Jornal dos Desportos

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Reportagens

"O meu momento vai chegar"

Manuel Neto - 26 de Abril, 2010

Paulo Muandumba, do 1º Agosto

Fotografia: Jornal dos Desportos

Depois do brilharete nas camadas jovens que o levou à Selecção Nacional de Sub-20, Paulo Muandumba desapareceu dos píncaros da fama. Que explicações se lhe oferece dizer?
Com certeza, foi um bom início que começou aos meus 10 anos de idade, na equipa do Anadia da Segunda Divisão portuguesa, na qual permaneci até aos juniores. Posteriormente, joguei no Beira-mar, Boavista e Vitória de Guimarães. Na categoria sénior, estreei-me pela equipa do Sporting de Espinho. Tudo corria a contento, mas algum tempo depois as coisas começaram a correr mal devido a motivos contratuais e atraso de salários. Isso levou-me a baixar de rendimento.

Essas são as razões que lhe levam a regressar ao país?
Sim. Antes tentei a sorte pelo União da Madeira durante uma época. Infelizmente, nada mudou e no ano seguinte surgiu a oportunidade de jogar pelo 1º de Maio de Benguela, uma oportunidade que não desperdicei. Fui bem sucedido naquela equipa e ao meio da época fui convidado para ingressar no 1º de Agosto, no qual me encontro actualmente.Houve convites de outras equipas, além do 1º de Agosto?Sim. Na altura havia muitas equipas interessadas nos meus préstimos (não adianta citar nomes), mas a proposta do 1º de Agosto foi a que mais me convenceu. Estou bem nesse clube e espero dar o melhor de mim.

Gostou do ambiente de trabalho que encontrou?
Tenho apoio da direcção, da equipa técnica e de colegas. Sempre me deram grande força nos momentos bons e difíceis. Nada tenho a reclamar.

O contrato minimiza os problemas que trouxe de Portugal?
Apesar de não ser um grande contrato, mas dá para fazer esquecer alguns problemas que me apoquentavam. Tenciono fazer melhores contratos, porquanto tenho muito para dar ao longo da minha carreira desportiva.

Conhecemo-lo como médio ofensivo. Qual é a posição no 1º de Agosto?
Sou médio de raiz, consigo jogar no extremo direito como esquerdo e a médio-central. São posições que ensaio regularmente no grupo.

A equipa está recheada de bons jogadores na posição em que joga. Teme a concorrência?
A concorrência é salutar; obriga a empenhar-nos cada vez mais. Só integra a equipa principal quem está em boas condições físicas, psicológicas e técnica. Por isso, resta-nos trabalhar e esperar a nossa vez.

São decorridos oito jornadas do Girabola’2010 e não fizeste nenhum jogo. Por que?
No final do ano passado, no jogo contra o Desportivo da Huíla, lesionei-me e fiquei parado. A lesão foi tão grave que, a dada altura, pensei em abandonar definitivamente o futebol. Graças a Deus, fui operado com sucesso em Angola e, hoje, sinto-me totalmente recuperado, antes dos oito meses previstos pela equipa médica. Actualmente, treino sem limitações a aguardar pela chamada do técnico para mostrar o meu real valor. Aliás, todo o atleta aspira integrar na equipa principal. O meu momento vai chegar.

Em sete jogos, o 1º de Agosto fez apenas sete pontos. O que esta na base disso?
São coisas do futebol. Trabalhamos bem durante a semana, entramos com muita garra e empenho, mas, infelizmente, as coisas saem bem. Brevemente, as coisas vão mudar. Falo com toda a certeza, porque hoje a equipa já começa a ganhar um melhor entrosamento entre os sectores. Espero que o intenso trabalho submetido diariamente resulte em vitórias para o alcance dos objectivos que foram preconizados

"Futebol melhora cada vez mais"

Quais os objectivos que persegue no futebol angolano?
Estou numa grande equipa, o 1º de Agosto, um clube com repercussão em Portugal. Compreendi que é uma agremiação com objectivos definidos e fortes que passam pela conquista do título e de outras competições importantes quer a nível nacional, como internacional. Deste modo, vejo-me também obrigado a dar tudo para o alcance desses objectivos. Ainda assim, vou continuar a trabalhar para voltar à Selecção Nacional, quiçá, numa das melhores equipas estrangeiras.

Está fora da família há dois anos. Isso não lhe atrapalha?
Nesse momento, a minha esposa e o meu filho estão em Portugal. Concentro-me ao máximo para que a distância não atrapalhe os meus trabalhos. Apesar disso, procuro criar as condições para que em breve estejam junto de mim.

Tem apoio de parentes?
Sim. Recebo apoio moral dos meus tios, primos e do meu pai, antigo desportista. A minha mãe, que sempre me incentivou à prática de futebol, está em Portugal, onde vive há 16 anos.

Que avaliação faz do futebol angolano?
Em Portugal, acompanhava o futebol angolano pela RTP-África, assistia aos jogos do 1º de Agosto e do Petro de Luanda. Foi numa época em que o futebol estava a crescer. Os anos passarem e noto que o futebol melhora cada vez mais, sobretudo, com a realização da Taça Africana das Nações Orange-Angola’2010, competição que deu azo à construção de infra-estruturas importantes para o desenvolvimento do nosso desporto. Em suma, nota-se crescimento e se assim continuar vai atingir o topo de África.

Que comentário se lhe oferece fazer sobre a organização interna das equipas angolanas?
É muito difícil fazer uma avaliação profunda, mas a apresentação externa dá para perceber o que as equipas vivem internamente. Apesar de a maior parte viver problemas financeiros tem uma organização razoável, com planos delineados que se esbarra apenas por falta de apoios. Não obstante a isso, têm as mínimas condições de trabalho que lhes permite actuar com tranquilidade e num futuro breve se possa pensar em profissionalizar o futebol.

Angola tem potencial humano para abraçar o profissionalismo?
Sim. Hoje já temos muitos jogadores habilidosos. Isso observa-se até nas crianças que com um melhor acompanhamento podemos dar saltos mais altos integrando nas melhores equipas europeias.

Que avaliação faz sobre a qualidade dos técnicos que trabalham com as categorias de formação?
São setenta por cento da melhoria da qualidade do futebol, porque são os que, por vezes, trabalham com paciência e em condições precárias para que os jovens atinjam, no futuro, boa qualidade. Por isso, merecem o apoio de toda a sociedade desportiva.