Jornal dos Desportos

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Reportagens

O poder do futebol

17 de Outubro, 2010

Itália conquistou o mundial com o apoio de um governo fascista

Fotografia: AFP

O futebol tem o poder de fazer parar escolas, bancos, lojas e todos os tipos de estabelecimentos. Até um país. As pessoas concentram-se nas disputas e acompanham em tempo real as batalhas futebolísticas, onde cada cidadão se vê representando nos jogadores, que numa batalha sem armas, tentam defender o seu país. Nas antigas batalhas existiam bons soldados, que lutam por amor à pátria e que levam em seu peito o garbo arrojado, tradição do seu povo. Contudo, podia ser encontrado naquelas batalhas, o velho mercenário que por algumas moedas de prata deixava de lutar, abandonando ao léu os fiéis soldados. Alguns destes mercenários não só deixavam de lutar, mas mudavam de exército e traíam a sua pátria.

A população ficava eufórica e aguardava, quando, ao final da sangrenta batalha, os soldados chegavam com as notícias do fim da guerra e a vitória alcançada. Antes de se debruçar sobre o uso do futebol para fins políticos, vale dar um rápido esclarecimento sobre onde e como surgiu a prática política. Estudos indicam que a política surgiu basicamente após o surgimento das cidades, tendo como ponto de partida, a Grécia Clássica, num período da história onde os homens começaram a trocar o pensar mítico pelo pensar racional.
A utilização do futebol como material de fortalecimento de governos ganha corpo com o fascista Benito Mussolini. A Federação Internacional de Futebol Amador (FIFA) proíbe a ingerência dos governos nas Federações Nacionais e nos clubes, por essas instituições obedecerem de estatutos próprios, isto é, são associações apartidárias. 

Nos dias correntes, o mundo ainda testemunha a ingerência dos governos nas associações desportivas. A mais recente, foi o pronunciamento do presidente da Nigéria, Goodluck Jonathan, quando proibiu as equipas de disputar as competições internacionais e ordenou uma investigação sobre alegada corrupção na Federação de Futebol da Nigéria, após a eliminação da selecção local na primeira fase do Campeonato do Mundo da África do Sul. A Fifa monitora a possibilidade de ocorrer a interferência política no futebol nigeriano, apesar do governo ter retirado a ameaça de impedir a participação das equipas nas competições internacionais. A entidade estava pronta para suspender a Federação de Futebol da Nigéria, o que afectaria as selecções, equipas e árbitros. O decreto de Goodluck Jonathan violava as regras da Fifa, que proíbe os governos de intervirem nos assuntos do futebol.

Mussolini e o Futebol
A Itália de Mussolini utilizava-se da cultura física como aspecto fundamental para a solidificar a sua ideologia fascista. A partir de 1925, l’Opera Nazionale Dopolavoro, financiou e coordenou a construção de vários estádios, piscinas, pistas de ciclismo e atletismo. Mas o Duce demoraria um tempo para perceber que poderia utilizar-se do futebol para tentar manipular a população. Em 1926, Mussolini ansiava tanto em ser um dos maiores governantes do mundo, que resolveu alterar as regras do futebol através da Carta de Viarregio. Este documento fixava as regras para jogadores estrangeiros, definia os novos status para jogadores de futebol, além de uma série de alterações no calcio. Na mesma época, o calcio rivalizava e disputava espaço no gosto da população com a volata, modalidade que misturava futebol e rugby e que fora inventada por Augusto Turati, uma das figuras-chave do fascismo.

A intenção era provar que a volata era um desporto genuinamente italiano, que os ingleses degeneraram com uma infinidade de regras, porém, a volata não durou por muito tempo e caiu no esquecimento por volta de 1933. Atento, Benito Mussolini tratou de assumir os encargos para sediar o Campeonato do Mundo de 1934, modo pelo qual o Estado fascista viu a oportunidade ímpar de fortalecer uma infinidade de metáforas belicistas, perfeitamente, aplicáveis aos valores do regime. Imediatamente após a confirmação da realização do II Campeonato do Mundo de Futebol na Itália, Mussolini tratou de vincular a conquista ao sucesso dos dez anos de regime fascista. Para a propaganda do Mundial, uma das imagens de cartazes, era a de um jogador com a bola no pé e a típica saudação fascista.

Estádio para o Mundial 
O governo fascista começou a construção de grandes templos desportivos bem antes de pensar em sediar o Mundial. Em 1927, era inaugurado o Littoriale, em Bologna. Em Roma, em 1928, foi inaugurado o Estádio do Partido Nacional Fascista. Em 1929, foi a vez do Il Testaccio di Roma, mais conhecido como giallorossi, por ter as suas bancadas pintadas de amarelo e vermelho. Esta foi uma das primeiras obras do fascismo a receber a bênção da igreja católica. Em 1932, era inaugurado o Stadio del Littorio, em Trieste. Ainda foram construídos o L’Ascarelli di Napoli e Il Comunale di Torino, que por ser o mais imponente complexo desportivo do país, logo passaria a ser chamado de Benito Mussolini.

O Mundial de Mussolini

A abertura do Mundial demonstrou o quanto o povo apoiava Mussolini e o quanto a sua "preocupação" com o calcio, com a construção de estádios e mudanças nas regras para jogadores estrangeiros, elevariam o status do regime fascista. Apesar do prestígio alcançado especialmente com a presença do Duce em todos os jogos, a Azurra não teria um caminho fácil e ficaria evidente que o preparo físico era fundamental para seguir adianta na competição. Com um regulamento que previa jogos no dia imediatamente posterior, caso uma partida terminasse empatada, a cada jogo da Azurra era um bombardeio de propaganda fascista, utilizando amplamente os símbolos nacionais, como o uniforme preto, a bandeira e o hino, além da presença do Duce em todos os jogos da selecção italiana sempre a comemorar cada vitória da Azurra com os "camisas-negras".

Jogos marcantes
Itália x Espanha – Jogo de 210 minutos, onde o herói da partida foi Giuseppe Meazza, autor dos golos da vitória que foi retirado do campo desmaiado. Uma das maiores demonstrações do espírito de sacrifício que o regime fascista exigia. A influência do ditador Benito Mussolini no Campeonato do Mundo de 1934 é bastante difundida. Entre as histórias, há a de um bilhete ameaçador escrito "vitória ou morte", entregue à selecção italiana. As arbitragens suspeitas pró-Itália em partidas contra Áustria e Checoslováquia também teriam o dedo de Mussolini, que teria escolhido ainda vários árbitros do Mundial. A última história dá conta de ameaças ao craque argentino Monti durante o Campeonato do Mundo de 30, seguidas de um convite, aceito a posterior, para se naturalizar italiano e jogar quatro anos depois.

Itália x Checoslováquia – Final. Jogo com prolongamento, onde a Itália venceu por 2 a 1. Os checos nunca aceitaram o resultado, alegando que momentos antes da partida, o árbitro fora visto na companhia do Duce no seu camarote. Antes do Campeonato do Mundo, porém, Mussolini utilizou amplamente o futebol como mecanismo de aproximação com outros governos. Um evento futebolístico poderia (e ainda pode, na verdade) ser um poderoso aliado para os governos nas suas tentativas de aproximação e conclusão dos seus interesses políticos. Slavia x Juventus - Quando a equipa italiana viajou a Checoslováquia para o amistoso, foram recebidos com repulsa pelos checos, já que italianos e alemães se aproximavam aos poucos e com receio dos anseios de expansão de Adolph Hitler, que já governava a Alemanha.

Na ocasião desse jogo, o embaixador italiano na Alemanha disse: “…as Taças, os campeonatos são situações muito importantes, mas há alguns casos em que se dá prioridade à susceptibilidade nacional, que então é posta em jogo em cada competição desportiva”. Inglaterra x Itália, a Batalha de Highbury – Em 1934, apenas alguns meses depois de conquistar o Mundial, a selecção italiana enfrentou a selecção da Inglaterra, no estádio de Highbury. Os ingleses venceram por 3 a 2 numa partida violenta, em que muitos jogadores deixaram o campo com ferimentos consideráveis, entre os quais, Eddie Hapgood, que teve o nariz fracturado. Meazza, mais uma vez, foi a alma do regime fascista em campo ao marcar os dois golos da Azurra.

Curiosidades

O jogador Monti, campeão pela Itália, é o mesmo Monti que ficou com o vice-campeonato pela selecção Argentina quatro anos antes. Descendente de italianos, foi para a Europa a convite de Mussolini, que queria reforçar a Squadra Azzurra com sul-americanos filhos de italianos. Pelo mesmo motivo, o ex-corintiano Filó também defendeu a selecção italiana ao usar o sobrenome Guarisi. Com isso, tornou-se no primeiro brasileiro a ser campeão mundial de futebol. Além de Monti e Guarisi, a selecção italiana contava com os naturalizados Guaita e Orsi, ambos argentinos.

Apesar de ser sede do Mundial, a Itália teve de disputar as eliminatórias. Venceu a Grécia por 4 x 0 em Milão.
A Palestina disputou a fase de eliminatórias. Na época, Israel ainda não havia sido criado e a Palestina era uma nação de árabes e judeus. Porém, apenas os judeus integraram a selecção que foi desclassificada pelo Egipto. Como o Brasil, a Argentina também foi para a Itália com uma selecção fraca. Os grandes clubes do país haviam se profissionalizado e criado uma liga não reconhecida pela FIFA. Assim, os latinos foram representados por jogadores amadores, vindo de clubes como Dock Sud, Sarmiento, Defensores de Belgrano e Desamparados.

Como na edição anterior, em 1930, todos os vencedores de jogos eliminatórios foram conhecidos nos 90 minutos regulamentares, foi nesse Mundial que ocorreu o primeiro prolongamento da história. No jogo Áustria e França, nos oitavos-de-final, houve empate em 1-1 após os 90 minutos. No prolongamento, a Áustria fez 3-1. A França diminuiu e apertou a equipa austríaca até o fim do prolongamento sem conseguir o empate. Resultado: 3-2. Nesse Mundial, também ocorreu o primeiro jogo de desempate da história dos Mundiais.
Itália e Espanha empataram em 1-1 após o prolongamento. Dois dias depois, as duas selecções vieram ao campo com desfalques, principalmente a Espanha, que não pôde contar com o guarda-redes e o capitão Ricardo Zamora, que, de tanto apanhar no primeiro jogo, não teve como jogar o desempate. Resultado: 1-0 para os italianos, que foram às meias-finais.

 Na disputa do 3º lugar entre Alemanha e Áustria, as selecções não haviam levado equipamentos alternativos (ambas equipes eram alvinegras). Os austríacos, então, usaram a camisa do Napoli. Waldemar de Brito, brasileiro que falhou o penaltie contra a Espanha, foi o responsável por descobrir Pele no Bauru Atlético Clube e levá-lo ao Santos Futebol Clube em 1956. O Uruguai, campeão da edição anterior, não defendeu o seu título por ressentimento dos europeus, que não haviam prestigiado o primeiro campeonato do mundo de Futebol, em 1930.