Jornal dos Desportos

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Reportagens

O imperador no mundo do atletismo

08 de Agosto, 2011

Eleito membro da comissão de atletas da International Association of Athletics Federations (IAAF) em 2003

Fotografia: Reuters

Haile Gebrselassie é um corredor etíope de longa distância, considerado um dos maiores fundistas da história, ao lado do finlandês Paavo Nurmi e do checo Emil Zatopek. Ele é bicampeão olímpico e tetracampeão mundial dos 10.000 metros e estabeleceu 27 recordes mundiais em distâncias que vão dos 3.000 metros à maratona, sendo o actual recordista desta, feito conseguido pela segunda vez consecutiva na Maratona de Berlim, em Setembro de 2008. Digno sucessor do também etíope, recordista mundial, campeão olímpico e lendário maratonista Abebe Bikila, Haile tem o cognome de "Imperador" no mundo do atletismo, em alusão ao imperador etíope Haile Selassie e ao seu domínio das provas de fundo nos últimos quinze anos.

Início
Gebrselassie nasceu numa família de dez filhos na pequena Asella, na província de Arsi, nos altiplanos da Etiópia. Criança pobre criada no campo, numa fazenda de plantação de arroz sem electricidade nem água corrente. Ele gostava de correr dez quilómetros entre a sua casa e a escola todas as manhãs, fazendo o mesmo trajecto de volta no período da tarde.

Isto o fez ter uma postura característica como corredor, com o braço direito dobrado num ângulo como se estivesse a carregar ali os livros escolares. Na sua primeira corrida, aos 16 anos, numa prova de 1500 metros contra corredores mais velhos, ele venceu e recebeu como prémio um calção e uma camisola. Começou a ser notado internacionalmente em 1992, quando ganhou os 5.000 metros e os 10.000 metros no Campeonato Mundial de Atletismo Júnior, em Seul e uma medalha de prata na categoria juvenil no Campeonato Mundial de Cross-Countrry.

No ano seguinte, ele venceu, em Estugarda, na Alemanha, o primeiro de uma série de quatro títulos consecutivos nos 10.000 m do Campeonato Mundial de Atletismo. Em 1994, pela primeira vez quebrou o recorde mundial dos 5.000 m, marcando 12m56s. Em 1995, baixou a sua melhor marca dos 5.000 m em mais de dez segundos (12m44s) em Zurique, no que foi considerado pela revista “Track & Field News” ‘A Corrida do Ano’ e no fim do mesmo ano quebrou pela primeira vez o recorde mundial dos 10.000 m (26m43s).

O Imperador
Haile tornou-se famoso na media global e entre o público em geral em 1996, quando conquistou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atlanta, estabelecendo nova marca olímpica (27m07s) para a prova. A pista dura do estádio olímpico, construída num material adequado especialmente para os corredores de velocidade, machucou os seus pés e ele não pôde concretizar seu sonho de competir e vencer também nos 5.000 m, como o seu ídolo da juventude, Miruts Yifter, fez nos Jogos Olímpicos de Moscovo, 16 anos antes.

Em 1997, mais uma medalha de ouro nos 10.000 m do Mundial de Atenas, sua terceira consecutiva nesta prova em mundiais, e novo recorde mundial dos 5.000 m em Zurique (12m41s). Os anos de 1998 e 1999 viram Haile estabelecer cada vez mais a sua supremacia nas provas de fundo em pista, quando venceu a Golden League e quebrou mais quatro recordes mundiais em pista coberta e aberta, sendo o principal deles os 10.000 m, que a sua némesis no desporto, o queniano Paul Tergat, havia retirado dele no ano anterior.

Gebrselassie e Tergat tiveram árduas disputas nos 10.000 m, um contra o outro e em corridas separadas, mas a mais famosa delas veio no ano seguinte, em Sydney. No ano 2000, ele mais uma vez liderou o ranking de fundistas, vencendo todas as provas nas quais participou, nos 5.000 e 10.000 m rasos. A mais sensacional delas, e que o transformou no terceiro atleta na história em vencer esta prova em duas Olimpíadas, depois de Emil Zatopek e Lasse Viren, foi a final dos 10.000 m nos Jogos Olímpicos de Sydney, contra Tergat, seu grande adversário e demais quenianos, na mais apertada chegada de uma final olímpica nesta distância.

Três quenianos e dois etíopes, entre eles Gebrselassie, e Tergat, dispararam dos demais corredores no terço final da prova, revezando-se na liderança e vigiando-se mutuamente até à última volta. Nos últimos 400 m, os dois abriram espaço dos demais e o queniano deu uma arrancada fulminante na recta de chegada, parecendo que ia vencer a prova. Haile, entretanto, encontrou restos de força e, praticamente remando no ar, conseguiu ultrapassar Tergat por uma cabeça em cima da linha de chegada, numa diferença entre eles de 0,09s, quase a mesma da final dos 100 m rasos. Ele considera esta a maior vitória da sua carreira.

Eleito membro da comissão de atletas da International Association of Athletics Federations (IAAF) em 2003, neste ano ele conquistou a medalha de prata nos 10.000m no Campeonato Mundial de Atletismo de Paris, perdendo para aquele que se tornou seu sucessor nas provas de fundo, seu compatriota e protegido, Kenenisa Bekele, que a partir dali começava o seu reinado. A admiração e respeito dos atletas etíopes por Haile, que é um herói nacional da Etiópia, ficaram marcados para todo mundo na tocante final dos 10.000 m nos Jogos de Atenas, em 2004, a última olimpíada disputada por ele.

Maratona
Após abandonar as pistas em 2004, ele passou a dedicar a sua carreira a provas mais longas de rua e à maratona. Imbatível no circuito de provas de rua em 2005, Haile começou o ano de 2006 quebrando o recorde mundial da meia-maratona em Janeiro, com a marca de 58m56s. Em Setembro, entretanto, ele venceu a maratona de Berlim, com a marca de 2h05m56s, a melhor do mundo no ano e que fez dele o quinto homem a correr a distância em menos de 2h06, vencendo também em Dezembro a maratona de Fukuoka, no Japão.

Vida pessoal
Casado e com três filhos, o homem que venceu 108 corridas em 56 cidades diferentes permanece comprometido com o seu povo, a maioria do qual vive na extrema pobreza. Seus negócios na Etiópia natal empregam 400 pessoas e incluem dois hotéis, uma academia de ginástica, um cinema e uma revendedora de automóveis. Ele também abriu e sustenta duas escolas, frequentadas por 1200 crianças, que estudam com computadores e equipamento de laboratório de pesquisas. Mais de 80 por cento destas crianças recebem instrução de alto nível, contra os dez por cento normais da sociedade etíope como um todo.