Jornal dos Desportos

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Reportagens

O pai do voleibol

Francisco Carvalho - 28 de Fevereiro, 2011

Gustavo Cruz foi homenageado pela Federação Angolana de Voleibol

Fotografia: Domingos Cadência

Em tarde de sábado, a ala esquerda do restaurante Só Peso abarrotou de desportistas de todas as épocas. A geração de ouro. Um único motivo os juntou a Gustavo Cruz: a família de voleibol angolano homenageia o percursor dos bolares.Em 33 anos de existência de voleibol em Angola, nunca tinha havido oportunidade para um reencontro. Mas este é o dia de matar saudades. Abraços e sorrisos. É a família. Gustavo Cruz está entre os filhos e os amigos.

“É um momento marcante estar com amigos, atletas e ex-praticantes”, diz numa voz grossa e acossada pela idade. Ao seu lado esquerdo está o executor e o primeiro presidente da Federação Angolana de Voleibol, Rui Filomeno de Sá, e à esquerda a esposa Fernanda Cruz. De um lado ao outro, Nádia Cruz, a filha, regista as imagens para o álbum de família. Um ambiente de muito bolares.
As histórias ouvem-se de todas as extremidades.

Manucho senta-se ao lado de Morais. A dupla que representou Angola nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. Contagiado pela emoção, Manucho revela histórias: “a dona Fernanda Cruz era uma mulher dedicada ao desporto”. No início da carreira, Manucho testemunhou o esforço feito em prol da modalidade. “É uma mãe”. Mãe que se preocupava com aalimentação dos atletas. “Ofertava-nos iogurtes, sanduíches e sumos”, recorda. Fernanda Cruz confirma: “fazia apenas aquilo que me competia, porque sempre estive ao lado do meu marido”.

Porquê tanto esforço de uma família por um desporto? Manucho explica: “Gustavo Cruz tinha o pensamento na formação de uma forte selecção de voleibol, para vingar em África e no mundo”. O sangue fervia-lhe a toda a hora. Como treinador do 1º do Agosto, Gustavo Cruz reunia, sempre que possível, a melhor nata de outras equipas no Rio Seco. Atletas do Dínamo de Luanda, Sporting de Luanda e outros clubes treinavam no átrio da equipa militar. O propósito era a protecção da nata de voleibolistas angolanos. “É o único treinador do mundo que fez isso”, diz Manucho.

O resultado do trabalho surtiu efeitos. Angola tinha uma geração de ouro que ombreou com as melhores do continente. Foi campeã da Zona VI em masculinos e femininos. Entre os nomes sonantes consta o de Aristides Renato Fontes Pereira “Necas”, considerado como o expoente máximo da selecção angolana. “O eterno capitão de Angola e do 1º de Agosto”, diz Gustavo Cruz. Depois da primeira geração, constam outros nomes como Edgar, Carlitos, Carlos Rodrigues, Hernâni, Didi Torres (actual director técnico do Comité Olímpico Angolano).

Na terceira geração, fazem morada, no feminino, a Deodeth, Arieth, Isabel Rank Franck (actual Comandante provincial de Luanda da Polícia Nacional em exercício), São Ananás, Milú, Alice, Chiquinha (feras de Benguela); Isabel Agostinho, Iracema, Engrácia, Alice (craques do Namibe), só para citar algumas. O trabalho de Gustavo Cruz tinha um suporte de homens fortes e dedicado. À cabeça estava o Comandante Rui Filomeno de Sá (actual General Dibala), António Barbosa, António Godinho (irmão mais velho de Pedro Godinho), António Anapaz, Victor Martins, Baltazar, António Rocha, António Moreira, Valentino, Kangola Emmanuel David e outros. Eram homens apostados nos bolares fortes de Angola.

Pilar de sustentação

Edgar Martins é um dos muitos “pupilos” de Gustavo Cruz. De garfo na mão, soltou um elogio: “É uma excelente pessoa da família.Somos filhos. É um homem que se sacrificou para elevar o voleibol em Angola”. Mas que razões o levaram a entregar-se de alma ao voleibol? Sem rodeios, Martins revela: “No meu tempo, levou-nos a casa sempre que era noite”. Um soluço de nostalgia ofusca-lhe a voz: “Faltam-me palavras para descrever a gratidão do melhor treinador de todos os tempos que Angola já teve”. Uma pausa e os olhos caem no prato. “No clube, não tínhamos nada, mas a esposa dava-nos mimos: iogurtes, sanduíches e sumos”, disse.

A dimensão do feito de Gustavo Cruz tem “o cunho da história de Angola”. Assim descreve António Barbosa, um dos fundadores da Federação Angolana de Voleibol. “Conheci-o ligado ao desporto. É o maior pilar de sustentação do voleibol angolano”, afirma. Sem vacilar, António Barbosa desafia quem se opõe. “Tenho testemunho vivo”, justifica-se e acrescenta: “É o criador do voleibol no 1º de Agosto, onde sempre militou e se entregou de corpo e alma; investiu muitas horas e esforços da sua vida por amor e dedicação à juventude”.

O maior legado de Gustavo Cruz, diz Barbosa comovido, é a equipa de jovens presentes nesta cerimónia. “É o testemunho vivo que confirma o que ele representou para as suas formações”, diz, fazendo uma pausa para evitar as lágrimas. Os olhos filtram o piso da sala. Ganha fôlego e acrescenta: “Temos gente com elevada formação e ocupam cargos importantes nos diferentes sectores sociais do país”.

Kangola Emmanuel David é o primeiro árbitro internacional de voleibol do país. Formado nos Camarões, nas vésperas da realização do II Jogos da África Central, em 1980, revelou que Gustavo Cruz “deu tudo para o crescimento do voleibol nos momentos críticos do país”. O apoio de Gustavo Cruz não se cingia à formação dos atletas. Kangola David revela: “para além de moral, também tirava do seu bolso dinheiro para sustentar algumas actividades”.

O apreço de Gustavo à modalidade transcendia para além dos atletas. “Era tudo para nós”, afirma o ex-árbitro internacional que acrescenta: “tínhamos tudo, sempre que aparecia, nada faltava”.A entrega de Gustavo Cruz era total ao voleibol angolano. Os seus conselhos dirigiam-se a atletas, dirigentes e árbitros. “Afinal, era o nosso primeiro seleccionador nacional”, diz Kangola. Por isso, “Cruz é o pai do voleibol; fez muito pelo desenvolvimento do voleibol”.

Formação começa no d’Agosto

O convite para treinar uma equipa de voleibol aconteceu depois de um reencontro de antigos colegas, amigos e adversários. Rui Filomena de Sá “General Dibala” foi o responsável pela contratação de Gustavo Cruz. O antigo Comandante respondia também a um convite de um amigo, Rui Correia Victor, o dinamizador de voleibol em Angola, no período pós-independência. A intenção era criar uma equipa e depois a comissão instaladora da Federação Angolana de Voleibol. Os interesses da pátria estavam na ordem do dia. Como um dos fundadores do Comité Desportivo Nacional Militar (CODENM), Rui Filomeno de Sá conseguiu um lugar no Rio Seco para a equipa de voleibol.

Gustavo Cruz e Rui Filomena de Sá eram colegas na equipa de futebol do Sport Lisboa e Benfica. Como estudantes, eram adversários de quadras. A amizade fortalece quando integram a selecção de futebol de Portugal. Com o passar do tempo, cada um teve o seu destino. Gustavo Cruz abandona Portugal e emigra para Angola e Rui Filomena de Sá integra o grupo de guerrilheiros assumidos pela libertação de Angola.

Quis o destino, após a proclamação da independência nacional, a 11 de Novembro de 1975, que os dois amigos, ex-colegas e adversários, se reencontrassem numa das avenidas de Luanda. O abraço fraterno falou mais alto. As potencialidades desportivas e a competência de gestão de Gustavo Cruz foram reconhecidas, num momento em que havia a necessidade de se elevar o voleibol em Angola. Rui Filomeno de Sá não teve outra escolha senão convidar a pessoa certa para levar avante a formação de atletas.

Com o convite feito, Gustavo Cruz entra como atleta com o suporte de António Godinho e do General Dibala. Mais tarde nomeado treinador, assume a formação dos voleibolistas do 1º de Agosto. Com o passar de poucos meses, vários torneios foram realizados, o que encantou as entidades. Assim, nasce a comissão instaladora da Federação Angolana de Voleibol e posteriormente a Federação.

Justino e Inguila
colegas na selecção

Gustavo Cruz nasceu a 26 de Fevereiro de 1939, em Portugal. Durante a sua adolescência e juventude foi futebolista de eleição e notabilizou-se na selecção de Portugal. Dotado de boa técnica, o Sport Lisboa e Benfica também tem o seu registo. O clube encarnado é seu de coração e dele guarda boas recordações. Posteriormente, jogou no Oriental de Portugal.

Após a imigração para Angola, Gustavo Cruz jogou pelo Sporting de Luanda, em 1963. Mais tarde, desvinculou-se e integrou o Sport Clube de Luanda e a Selecção de Angola, na qual teve a companhia de Justino Fernandes (actual presidente da Federação Angolana de Futebol) e do Inguila. Em 1978, a convite do então Comandante Rui Filomeno de Sá “General Dibala”, Gustavo Cruz integra o grupo fundador de voleibol no 1º de Agosto. Encontra um grupo treinado por um europeu do leste.

Pouco tempo depois, assume o comando, como treinador principal do 1º de Agosto, tendo à retaguarda um treinador búlgaro. Exerceu a liderança com muito profissionalismo, até ao ano de 1998, completando 20 anos de dedicação e trabalho. Com menos carga, nesse mesmo ano, vira as atenções para o voleibol de praia. A excelente massa humana e as boas praias de Luanda levaram-no a formar duplas angolanas. O projecto surtiu efeito com a presença de Morais e Manucho nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, onde a bandeira de Angola foi içada na abertura do torneio de voleibol de praia. No ano seguinte, Gustavo Cruz pôs fim ao treino de desportistas por questões de saúde.

“Um maravilhoso pai”

A descrição é de Nádia Cruz. “Sempre procurou proporcionar tudo de bom e do melhor para a família”, descreve com sorrisos. Os filhos sempre tiveram a liberdade de escolher. “Nunca impôs nada”, diz. Gustavo Cruz é “um pai sempre presente na carreira desportiva dos filhos”. O bicho do desporto nasceu no sangue da família. A presidente do Comité dos Atletas Olímpicos de Angola, Nádia Cruz, é somente uma das atletas com mais presença nos Jogos Olímpicos. Isso reflecte que em casa “a novela era o desporto”.

O sucesso da família deveu-se à liberdade. “Era um homem liberal que apenas orientava; não impunha regras aos filhos, porque havia uma vida familiar unida”, diz Nádia. Durante a ausência de Gustavo, a família acompanhou o percurso através da imprensa e de telefonemas constantes. Nádia revela: “a nossa vida era em função da vida desportiva do pai”. Gustavo Cruz interessava-se pela carreira desportiva dos filhos. Apoiou-os mesmo durante as competições. “Valeu o apoio”, agradece Nádia.

Fernanda Cruz era a sombra de Gustavo. Em todos os momentos estava presente. Era a lavadeira dos equipamentos, quer da selecção nacional quer do 1º de Agosto; a cozinheira dos atletas. Uma razão estava atrás da atitude: “um bom esposo”, diz a mulher. A “mãe dos atletas” diz que Gustavo, continua a ser um amigo dos filhos e da família. A homenagem que lhe é dirigida espelha “um prémio e uma grande honra”. O gesto da Federação Angolana de Voleibol e dos ex-praticantes deixou contente a família. “Estamos agradecidos”, diz Fernanda Cruz.