Jornal dos Desportos

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Reportagens

O guarda de honra do 1º de Agosto

Augusto Fernandes - 29 de Outubro, 2017

Antigo jogador de basquetebol foi três vezes campeão nacional

Fotografia: Augusto Fernandes | Edições novembro

Fui um dos homens escolhidos para fazer a guarnição do local, onde estavam a preparar os restos mortais de Agostinho Neto, em Moscovo, na Rússia, para ser transladado para Luanda”. A revelação é de Sidraque Correia José Gunza, ex-basquetebolista do 1º de Agosto e da selecção nacional.

Conhecido por Sidrack, o antigo poste tomou conhecimento da morte do primeiro Presidente da República de Angola, quando estava em digressão com o 1º de Agosto na ex-União Soviética a convite da SKDA, em 1979. O momento não foi fácil nem a escolha para a guarda de honra. Os seus dois metros de altura contribuiu para a indicação. Era o jogador mais alto de Angola naquela época.

Tudo começou quando foram informados pelo representante de Angola na Rússia de que o Presidente Agostinho Neto estava internado “muito doente” numa das unidades hospitalares de Moscovo. O grupo decide visitá-lo numa data acordada. Quatro dias depois, recebem a notícia triste: morreu Agostinho Neto. A consternação ensombrou todas as esperanças.

"Foi um choque terrível para o grupo. Ninguém acreditou. O país estava independente a caminho de quatro anos e Neto representava o título de 'Pai da Nação'. O que seria de Angola? Era a grande questão que gravitava a mente da maior parte dos angolanos", recorda com tristeza Sidrack.

O momento triste colocou o poste do 1º de Agosto mais próximo do corpo de Agostinho Neto. A formação militar facilitou o cumprimento da missão.
"Foi sem dúvidas um momento especial para mim por ter sido escolhido para fazer parte daquela unidade de guarda de honra. Carrego comigo lembranças de um homem que foi o meu Comandante em Chefe”, disse.

A presença em Moscovo foi uma das muitas que fez. Sidrack lembra com orgulho a primeira viagem da sua vida para fora de Angola. Em 1978, foi escolhido para integrar a equipa militar que  viajou a Bulgária. A preferência do treinador deixou-lhe surpreso.
“Para mim, um indivíduo do gueto que nunca pensou tratar passaporte e com um jogo feito com a equipa, a escolha foi extremamente motivadora”, lembra com humor. Depois, as deslocações para os países do bloco socialista “tornaram-se como água”. Viajou para a Roménia, Jugoslávia e diferentes países e territórios da ex-União Soviética.

Sidrack lembra que, após a primeira viagem" ganhou mais inspiração e começou a impor-se entre os "reis" de basquetebol nacional como António Guimarães, o seu grande carrasco. Do seu baú saiu uma lembrança.

"António Guimarães era do Ferroviário de Luanda. Era um grande jogador e tinha muita experiência. Zombava de mim por ter sido um 'paraquedista' no basquetebol. Felizmente, quando acertei o compasso, o homem começou a ver fumo", disse com sorriso.
 Sidrack ganhou o seu primeiro título de campeão nacional de basquetebol em 1981, ao lado de Gustavo da Conceição, Warese, Carlos Cunha, Boneco e outros. Competiram contra Ferroviário de Luanda, Dínamos de Luanda, Leões de Luanda, representantes de Benguela, Huambo e Huíla.

A consagração deu notoriedade a Sidrack. Começou a constar das peças fundamentais do 1º de Agosto. Nas duas épocas subsequentes, conquistou mais dois campeonatos nacionais. Mesmo assim, sentia que precisava melhorar a qualidade.
"Tecnicamente precisava melhorar muito, por isso usava a força. Os meus adversários tinham de ter muito cuidado senão acabavam mutilados", disse com largo sorriso.

Em 1984, transferiu-se para o Desportivo da Huíla. Encontrou no grupo José Fucato, um dos melhores basquetebolistas que Angola viu a desfilar. A equipa huilana era uma das melhores e “batia-se de peito aberto” com as demais equipas do país, lembra.
No ano seguinte, Sidrack transferiu-se para Leões de Luanda, onde terminou a carreira desportiva. Hoje, aos 64 anos de idade, é um dos maiores alicerces do basquetebol angolano. Tem a residência fixa no Distrito do Zango.

Com o olhar para o retrovisor, Sidrack defende que “Angola vai ter de trabalhar muito para voltar a ganhar um título africano”. A apreciação responde a fraqueza da selecção nacional no último Afrobasket disputado em Dakar e Tunis.

SELECÇÃO NACIONAL
Dominador de jogo aéreo


Sidraque Correia José Gunza trás revelações da sua história como cidadão, desportista e militar. Nascido em Gunza, província de Malanje, viu-se confrontado com várias situações que o levaram parar no Morro da Maianga, actual Prenda, em Luanda.
Kifofo, como também é conhecido, era muito forte no jogo aéreo. Dificilmente era batido e muito duro a defender. O seu estilo agressivo levava os adversários a lesionar-se no choque. Era carismático. Da compleição física, o destaque recai para uma deformação no joelho direito que facilitava o reconhecimento na quadra.

Depois de conquistar o primeiro campeonato nacional de basquetebol com o 1º de Agosto, em 1981, no mesmo ano, integrou pela primeira vez a selecção nacional com Zezé Assis, Carlos Cunha, Artur Barros, António Guimarães, José Carlos Guimarães, Boneco, Gustavo da Conceição e outros. Pela elevada qualidade dos atletas, o menino do Morro da Maianga reconhece com humildade que "não tinha nível competitivo para estar naquela selecção".

"Fui convocado pela minha altura e só fiz um jogo. Angola ficou em terceiro lugar", lembra.
Dois anos depois, em 1983, foi vice-campeão em Alexandria com a selecção nacional. A presença de Juca (Jean Jacques da Conceição), Adriano e outros da nova geração foi imprescindível, segundo Sidrack. Naquela época, grandes nomes como Lavrodrama, Patrick Olajean, Mark Kraw e outros mexiam com o mundo de basquetebol.

Do baú de lembranças, Sidrack trás uma vivência desportiva no Senegal. Diz que, num determinado momento do jogo com os anfitriões, "arrumou" um jogador carismático local. O público reagiu com arremessos de garrafas para o recinto de jogo.
"Queriam agarrar-me a todo o custo para me darem uma lição (porrada). Mesmo depois do jogo, o público foi ao hotel, onde estávamos hospedados, e fez muita confusão", recorda.

TRANSFORMAÇÃO
De futebolista para basquetebolista


Sidrack nasceu para futebol. Era a sua paixão. A baliza era a posição de eleição. Aos 17 anos de idade, representou o Clube Brincalhões da Samba. Tinha como colegas o Diricu, Vieira, Oliveira Cabeça, Agostinho Leão e outros. Posteriormente, integrou o Ambaca Futebol Clube. No novo clube, jogou com Barros (que viria a ser jogador do 1º de Agosto), Garrincha (o famoso Man Garras), Pataca, Lázaro e outros. Partilhou também a bola com Carlos Alves, Caçador e actual General Ndalu. A festa da pelada decorreu de 1970 a 1974.

Fruto das convulsões políticas no país, Sidrack integrou voluntariamente nas FAPLA (Forças Armadas de Libertação de Angola) e parou no Centro de Instrução Revolucionário (CIR) de Cazage, no Moxico, ao lado dos músicos David Zé e Urbano de Castro. Depois do processo de formação militar, integrou a selecção militar, coordenada pelo Comandante Ndalu. Depois da libertação da vila de Soyo (província do Zaire), participou de alguns trumunus com a juventude local. Ocasionalmente, participaram de torneios organizados pelas FAPLA em diferentes províncias.

Transferido para uma zona militar com difícil acesso às populações civis, em 1976, Sidrack contenta-se com a sua função: disparador principal de uma das baterias anti-aéreas. A missão prolonga-se até 1978. Quando gozava de uma licença disciplinar (dispensa), deparou-se com José Romero (irmão mais velho do malogrado Valdemiro Romero), então treinador do 1º de Agosto, em Luanda.

"Mal me viu, parou imediatamente o carro e disse-me: 'estou a tua procura rapaz. Sobe já no carro'. Assim, fui parar ao Rio Seco, onde encontrei Barbosinha, Hipólito, Dr. Gika. Depois vieram Gustavo da Conceição, Carlos Cunha e outros. Não entendia nada de basquetebol. Era um autêntico chumbo, mas tinha a altura, o que treinador queria", disse.

Inicialmente, diz ter sido usado como "apanha bolas" e apoiava o roupeiro muitas vezes por ter sido "muito nabo". "Faziam aquilo para gozar comigo", recorda.

"Com o passar do tempo, aprendi o abc do basquetebol e era utilizado com alguma frequência. Aos poucos, o sangue da bola ao cesto começou a fluir em mim", recorda.

CURIOSIDADE
O mundo oculto da bola


O antigo poste do 1º de Agosto e da selecção nacional acredita no mundo oculto. Diz carregar consigo várias experiências enquanto futebolista e basquetebolista de alta competição. Sidrack revela que, certa ocasião, quando representava o Ambaca Futebol Clube, a equipa perdia por uma boa a zero contra o ASA, liderado por Sabino, Maló e Tozé. Os aviadores tinham de ganhar o jogo.
"O velho Bernardo, do nosso bairro, disse-nos: 'vamos chamar uma chuva forte para cancelar o jogo'. Assim aconteceu. A partida foi interrompida e remarcada para outro dia. Na repetição, ganhámos ao ASA", recorda.

Sidrack assegura que "também existe a chamada magia negra" no desporto de alta competição: "Muitos clubes e selecções nacionais recorrem a bruxos e kimbandeiros para vencerem os jogos. Isso acontece até nos países da Europa, América do Sul e do Norte".

O porteiro de Discoteca

Depois de parar de jogar, as dificuldades económicas e financeiras apoderaram-se de Sidrack. O basquetebol não lhe deu posses para garantir a vida extra-campo. Diante de complicações, trabalhou como segurança na Discoteca Xavaroti, um local frequentado por pessoas de classe alta. O porte físico foi preponderante.

"Qualquer cliente que quisesse arranjar problemas, convidava-o a sair com gentileza. Na maioria das vezes, cooperavam e ainda me davam gorjetas. Certo dia, recebi duzentos dólares", relembra.

A saúde de Sidrack estava em lástima. Sem apoios e meios, o futuro era quimera. Não constava do plano de vida. Um certo dia, recebe uma "notificação".

"Nunca me esquecerei da ajuda que Carlos Cunha me deu ao enviar-me a Portugal a fim de fazer cirurgia ao joelho. Hoje estou de pé e consigo andar graças a Carlos Cunha (ex-director da TPA). Mais uma vez, quero agradecê-lo de todo o coração", disse.

Os agradecimentos estendem-se a outras personalidades. "Também agradeço os camaradas Dino Matrosse e Bento Cangamba por me terem ajudado a entrar na Caixa Social da Forças Armadas Angolanas. Hoje, consigo receber meus salários para sobreviver. Agradeço o camarada Paixão Júnior por me ter oferecido uma viatura, com a qual hoje consigo deslocar-me de um lugar para outro", disse.
Quanto ao 1º de Agosto, Sidrack lamenta pela atitude: "O meu clube do coração só me convida para encher a barriga, quando há festas. Sinto desiludido com esta atitude".

PERFIL
Nome: Sidraque Correia José Gunza
Filiação: José Gunza e de Suzana Miguel Gomes
Naturalidade: Gunza, província de Malanje
Estado civil: Viúvo
Posição: Poste
Altura: Dois metros
Calçado nº: 48
Data de nascimento: 18 de Dezembro de 1953
Hobby: Ver Televisão, ler e conviver com amigos
Música: Angolanas dos anos 60
Prato preferido: Tudo que for bom
Bebida: Vinho
O que mais teme: Cometer erros crassos
Acredita em Deus? Sim
Porquê? Ele é o criador de tudo o que existe.
Tem casa própria? Não
Carro: Sim
Acredita em forças ocultas? Sim e respeito muito
Pais que gostaria de conhecer: Estados Unidos da América
Clube: 1º de Agosto
Cidade angolana: Luanda
Sonho: Ter uma casa boa e fazer do meu filho um grande homem

DESCOBRIMENTO

O “olheiro” de Tony Sofrimento


Depois de ter sido descoberto para o basquetebol, Sidrack também ganhou o “bicho de olheiro”. Em 1978, por altura da visita do presidente Mobutu Sese Seko a Angola, “descobriu” Tony Sofrimento, quando o cortejo presidencial passava a Marginal de Luanda.
"Vi um rapaz franzino e alto. A altura despertou o meu interesse. Convidei o rapaz a visitar o 1º de Agosto. Assim também se 'descobriu' Jean Jacques da Conceição e outros bons jogadores por olheiros como eu nas diferentes ruas", disse.

Pelo resultado, Victorino Cunha, então treinador da equipa, deu-lhe a missão de "cuidar" dos mais novos como o Juca, Adriano e outros. Sidrack confessa: "A convivência com Gustavo da Conceição, Carlos Cunha, Zezé Assis e outros ajudaram-me na formação da minha personalidade. O 1º de Agosto foi uma escola de virtudes e agradeço a Deus por me ter colocado naquele caminho".

Sidrack não esquece de uma acção protagonizada por Cobra (José Carlos Guimarães) num determinado momento de convivência. "Deu-me um pontapé nas nádegas e até hoje sinto dores. Ainda vai a tempo de pagar uma consulta", disse com sorriso.
O cognome Cobra resulta da facilidade com que José Carlos Guimarães conseguia passar pelos adversários; fazia como se estivesse a escorregar, explicou Kifofo.