Jornal dos Desportos

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Reportagens

O futuro dos estádios

Júlio Gaiano, em Benguela - 01 de Novembro, 2010

Críticas e sugestões foram anotadas em matéria de gestão de infra-estruturas desportivas

Fotografia: Jornal dos Desportos

O debate caloroso polarizou as atenções durante duas horas e meia. Críticas e sugestões foram anotadas de forma minuciosas pelos especialistas, em matéria de gestão de infra-estruturas desportivas. O antigo capitão da Selecção Nacional de futebol sénior masculina, Pedro Garcia, actual director provincial da Juventude e Desportos, representou o governo local no conclave.

Valeu a intervenção dos benguelenses que, a dado momento, deixaram um forte alerta ao Ministério da Juventude e Desportos pelo mal que poderá acarretar em caso de o Ministério da Juventude e Desportos avançar com a pretensão de subcontratar uma empresa privada para gerir as infra-estruturas construídas com o dinheiro do erário.

“Caso avancem com a privatização das mesmas, estarão a matar o desporto. Em momento algum beneficiaria o programa de massificação desportiva, tal como foram projectados os referidos empreendimentos desportivos (…)”, avisaram os intervenientes no encontro que mobilizou duas centenas de pessoas ligadas à actividade desportiva em terras de o’mbaka.

Face às preocupações focadas, Paulo Ferreira, director do Gabinete do Plano e Estatística do Ministério da Juventude e Desportos, tratou de aclarar as dúvidas, colocando a limpo as reais intenções do ministério. O responsável disse que, em momento algum, o Executivo tencionou privatizar as infra-estruturas desportivas erguidas, aquando dos eventos internacionais realizadas no país.

“Os estádios de futebol e os pavilhões gimnodesportivos vão continuar sob a tutela do Ministério e da população alvo (…)”, completou.
Uma equipa do Ministério da juventude e Desportos esteve, recentemente, em Benguela, liderada por Ricardo Raimundo, Director Nacional dos Desportos que, para além da reflexão sobre a gestão das infra-estruturas desportivas construídas pelo Executivo Central, fez pequena abordagem sobre a análise do Projecto-lei Base do Desporto, a ser aprovado nos próximos tempo na Assembleia Nacional.

Projectos nas 
Cercanias


O director do Gabinete do Plano e Estatística do Ministério da Juventude e Desportos (Minjud), Paulo Ferreira, anunciou para breve a construção de empreendimentos nos arredores dos estádios de futebol e dos pavilhões gimnodesportivos para servir de atracção turísticas aos cidadãos nacionais e estrangeiros que tencionarem visitá-los.

De acordo com o dirigente do Minjud as obras vão estar a cargo de uma empresa pública que o Ministério da Juventude e Desportos pretende criar nos próximos tempos de forma que as infra-estruturas desportivas, ora construídas, possam auto-sustentar-se, reduzindo assim a sua dependência financeira do Ministério de tutela.

“A empresa a ser criada para a gestão directa dos estádios e dos pavilhões, para além de se responsabilizar na criação de condições dos recursos humanos, vai abrir, ao redor dos mesmos, alguns restaurantes e lojas para a venda de diversos produtos, mormente, ligados à vertente desportiva”, precisou.

Paulo Ferreira congratulou-se com as iniciativas empreendidas pelas autoridades de Benguela, na gestão do Estádio Nacional de O’mbaka e dos pavilhões Acácias Rubras e Matrindindi. Na ausência de uma linha definida para a gestão dos referidos empreendimentos por parte das estruturas centrais, localmente, as autoridades adoptaram um sistema que mais se adequa com a realidade da província, isto é recorrendo aos quadros técnicos da Direcção provincial da Juventude e Desportos.

Gestão das infra-estruturas
avaliada em 40 mil dólares


A gestão dos três empreendimentos desportivos erguidos, nos últimos três anos, na cidade de Benguela, designadamente, o Estádio Nacional de O’mbaka, os pavilhões multiusos Acácias Rubras e Matrindindi estão avaliados em cerca de quarenta mil dólares norte-americanos mensais para o compromisso salarial dos 103 funcionários afectos aos três empreendimentos.

Grande parte dos referidos montantes é arrecadada em serviços de aluguer dos espaços às distintas entidades da sociedade benguelense. Do executivo provincial executivo local chegam alguns valores que servem para manter intactas as respectivas infra-estruturas.

É uma situação que se exige das instâncias afins um esforço financeiro suplementar, de forma a honrar os compromissos contratuais com os funcionários, para além de manter conservados e preservados os pavilhões gimnodesportivos das Acácias Rubras e do Matrindindi, bem como o imponente Estádio Nacional de O’mbaka.

O professor universitário Eulálio Napoleão dos Santos ‘Laly’ instou aos especialistas do Ministério da Juventude e Desportos a intervir no processo o mais depressa quanto possível de forma a evitar que o pior aconteça, como por exemplo, a degradação por falta de manutenção. À medida que o tempo passa, o dinheiro escasseia e os homens abdicam-se dos respectivos postos.

“Precisamos de tratar o assunto com maior frieza, no sentido de se encontrar os valores necessários para manter funcional os empreendimentos. Na verdade, estamos em presença de uma grande quantia, somente para os salários dos trabalhadores”, disse.O professor justificou-se: “Muitos são chefes de famílias e precisam de ver recompensado o esforço que exercem na conservação das infra-estruturas”.

A quantidade de trabalhadores pesa na balança salarial. Eulálio Napoleão tem a sugestão: “Pelos números apresentados, há que se encontrar uma saída como, por exemplo, reduzir para metade a cifra de funcionários que existem nos três empreendimentos desportivos, caso o Ministério de tutela se sinta incapaz de fazer face aos valores apresentados”, sugeriu o ex-presidente da Associação Provincial do Futebol de Salão de Benguela (APFSB).

Sobre a privatização dos dois pavilhões, o professor Laly dos Santos aconselhou os responsáveis do Minjud a ponderarem a decisão, pois a acontecer em nada beneficiaria o promoção do desporto na província, porque a utilização dos mesmos, nos actuais moldes (onde os clubes pagam módicas quantias), já tem sido uma dor de cabeça.

“Os clubes estão despidos de quantias financeiras para fazer face às exigências que se requer na gestão desportiva”, disse. Ainda assim, reconhece que por falta de financiamento, os referidos pavilhões estão a degradar-se de forma acentuada a cada dia que passa, pelo que a intervenção do Minjud é premente para estancar o processo em curso e salvá-los, pois custaram somas avultadas em dinheiro tirado do cofre Estado angolano.“Precisamos de tratar o assunto com maior frieza, no sentido de se encontrar os valores necessários para manter funcional os empreendimentos”

Apreensão acossa actores 

As declarações de Eulálio dos Santos (Laly) foram corroboradas pelos agentes desportivos que as consideraram oportunas. Tudo porque em causa está o futuro do desporto na província, caso se efective a privatização dos dois pavilhões gimnodesportivos, nomeadamente, Acácias Rubras e Matrindindi.

O primeiro acolheu o Campeonato Africano de Basquetebol Sénior Masculino (Afrobasket’2007), enquanto o segundo serviu de alternativa para os “Africanos’2008”  de Andebol Sénior Masculino e Feminino. Nas duas provas, Amgola participou integrou a série disputada na cidade de Benguela. Foi uma experiência que está marcada na história dos benguelenses, amantes do desporto.

De entre outras, sobressaem as intervenções de Júlio Paiva, vice-presidente da Associação de Basquetebol de Benguela, e de Leão Ngoma, presidente do GD 17 de Maio de Benguela. Ambos direigentes, para além de partilharem o pensamento do professor Eulálio dos Santos, foram peremptórios ao afirmarem que “uma gestão privada dos referidos pavilhões e, eventualmente, do Estádio Nacional de O’mbaka poderá significar a ‘morte-certa’ do desporto em Benguela”.

Para Júlio Johnston Paiva ‘Julinho’, a actual gestão dos pavilhões são ineficazes, pois não gerem receitas para o seu auto-sustento. Os clubes alegam a falta de dinheiro para custear as despesas, o que constitui grandes embaraços para os manter intactos do ponto de vista praticável.

“Agora, caberá ao Ministério da Juventude e Desportos estudar as formas para se encontrar uma saída, porque a manutenção do património, que pode gerar muitos desportistas, se tornou uma preocupação da comunidade. Sem dinheiro, não podemos fazer nada”, enfatizou. 

Júlio Paiva, que também responde pela gestão do pavilhão gimnodesportivo Acácias Rubras, revelou que, por falta de verbas, a sua instituição mandou para casa 11 funcionários e quatro estão em actividade. É um número insuficiente para o volume de trabalhos de manutenção do imóvel.

O presidente do Grupo Desportivo 17 de Maio de Benguela, Leão Ngoma, disse que, ao invés de o Ministério da Juventude e Desportos pretender entregar a gestão dos pavilhões e do Estádio Nacional de O’mbaka a uma empresa privada, deveria criar as condições apropriadas como subcontratar uma empresa idónea para o efeito, por que o contrário estaríamos “a matar o desporto na província que, a cada ano que passa, está a dar amostras de estar a definhar-se por falta de dinheiro”.

Pedro Garcia tranquila
agentes desportivos


O Director provincial da Juventude e Desportos de Benguela, Pedro Garcia, manifestou-se tranquilo e optimista quanto à intenção da instituição do Minjud que passa pela criação de uma empresa pública para gerir os estádios e os pavilhões construídos pelo Estado por ocasião dos campeonatos continentais que o país organizou, em 2007, (Afrobasket), em 2008, o CAN de Andebol, e, em 2010, o CAN de Futebol.

Para o antigo capitão da Selecção Nacional de Futebol Sénior Masculino, numa situação como esta, todas as opiniões e críticas são bem-vindas se forem do interesse do desporto nacional; ao contrário estaríamos a promover controvérsia e nada mais. “Tenho as minhas propostas na manga, mas não as coloco aqui; fá-lo-ei em foro próprio. Por enquanto, estamos a ouvir e a registar o ponto de vista dos demais agentes desportivos presentes”, disse o Pedro Garcia

“O que se pretende é que os mesmos sejam auto-sustentáveis, o que vai suceder com a criação de uma empresa pública para a sua gestão”, tranquilizou. Os dois pavilhões gimnodesportivos e um estádio de futebol, para além de outras infra-estruturas desportivas recuperadas, vieram dar outra dignidade em matéria infraestrutural desportiva na província.