Jornal dos Desportos

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Reportagens

O poder do dinheiro

05 de Dezembro, 2010

A festa pela eleição da Rússia e o Qatar

Fotografia: AFP

Os estádios serão desmontados após o Campeonato do Mundo de 2022 e doados a países em desenvolvimento com poucas instalações desportivas. O presidente da candidatura, o xeique Mohamed Bin Hamad Al Thani, disse que ainda não tinham escolhido os países para onde irão os estádios. “Vamos colaborar com a FIFA e com todas as federações”, disse. “É o momento adequado para que o Campeonato do Mundo chegue ao Médio Oriente. Quero cumprimentar o emir do Qatar por acreditar nesse sonho. Obrigado a Sua Alteza por acreditar no nosso projecto. Era um projecto pouco convencional. Ninguém acreditava nele, mas graças ao que fizeram, estamos aqui”, disse o xeique. Nos últimos anos, o Qatar adquiriu alguma experiência na organização de grandes eventos desportivos. Em 1995, foi sede do Campeonato do Mundo de Sub-20 e, em 2006, a 15ª edição dos Jogos Asiáticos, além do Mundial de Atletismo Indoor, em 2010. Com uma superfície de 11.400 quilómetros quadrados, o Qatar é o mais pequeno país do mundo na história da FIFA a organizar um Campeonato do Mundo de futebol. O calor é um factor negativo, com temperaturas que podem chegar a 45 graus centígrados em Junho e Julho, os meses nos quais se disputa o Mundial.

“Uma das coisas equivocadas que se disseram é que faz muito calor. Houve vários torneios com climas semelhantes ao do Qatar. Foi difícil fazer ver que existia um erro nessa avaliação”, destacou o xeique Mohamed Bin Hamad Al Thani. Para lutar contra o calor, o Comité Organizador destaca a sua experiência noutros eventos e propõe estádios climatizados de nova geração, a funcionarem com energia solar. “Obrigado por acreditar na mudança e em querer divulgar e ampliar o campo do desporto. Vão sentir-se orgulhosos de nós e do Médio Oriente. É algo que lhes prometo”, acrescentou o encarregado da campanha Qatar´2022. Mega estádios, tecnologia de ponta e dinheiro não vai faltar ao Qatar para organizar o primeiro Campeonato do Mundo no Médio Oriente, em 2022. Todo o investimento em marketing e propaganda “pessoal” com a realização de amistosos funcionou. Apesar do Qatar ter tido alguns factores contra, como o forte calor e a pouca tradição de futebol, nada disso pesou, e o Qatar foi escolhido como sede do Campeonato de 2022. O Campeonato do Mundo no Médio Oriente vai trazer benefícios mais ao continente do que ao Qatar, que já está bem desenvolvido, embora possa melhorar o futebol, e também vai poder fazer com que o país árabe seja palco de grandes jogos. O Qatar é outra aposta da FIFA que ninguém sabe no que vai dar.

Apaixonados por futebol, os bilionários locais fizeram o poder económico falar mais alto nos bastidores da FIFA. Dinheiro não falta. O Qatar é um país moderno, mas com todas as “regras de comportamento” de um país árabe. O minúsculo país bateu os japoneses, os sul-coreanos, os australianos e os americanos. Foi um triunfo do poder económico sobre o poder político e tecnológico, sem qualquer sombra de dúvida, pois possui, basicamente, uma única cidade: Doha. Sem esquecer o calor do deserto, sob o qual gira a fortuna que sensibilizou os interesses financeiros da FIFA. O Qatar teve o domínio completo da escolha e quase venceu a disputa na primeira votação, quando recebeu 11 dos 22 votos. A Austrália foi o primeiro país eliminado, com apenas um voto. Na segunda votação, o Japão caiu, ao ter apenas dois votos. E o Qatar voltou a liderar, com dez votos. Na terceira votação, o Qatar ficou a um voto de vencer, ao receber o apoio de 11 dos 22 membros do Comité Executivo da FIFA. A Coreia do Sul, com cinco votos, foi eliminada. Na quarta e última votação, o Qatar venceu os Estados Unidos com 14 votos a oito e ganhou o direito de ser a sede do Mundial de 2022.

Breve história
do Qatar

O Qatar é um país árabe, conhecido oficialmente como um emirado do Médio Oriente, ocupando a pequena Península do Qatarna, costa nordeste da Península Arábica. Faz fronteira com a Arábia Saudita, a Sul, e o Golfo Pérsico envolve o resto do país. Um estreito do Golfo Pérsico separa o Qatar da nação insular vizinha, o Bahrein. O Qatar é um país rico em petróleo e gás natural, com a terceira maior reserva de gás e o segundo maior PIB per capita do mundo. Uma monarquia absoluta, o Qatar foi governado pela família al-Thani, desde meados de 1800 e, desde então, transformou-se num protectorado britânico, notável principalmente pela extracção de pérolas, num Estado independente com receitas significativas do petróleo e do gás natural. Durante os anos de 1980 e início de 1990, a economia do Qatar foi prejudicada por um desvio contínuo das suas receitas petrolíferas pelo emir que tinha governado o país desde 1972. O seu filho Hamad bin Khalifa al-Thani, o actual emir, derrubou-o num golpe de Estado em 1995. Em 2001, o Qatar resolveu as suas disputas fronteiriças de longa data com o Bahrein e com a Arábia Saudita.

Histótia
O Qatar é um dos muitos novos emirados na Península Arábica. Depois de ser dominado pelos persas durante milhares de anos e, mais recentemente, pelo Bahrein, turcos otomanos e britânicos, transformou-se num país independente a 3 de Setembro de 1971. Ao contrário da maior parte dos emirados vizinhos, recusou tornar-se parte da Arábia Saudita ou dos Emirados Árabes Unidos. A descoberta de petróleo, no início da década de 1940, transformou por completo a economia da nação. Antes, o Qatar era uma região pobre, dependente da pesca e das pérolas, com pobreza generalizada. Hoje, o país tem um nível de vida elevado e todas as amenidades de uma nação moderna.

Geografia
O país ocupa toda a península de Qatar, na costa noroeste da península arábica, junto ao Golfo Pérsico. O clima é seco e muito quente, e o território é plano e desértico. Ocupa uma área de 11.437 km². As principais cidades são Doha (com 392.384 habitantes), Ar-Rayyan (com 165.127 habitantes), Al-Wakrah (com 33.891 habitantes) e Umm Sa'id (com 19.194 habitantes) (dados de 1995).

 
Área total: 11. 437 km²
População : 1,7 milhões
Ranking da FIFA: 113ª Posição
Maior estádio: Lusail National Stadium – 86.000, Lusail
Principal benefício: O facto de ter muito dinheiro e uma tecnologia de ponta acima da média.
Principal dor de cabeça: O Qatar vai ter de investir na climatização dos estádios (projecto principal do Qatar). Afinal, o calor de 50º C vai prejudicar muita gente.

Festejo contagia russos

A expressão hurra! (vitória!, na tradução não literal) foi a mais ouvida nas ruas de várias cidades da Rússia, após Joseph Blatter anunciar o país vencedor. A Rússia comemorou a escolha como país-sede do Campeonato do Mundo de 2018 e espera aproveitar a competição para melhorar a infra-estrutura e mudar a sua imagem no cenário internacional. Orgulhoso com a decisão do Comité Executivo da FIFA, o Primeiro-Ministro Vladimir Putin destacou que a Rússia merecia ser o primeiro país do Leste Europeu a receber o Mundial. “A decisão da FIFA significa que confiam em nós”, declarou Putin no Twitter. Reunidos em bares, os russos agitaram bandeiras e gritaram o nome do país na comemoração.

E até o presidente Dmitriy Medvedev foi contagiado pelo clima de euforia pela eleição na qual a Rússia superou a Inglaterra e as candidaturas conjuntas de Espanha/Portugal e Bélgica/Holanda. “Hurra! Hurra! Hurra! Vitória!”, publicou no Twitter – rede de microblogs na Internet. “Prometo que nunca se arrependerão. Vamos fazer história juntos”, disse Igor Shuvalov, vice-Primeiro-Ministro russo, que liderou a delegação do país na Suíça. O Campeonato do Mundo de 2018 vai ser o segundo evento desportivo de grande magnitude que a Rússia vai organizar em pouco tempo. Em 2014, a cidade de Socchi vai receber os Jogos Olímpicos de Inverno.  “A Rússia vive pelo futebol, conhece o futebol e o nosso país tem os recursos para fazer um grande Campeonato do Mundo de 2018”, disse Putin.  “A decisão está em consonância com a filosofia da FIFA de promover o desenvolvimento do futebol, especialmente nas regiões onde é mais necessário”, completou. Depois de conhecer o resultado, Vladimir Putin viajou imediatamente até à Suíça para agradecer aos membros do Comité Executivo da FIFA. Um dia antes, porém, tinha criticado o processo e decidido não viajar para Zurique.

A sua desistência foi entendida como uma indicação de que não pretendia ser associado a um possível fracasso, que não ocorreu. Assim, a Rússia comemora a escolha para acolher o seu primeiro Campeonato do Mundo. “Vamos para novos territórios”, comentou o presidente da FIFA, Joseph Blatter, após o anúncio dos organizadores dos mundiais de 2018 e 2022. A Rússia conseguiu eleger-se, apesar da ausência do Primeiro-Ministro Vladimir Putin, ainda que a sua influência tenha tido impacto nos 22 membros votantes do comité executivo da FIFA, que escolheram o país, em detrimento da Inglaterra, Espanha-Portugal e Holanda-Bélgica. A Rússia tem tradição no futebol e fez por merecer a escolha para organizar o Campeonato. Da sua história futebolística destacam-se grandes craques e possui dimensões continentais, com uma economia em crescimento. Todo o poder económico russo fez a diferença. Se forem somadas as verbas dos estádios, futebol local e infra-estruturas, conclui-se que mais de 175 mil milhões de euros vão ser investidos em toda a Rússia.

Além disso, cerca de 13 arenas vão ser erguidas em todo o território. Jamais a FIFA antecipou tanto a escolha de cidades para os próximos mundiais e talvez a explicação esteja relacionada com o risco de perda de poder nas próximas eleições. Com o profundo desagrado de ingleses, espanhóis, holandeses, belgas, portugueses e outros derrotados, é possível que apareça uma oposição mais consistente ao grupo liderado por Joseph Blatter. Mas com as negociações agora definidas, se por ventura o actual grupo dirigente caísse, o que é improvável venha a acontecer antes das próximas eleições, os novos gestores teriam de gerir a programação previamente estabelecida até 2022.

Percurso
Considerada favorita para receber o Campeonato do Mundo de 2018, a Inglaterra foi eliminada na primeira votação. De acordo com as regras da FIFA, o país-sede do Mundial é decidido quando um concorrente tiver mais da metade dos votos e aquele que tiver menos apoios, numa primeira votação, é eliminado. Assim, a Inglaterra foi a primeira a cair, ao receber apenas dois votos. E a Rússia liderou o primeiro pleito com nove votos. A definição do país-sede do Campeonato do Mundo de 2018 surgiu com a segunda votação, quando a Rússia recebeu 13 dos 22 votos, derrotando as candidaturas conjuntas de Espanha e Portugal, com sete votos, e Bélgica e Holanda, com dois.

Breve história da Rússia

A Rússia, oficialmente Federação Russa, é um país localizado no norte da Europa e da Ásia (Eurásia em conjunto). Faz fronteira com os seguintes países (de noroeste para sudeste): Noruega, Finlândia, Estónia, Letónia, Lituânia e Polónia (ambas através de Kaliningrado), Bielorrússia, Ucrânia, Geórgia, Azerbeijão, Cazaquistão, China, Mongólia e Coreia do Norte. Faz também fronteira marítima com o Japão (pelo Mar de Okhotsk) e com os Estados Unidos da América (pelo estreito de Bering). Com 17.075.400 quilómetros quadrados, a Rússia é o país com maior área do planeta terra, cobrindo mais de um nono da área terrestre. É também o nono país mais populoso, com 142 milhões de habitantes.

A história do país começou com os Eslavos do Leste, que surgiram como um grupo reconhecido na Europa entre os séculos III e VIII. Fundada e dirigida por uma classe nobre de guerreiros Kikings e pelos seus descendentes, o primeiro Estado Eslavo do Leste, o Principado de Kiev, surgiu no século IX e adoptou o Cristianismo Ortodoxo do Império Bizantino, em 988, dando início à síntese das culturas Bizantina e Eslava que definiram a cultura russa. O Principado de Kiev desintegrou-se e as suas terras foram divididas em muitos pequenos Estados feudais. O Estado sucessor do Principado de Kiev foi a Moscóvia, a principal força no processo de reunificação da Rússia e na luta de independência contra a Horda de Ouro. Moscóvia gradualmente reunificou os principados russos e passou a dominar o legado cultural e político do Principado de Kiev. Por volta do século XVIII, o país teve grande expansão através da conquista, anexação e exploração de territórios, tornando-se no Império Russo, que foi o terceiro maior império da história, e se estendia da Polónia, na Europa, até ao Alaska, na América do Norte.

Antes do século I, as terras vastas do Sul da Rússia pertenciam a tribos que não eram unidas entre si, como os Proto-Indo-Europeus e os Citas. Entre os séculos III e VI, as estepes foram esmagadas por ondas sucessivas de invasões de bárbaros e povos nómadas, conduzidas por tribos bélicas, como os hunos, entre outros. Por volta do século VIII, os czares governaram o Sul da Rússia. Foram aliados importantes do Império Bizantino e originaram uma série de guerras sangrentas contra os califados árabes. Entre os séculos X e XI, o Principado de Kiev (a partir do qual se formaram grande parte dos países eslavos actuais) era o maior da Europa e um dos mais prósperos, devido ao comércio diversificado tanto com a Europa como com a Ásia. Durante o século XI e XII, a incursão constante de tribos turcas nómadas, como os cumanos e os pechenegues, levou à migração em massa das populações eslavas do Sul às regiões pesadamente arborizadas do Norte, conhecidas como Zalesye.

Números do país

Área total:
17.075.200 km²
População da Rússia: 141 milhões
Ranking da FIFA: 13ª posição
Maior estádio: Luzhniki Stadium – 89.318,Moscovo
Principal benefício: O imenso território vai possibilitar a construção de vários estádios.
Principal dor de cabeça: O território é muito extenso e vai dificultar a deslocação de um estádio para outro.