Jornal dos Desportos

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Reportagens

O pranto seco de Mucondo FC

Manuel Neto - 11 de Agosto, 2010

Mucondo Futebol Clube, agremiação adstrita ao município do Cazenga

Fotografia: Eduardo Pedro

O Mucondo, representante da província de Luanda na Segundona, está preocupado com o iminente desaparecimento do seu habitat natural, o campo da Rrefrinor que será entregue a uma empresa plástica. Isaías Domingos, presidente do clube, afirma que a notícia sobre a destruição do recinto, por sinal o único local de treinos, chegou no seio do grupo como de uma bomba se tratasse. Para o dirigente, quer atletas quer adeptos estão muito desapontados com a triste informação e alerta, que caso a ideia se concretize, será um descalabro para os intentos que a equipa se propõe a seguir. Domingos lamenta a forma e o risco que o projecto corre, sob pena de ir por água abaixo depois de tanto sacrifício. O dissabor e o vazio que pode causar aos munícipes, no geral, e no Girabairro, em particular.O Mucondo Futebol Clube foi fundado em 1991, no município do Mucondo, em Nambuangongo, província do Bengo. Devido às guerras que proliferavam pelo pais, os fundadores da equipa viram-se obrigados a instalar e reorganizar a equipa em Luanda com fins recreativos e a ocupação dos tempos livres da juventude, de forma a evitá-la das práticas nocivas, como o uso de droga, delinquência e outros males que enfermam a sociedade. O grupo está a ganhar espaço no panorama desportivo e de recreação, graças ao empenho dos dirigentes que arduamente lutam por constituir um conjunto formado por veteranos e jovens. É uma equipa que absorve jovens residentes em vários pontos de Luanda, com particular realce para o bairro onde se encontra localizado: Hoji ya Henda.O Mucondo FC tem um lote de 30 jogadores que forma a equipa principal; sete pares de equipamentos, cuja cor predominante é a vermelha, sendo a azul e a preta as alternativas. No seu palmares conta com três títulos de campeão do Girabairro e almeja a conquista do primeiro Campeonato Nacional da Taça do Presidente. Os frutos do trabalho já beneficiam algumas equipas do Girabola, destacando os casos dos atletas Edú que se encontra vinculado ao Santos Futebol Clube, o Paizinho, no Kabuscorp, entre outros espalhados por distintas equipas da Segunda divisão.O Mucondo Futebol Clube almeja participar no Campeonato Nacional da Segunda Divisão, mas a falta de dinheiro é o principal fantasma que atormenta o grupo que vive apenas dos bolsos do presidente e do vice-presidente por falta de apoio de algumas instituições.Isaías Domingos, vice-presidente, disse que o grupo tem grandes intenções de atingir patamares altos no desporto nacional, concretamente, no futebol, mas enfrenta problemas de vária ordem. Isaías afirma que os pequenos apoios recebidos de pessoas colectivas de boa fé como as Organizações Sacriberto e da Administração Municipal não são suficientes para os projectos em carteira, porquanto servem para a transportação dos atletas e da equipa técnica para os recintos de jogo e vice e versa. Apesar desse mar de dificuldades, a direcção não cruza os braços.Técnico revela trabalhocomo segredo do sucessoArmando Sebastião Damião é o elemento que tem sobre os ombros a responsabilidade de dirigir a equipa dentro das quatros linhas. A missão é espinhosa tendo em conta as exigências da direcção e dos adeptos. Ante o desafio, Damião afirma que o segredo das vitórias reside na aposta acérrima pelo trabalho. "Temos uma direcção que satisfaz a maior parte dos nossos pedidos e, em recompensa, oferecemos-lhe os títulos de campeão", disse.A falta de apoio por parte da direcção da entidade organizadora do Girabairro preocupa técnico da equipa. Para Armando Sebastião Damião, os parcos recursos que saem dos bolsos dos dirigentes dos clubes não chegam para tudo, razão que o leva a apelar a todos os angolanos por mais atenção e para o bem do "nosso desporto".O Mucondo FC procura honrar os compromissos com os atletas e com os técnicos, ante a dificuldade. Damião revela que a direcção paga cinco mil kwanzas de prémios de jogo e um prémio que varia entre quinhentos e mil kwanzas diariamente para transportação de casa para os treinos e vice-versa. O jovem técnico diz sentir-se abalado pela entrega do campo de treinos a uma empresa plástica, pois "ameaça o futuro da equipa e os tempos de lazer dos cidadãos".« Equipa está preparada para vencer `Nacional´»O Mucondo Futebol Clube tem um lote de jogares que dão garantias de fazer um bom Campeonato Nacional Girabairro - Taça do Presidente. A afirmação é de Armando Damião, técnico principal da equipa. A equipa foi a melhor do Girabairro provincial, "porque os resultados alcançados falam por si". Durante a competição provincial, o conjunto fez mais de 50 jogos e perdeu apenas três vezes. São indicativos suficientes que sustentam o sonho de conquistar a primeira edição do Campeonato Nacional de Girabirro.O Campeonato Nacional já fez disputar três jornadas e o Mucondo FC soma seis pontos, fruto de duas vitórias diante das epresentantes da Lunda-Sul e de Cabinda. Sangue Novo, como também é conhecido Armando Damião, disse que a meta é a conquista do título embora se preveja difícil, devido aos custos que abarcam a competição, sobretudo, as despesas com alojamento.O Movimento Nacional Espontâneo, entidade que organiza e realiza os jogos, responsabiliza-se apenas pela transportação e alimentação das equipas.« Destruição do campoentristece moradores »João Manuel, adepto ferrenho da equipa, está confiante na conquista do título nacional. O jovem afirma que o Mucondo reúne requisitos para fazer uma prova tranquila, porque no país não existem equipas com um plantel acima do Mucondo. João Manuel apela a todos luandenses para que apoiem a equipa em várias vertente por ser a representante da capital e luta para realizar uma prova digna para gáudio de todos habitantes da Cidade da Kianda.Gomes da Silva, também conhecido por ‘Man Gomito’, amante do futebol desde a tenra idade, conforme fez questão de referir, está totalmente magoado pelo facto de a Administração do Cazenga ter cedido o Campo da Refrinor a uma empresa de plástica."É o único campo no bairro, onde treina o Mucondo FC, cuja actividade constitui um dos maiores divertimento de todos moradores. A destruição vai trazer desgraça no bairro, porque os miúdos vão voltar à bebedeira e aos roubos", disse.Gomes Silva diz que gosta de futebol desde pequeno e nunca viu coisa igual a que está a ver actualmente. "Nesse Campo, já passaram grandes jogadores como Abel Campo, do Petro de Luanda, Boavida e Guigui, guarda-redes do Independente do Rangel; Joni, que jogou na Selecção Nacional, actualmente no comando técnico do Nacional de Benguela; assistimos aos jogos do inesquecível torneio os Caçulinhas da Bola. Hoje, ver esse campo a ser destruído como um brinquedo se tratasse e ninguém diz nada, dói muito à alma", lamenta.Adelina Kiadi, moradora do município há mais de 20 anos, diz que está preocupada com a entrega do campo a uma fábrica de plástica e considera "uma grande falta de respeito aos moradores, porque o campo existe há muitos anos e é o único que resta para que os nossos filhos se divertam e abandonem a delinquência", disse. Dona Adelina, como é chamada, pede às pessoas de direito que intervenham rapidamente no assunto, a fim de se evitar o pior, porque com o desaparecimento do recinto, a equipa do Mucondo também corre o risco de desaparecer. O Campo da Refrinor tem uma grande importância para todos os munícipes porque "além de albergar o futebol masculino, o espaço abriga igualmente o futebol feminino. “Nos dias de jogo, vendemos gasosas, bolachas, sandes e outras coisas boas, o bairro fica bem movimentado com músicas e outras brincadeiras bonitas que nos tira do mundo do stress", assevera.Madalena Maurício é uma antiga praticante de futebol e lamenta a forma como a Administração quer acabar com o campo que marca a fase da sua vida desportiva. A jovem de 29 anos de idade afirma que foi nesse recinto, onde começou o gosto pelo desporto. Da sua memória saem recordações. Nesse espaço, realizaram-se muitos eventos como maratonas, encontros de amizades, concentrações para campanha de limpeza, entre outras coisas boas para "a nossa população".Agora, com a destruição, "não sabemos qual será o futuro desses munícipes em todas as vertentes culturais e desportivas".O futebol feminino marcou uma etapa importante naquele espaço. "Foi aqui, onde comecei a jogar a bola e mais tarde surgiram outras colegas. Hoje, muitos jovens, adolescentes e crianças encontraram aqui o local para se recrearem. Com o seu final, a Polícia comece a preocupar-se com mais um espaço em Luanda para delinquência", rematou. Madalena Maurício reconhece que o Mucondo FC tem sido das poucas equipas que dá um grande apoio ao desporto no bairro e, caso o campo desapareça, vai matar todas as actividades recreativa no município do Cazenga.Madaleno junta a sua voz a demais munícipes e apela à Administração do Cazenga no sentido de "pensar melhor ou retribuir um espaço semelhante para que o Mucondo FC não se extinga; é a representante legal da província de Luanda no Campeonato Nacional Girabairro/Taça do Presidente e deve merecer o carinho de todos os luandenses, no geral, e dos munícipes, em particular". O município da Cazenga é um dos mais populosos de Luanda a par de Viana e alberga um grande número de desportista que movimenta o município nas mais variadas modalidades desportivas, nomeadamente, basquetebol, futebol, atletismo e futebol de salão entre outras aos fins-de-semana. No tempo de outra senhora, era igualmente o município que reunia o maior número de campos de futebol. Infelizmente, nos dias correntes, o município assiste com certa mágoa à nuvem preta que pinta o quadro desportivo com o desaparecimento vertiginoso dos campos de futebol. Começou com os campos da Fama, Nocal, Siga, do 4 de Fevereiro, do Independente do Rangel, 13 de Setembro, Kwanzas e, parcialmente, o do Bairros Unidos.