Jornal dos Desportos

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Reportagens

O Maior de Todos

21 de Fevereiro, 2011

Um homem denunciado como antiamericano em 1967 foi convidado da Casa Branca em 1974.

Fotografia: AFP

O boxe deu grandes atletas, mas a história desse desporto vai ter sempre um divisor de águas quando se falar de Muhammad Ali, “O Maior de Todos”. Sua grandeza foi sobre o ringue, mas a sua vitória mais ressonante foi contra o “Tio Sam”, por lutar e lutar para escapar a uma prisão de cinco anos e uma multa de dez mil dólares por não querer alistar-se nas Forças Armadas.

O atleta mais criticado dos anos 60 converteu-se num herói nos anos 70. Um homem denunciado como antiamericano em 1967, foi convidado da Casa Branca em 1974. Cassius Clay, nome com o qual conquistou a medalha olímpica de Peso Meio Pesado, em 1960 em Roma, abriu as portas para um mercado de nome que a televisão levou às alturas, numa escalada de contratos milionários que transformaram o mundo do boxe num espectáculo.

Convertido ao Islamismo, foi como Muhammad Ali que viveu as suas melhores batalhas. Foi polémico, causou espanto e admiração em alguns e desprezo noutros. Seu brilhantismo sobre os ringues iniciou-se nos Olímpicos de Roma, onde obteve o seu primeiro prémio mundial. Nas primeiras lutas profissionais demonstrou uma incrível rapidez com as mãos e pés, considerando que a sua altura era 1,88m e o seu peso 85 quilos.

O homem que alardeava as suas habilidades para “voar como uma borboleta e picar como uma abelha”, foi uma personalidade no início dos anos 60, um vilão norte-americano e finalmente um herói internacional. Agora, o seu corpo está limitado pela doença de Parkinson, mas é um dos homens mais queridos do planeta. Clay nasceu em 18 de Janeiro de 1942 em Louisville, Kentucky e tinha apenas 22 anos quando enfrentou Sony Liston, arrebatando-lhe o título dos Pesados.

Foi pouco depois de se converter ao Islão que anunciou o seu nome durante a controvérsia da opinião pública. Com a popularidade abalada, os promotores queriam dirigir uma desforra com Liston, que aconteceu em Lewiston, no estado do Maine, em 25 de Maio de 1965. Ali venceu por ko no primeiro assalto. Seis meses depois, Ali castigou severamente o ex-campeão Floyd Patterson, antes da luta ser definida no 12º assalto.

Ali defendeu mais sete vezes, com sucesso, o seu título, mas o ko técnico sobre Zora Folley foi a sua última luta no ringue em três anos e meio. Pois depois, o rival passou a ser o “Tio Sam”, quando as Forças Armadas trataram de alistá-lo. O campeão não se importou de se expor a cinco anos de prisão e a uma multa de dez mil dólares por negar-se a servir nas Forças Armadas. Nesse dia, a Comissão Atlética de Nova York suspendeu a sua licença de boxe e retirou-lhe o título. O julgamento durou dois meses e meio, o jurado gastou apenas 21 minutos para deliberar a sentença de culpado e o juiz impôs a pena máxima.

O caso chegou à Corte Suprema dos Estados Unidos, numa altura em que os americanos começavam a opor-se à Guerra do Vietname. Por isso, o apoio a Ali foi aumentando. Oito meses antes da audiência na Corte Suprema, Ali voltou aos ringues e derrotou por ko técnico Jerry Quarry, no dia 26 de Outubro de 1970. Um mês e meio depois a história repetiu-se com Oscar Bonavena em Nova York. Em 8 de Março de 1971, Ali e Joe Frazier subiram ao ringue do Madison Square Garden para o título dos Pesados.

Cada pugilista recebeu um pagamento recorde, 2,5 milhões de dólares. Foi uma luta electrizante. Ali caiu no 15º assalto e Frazier venceu por decisão unânime. O pugilista ganhou o segundo combate com Frazier, também por decisão unânime, três anos depois e em Manila repetiu a odisseia, nesta ocasião por ko técnico, no 14º assalto. Uma das suas derrotas memoráveis foi a que sofreu contra Ken Norton, que quebrou a mandíbula de Ali.

Na sequência, outra das suas brilhantes vitórias foi a que obteve frente a George Foreman, a quem pôs ko em oito assaltos, recuperando assim o título. O verdadeiro “Waterloo” de Ali foi quando confiantemente enfrentou Leon Spinks e perdeu a faixa dos mastodontes, recuperando-a sete meses depois, na que seria a sua última vitória, pois em Junho de 79 anunciou a saída.

As tentadoras ofertas fizeram com que voltasse, mas só para ser derrotado por Larry Holmes e Trevor Berbick. Por azar, a sua grande carreira tinha que deixar sequelas e, em 1984, Ali descobriu que sofria do Mal de Parkinson, uma síndrome neurológica caracterizada por tremores, rigidez nos músculos e lentidão de fala e movimentos.