Jornal dos Desportos

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Reportagens

O luxo do andebol

Manuel Neto - 31 de Março, 2010

Marcelina, Lusa e Natlia so trs irms da famlia Kiala

Fotografia: Jos Cola, M.Machangongo e Jos Soares

A vontade da família Kiala fazer história no andebol foi despertada muito cedo, na pele de Marcelina Kiala, mas para a “infelicidade” da antiga meia-distância do Petro de Luanda, a grande vontade de vencer era impedida pelo malogrado pai, que receava a troca dos estudos pelo desporto, o que achava impróprio para o futuro da filha.

Apesar do duelo tenaz que travava com o pai, Marcelina não desistiu do sonho de ser uma das melhores andebolistas do país. Num dia, quando vinha da escola, tentou a sorte na equipa de iniciados da Rádio Nacional de Angola, treinada pelos técnicos Josué e Tubiak. Na primeira tentativa, foi rejeitada sob o pretexto de que as meninas do bairro Cassenda (em que residia) desistiam precocemente da prática desportiva naquele clube.

Dias depois, apareceu na posição de apanha-bolas e volvidos alguns dias, mereceu uma oportunidade de entrar na quadra. Marcelina não vacilou e a destreza com que tratava a bola encheu de orgulho os técnicos, logo, pegou um lugar de estaca na equipa. Com a extinção do grupo, transferiu-se para a Têxtil de Luanda, no qual começou o sucesso. Alguns anos depois, as qualidades técnicas evidenciadas chemaram a atenção de vários clubes, mas foi a equipa do Petro de Luanda que teve a felicidade de contar com os seus préstimos.

"O meu início de carreira não foi fácil, uma vez que tive de fazer um grande esforço para conciliar os estudos com o desporto para satisfazer a vontade do meu falecido pai, que não via o desporto com bons olhos", revelou com nostalgia. A quarta melhor marcadora do Campeonato do Mundo de 2007, em França, revelou: “Para treinar, tinha de combinar com a minha mãe para que mentisse ao pai sobre a minha ausência de casa. Graças a Deus, consegui realizar o sonho que perseguia", disse, com um sorriso. Mas uma sombra cobriu-lhe o rosto a seguir:

"É com muita pena que o meu pai tenha morrido sem ver o meu sucesso". As qualidades de Marcelina não despertaram apenas no Petro de Luanda, mas também nas equipas estrangeiras, como o Dijon de França, no qual a atleta ficou durante dois anos. A solidão que sentia da família fez com que rescindisse amigavelmente o contrato com a equipa francesa. De regresso à pátria, reintegrou-se no Petro de Luanda, no ano 2000, no qual pôs fim a brilhante carreira desportiva.

Por falta de tempo para conciliar o desporto com os estudos, a família (mãe de uma filha) e o emprego (funcionária Bancária), oferecido pelo Petro de Luanda, Marcelina optou por deixar as quadras."Em termos de competição, ganhei tudo o que tinha pela frente no Petro de Luanda e rumei para França, onde me sagrei melhor jogadora e marcadora do campeonato nacional durante os dois anos”, disse garbosamente.

Entre o elogio e a saudade, Marcelina tinha Angola sempre presente. "Tinha residência, viatura e um salário equiparado ao do Petro de Luanda. Apesar de ter ganho muita experiência, a solidão era o fantasma que mais me amedrontava". Era um `bicho´ que atemorizava e "já não encontrei razões para continuar em França".

Passagem de testemunho

Quando Marcelina Kiala treinava na Rádio Nacional de Angola, fazia-se acompanhar da irmã Luísa. Algum tempo depois, a pequena não se conteve com a exibição da mais velha. Durante os treinos, a menina vibrava de alegria, saltava e gritava. Comovida, tentou a sorte na mesma porta em que entrou a mais velha. E por ironia do destino, chegou, viu e venceu, para gáudio das colegas e da equipa técnica.

Não tardou que também preenchesse uma vaga na equipa do Petro de Luanda, na qual faz sucesso. O feito repete-se com a irmã Natália. A cultura desportiva incorporou-se definitivamente no seio da família com a inclusão da Natália, levada pela Luísa que retribuiu o gesto da Marcelina.

Com a lição bem estudada das manas, Natália também não tardou a enquadrar-se no grupo das mais antigas. Em pouco tempo, a tradição fez-se sentir ao ingressar na equipa do Petro de Luanda, na qual tem dado um contributo valioso. A família Kiala, Marcelina, Luísa e Natália são atletas do Petro de Luanda e da Selecção Nacional.

Com casamento marcado

Luísa é a segunda irmã da família Kiala a abraçar o andebol. Inspirada nas qualidades da irmã Marcelina Kiala, a garota diz que decidiu meter em evidência o “talento copiado” da irmã, num dia em que a irmã havia faltado por doença. Não se conformou e pediu ao técnico que fizesse a vez da irmã.

A equipa técnica sentiu-se apreensiva com o atrevimento da garota. Deram-lhe a oportunidade e foi bem sucedida. Luísa preferiu começar oficialmente pela Têxtil de Luanda para depois ingressar no Petro de Luanda. Hoje, é uma das melhores meia-distância e faz sucesso tanto no Petro de Luanda, como na Selecção Nacional.

Quando ingressou pela primeira vez na selecção de juniores, Luísa sentiu-se honrada por ver compensado o trabalho árduo no Petro de Luanda. Pela primeira vez, não foi fácil enquadrar-se num grupo, no qual havia jogadoras valiosas como a Nair, Nelma Pedro, Anastácia Sibo, Constantina Paulo, entre outras atletas de grande potencial técnico.

"Entrei no Petro de Luanda com o pé direito, porque o trabalho foi reconhecido e, logo, fui convocada para a Selecção Nacional de júnior. Era um grupo, no qual pontificavam grandes atletas. A alegria foi ainda maior por conquistarmos o Campeonato Africano”, realçou a menina Kiala. A rotina de conquista de títulos africanos resvala na selecção de honras.

A conquista do último título africano foi "difícil", porque "Angola perdeu a maior parte das atletas experientes". A campeã africana acredita na hegemonia de Angola por mais tempo, "caso haja fortes investimentos". Estudante do 3º ano do Curso de Direito e trabalhadora bancária, Luísa Kiala tem casamento marcado para este ano. Não obstante estar a atravessar certas dificuldades devido às diferentes tarefas, promete tudo fazer para conciliar os estudos, a família e o emprego.

Natália Kiala
Honrar o nome

Natália é a última das manas Kiala. Nunca sonhou jogar andebol, porque tinha como preferência o basquetebol, por influência do irmão mais velho. Devido à companhia que fazia a Luísa, paulatinamente se rendeu ao gosto da família. Hoje, é uma figura de destaque no Petro de Luanda e luta arduamente no sentido de conquistar um lugar na Selecção Nacional, embora enfrente uma grande concorrência.
"Desde que enveredei para o mundo de desporto, propus-me a trabalhar arduamente para preservar o nome que a família conquistou no mundo do andebol. Apesar da concorrência que tenho, tanto no Petro de Luanda como na Selecção Nacional, prometo continuar a lutar para manter o meu lugar na selecção", confessa.

Teresa Cancana
Valeu o sacrifício

Teresa Cancana, mãe das gloriosas, diz sentir-se regozijada com os feitos das filhas. Dona Teresa afirma que o brilho das filhas é fruto de muito sacrifício, porque teve de encobrir as ausências para que o pai não se zangasse. "Não foi fácil protegê-las, sobretudo, a Marcelina, porque o pai não quis vê-la a trocar os estudos pelo desporto.

Tudo fiz no sentido de encobri-las e, hoje, estamos a colher bons frutos”, diz com satisfação.Dona Cancana lamenta a morte do marido, por ocorrer numa altura em que o tinha convencido a assinar o pedido de autorização para oficializar a carreira da Marcelina.

"Lamento bastante a morte do meu marido, num momento que já se estava a convencer com a preferência da Marcelina e tinha acabado de assinar a documentação para oficializar a miúda", disse e acrescenta: "Gostaria que vivesse estes bons momentos das filhas, mas infelizmente, às vezes, a vida prega-nos tristes surpresas. Vamos ter paciência e desejar mais êxitos às garotas, que hoje viraram os meus pais", frisou com tristeza. Tia Teresa, como é carinhosamente tratada, já não trabalha, mas dá graças a Deus por lhe ter dado as belas filhas que a sustentam e nada lhe falta, fruto dos ganhos do andebol.

Irmã e vizinhança
enaltecem as jovens

Susana Kiala, irmã mais velha das atletas, nunca teve paixão pelo desporto, embora tenha tentado a sorte, mas sem sucesso. Apesar disso, o dom pelo desporto surge na família desde tenra idade, quando no pátio da Administração do bairro Cassenda praticavam todo o tipo de desporto, com realce para o futebol.

Desse modo, pelas conquistas desportivas da família, assume-se como uma mulher feliz pelo facto de ter a oportunidade de ver o nome da família na mó de cima, um motivo que serve para tanta simpatia e interpelação por parte das pessoas, que a confundem com Marcelina.

Os feitos das irmãs também facilitam a sua ascensão profissional. Por essa razão, roga a Deus para que esse sucesso dure por muito tempo. "Quando começaram, dei sempre a minha ajuda, sobretudo, no cuidado das roupas e cobrir os trabalhos de casa que lhes competiam. Hoje, o nome da família está em grande plano e facilita a nossa ascensão social", disse.

Susana recorda, com satisfação, o último jogo do Campeonato Africano, no qual Angola teve de soar as estopinhas para levar de vencida a Tunísia, pela diferença mínima de um golo. "Foi um momento difícil para mim, porque na véspera do jogo tinha sido convidada para um almoço e, infelizmente, quase no local do encontro a minha viatura teve dificuldades para atravessar o terreno alagado por causa de um tubo rebentado e o jogo já tinha iniciado.

Enquanto isso, perguntava às pessoas sobre o resultado e a situação piorou, porque, a antena não estava boa no local do almoço. Fiquei aflita e só pude ver a parte final, quando o locutor gritava que a bola estava com a Luísa. Contou os segundos e ouvimos em voz alta: `Angola é decacampeã!’. Foi o suspirar de alívio de tanto sofrimento. Isso só mostra o quanto também sofremos fora das quadras", ressaltou.   
 
Motivo louvável
A ascensão das jovens atletas é um motivo de orgulho tanto para a família como para a vizinhança, tendo em conta o sacrifício a que as mesmas foram submetidas no início das suas carreiras. Para vizinha Marta, as jovens atletas recebem muito carinho, sobretudo, a Natália, menina que viu nascer.

"As glórias dessas meninas é de louvar. Vivemos aqui no bairro há muito tempo e acompanhámos o sacrifício desta família, que foi pior após o falecimento do pai. Felizmente, a vizinhança também festeja com a família as vitórias de Angola", disse a vizinha.
Vizinha Marta apela às pessoas de direito para apoiarem as jovens e a camada de formação, porque é "a melhor fase para aprender o andebol".