual é a política traçada pelo Estado para a evolução do futebol feminino no país? Por irónico que pareça, essa tarefa não é da Federação Angolana de Futebol (FAF). Se quisermos continuar a sonhar com um futuro forte da Selecção Nacional de futebol feminino, é necessário que o Estado crie políticas direccionadas à formação de selecções dos escalões de inferiores. Só assim, teremos o futuro assegurado. De momento, o nosso combinado nacional não tem sustentáculo.

Que comentário se lhe oferece fazer sobre a selecção que disputou o torneio da Cosafa, em Malanje?
Aquela selecção de honras teve o seu tempo. Vamos continuar a sacrificar e a exigir que tenha a mesma performance. Será que a idade das atletas não conta? Ou será que o treinador tem de fazer milagres?

E o que se está a fazer  para colmatar o vazio que essas atletas deixam?
Temos vindo a pesquisar talentos nas províncias do interior. Estive, recentemente na Lunda-Norte e o meu adjunto, no Lubango, província da Huíla. A nossa missão foi descobrir talentos que podem representar as selecções de Sub-17 e de Sub-20.

Qual foi o resultado?
Constatámos que existem talentos, mas não existem políticas. Não é concebível, por exemplo, que o Campeonato Provincial de Luanda esteja na sua fase final e o da Lunda-Norte nem sequer começou. Para fazer o meu trabalho de observação naquela província, contei com o apoio do Ti Loló, que reuniu duas equipas e defrontaram-se. As meninas tiveram de se empenhar a fundo como se de um jogo oficial se tratasse. O meu adjunto também se queixou de algumas anomalias. Então, é lícito dizer que isto é problema da FAF? Não é só da Federação. É um problema da Nação. Daí que é preciso reflectirmos. Tenho uma segunda viagem agendada para o Moxico com o mesmo objectivo e, por incrível que pareça, tento contactar uma entidade representativa e idónea ligada à Associação Provincial de Futebol daquela região, mas não consegue dar-me a resposta: se devo ou não ir lá pesquisar as jogadoras.
 
O Moxico tem talentos femininos?
Foi-me dito que há uma senhora que responde pelo futebol feminino. Aliás, essa mesma província esteve representada por duas equipas no Campeonato Nacional. Por que motivos o Campeonato Provincial não arranca? Por que razão, a Associação local não toma a peito essa situação? As pessoas pensam que só deve prevalecer o futebol masculino em detrimento do feminino. Uma outra pergunta se impõe: as mulheres não têm valores?

Qual das províncias angolanas sustenta as selecções de formação?
Assumo que os viveiros do futebol feminino no país para as categorias de Sub-17 e de Sub-20 estão nas províncias do Leste, concretamente no Moxico e na Lunda-Norte.

O que está na base da sua afirmação?
Nota-se uma certa entrega por parte dos agentes desportivos do Moxico e da Lunda-Norte. Os clubes estão seriamente apostados na inserção da juventude feminina na prática do futebol. Apraz-me dizer que a equipa do Bravos FC do Maquis poderá constituir o esqueleto-base da futura selecção de sub-20, ao passo que do Inter do Moxico poderão sair quatro a seis jogadoras para integrar as Sub-17. Sustento a minha posição em função daquilo que vi durante o Campeonato Nacional. Infelizmente, essas meninas não estão a competir. A província de Moxico tem duas equipas paradas, porque os dirigentes não têm soluções para as pôr em movimento. Eles podem encontrar uma política de forma a fazer com que as equipas joguem regularmente, pelo menos, aos fins-de-semana. Nem que façam à melhor de dois jogos, para se encontrar um campeão e um vice-campeão locais. O objectivo é dar-lhes competitividade para que participem no Campeonato Nacional.

A falta de visão dos dirigentes contribui para a péssima qualidade apresentada nos campeonatos nacionais?
O próximo Campeonato Nacional será em Cabinda, mas os filiados provinciais aguardam a comunicação da FAF para começarem a preparação. Quando se virem apertados, vão pegar nas “equipas” de bairro, juntarem as atletas e escolher as melhores para que representem a província no evento nacional. Isso é uma pura aldrabice do futebol feminino.

As associações provinciais trabalham para a dignificação do futebol feminino?
Sem querer ferir sensibilidades, à excepção de Luanda, Huíla e Cabinda, nas restantes províncias, as mulheres são colocadas à margem daquilo que deveria ser responsabilidade dessas instituições. Não existem competições, não há nada à volta disso.

 O que está a ser feito para que esta vertente do futebol ganhe vitalidade?
A nível do departamento das selecções, trabalho com o professor Romeu Filemon, uma pessoa bastante sensível. Ele é o meu coordenador, elaboramos programas, mas não têm tido o merecido respaldo. A questão financeira é apontada como o entrave e isso já não depende do treinador.