Jornal dos Desportos

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Reportagens

O resgate do Prenda

Francisco Carvalho - 29 de Abril, 2016

Antigo basquetebolista aposta na formação de atletas na comunidade

Fotografia: Paulo Mulaza

No sonho da criança, a bola tem um lugar especial. Atinge latitudes das constelações.  É tão alto como o firmamento. A cada noite, o desejo de ser profissional e famoso cresce no peito ofegante. Embrulhado no sonho, vê-se entre as grandes estrelas mundiais. Kobe Bryant. Stephen Curry. Um sorriso contenta-lhe a alma. A inocência vagueia no vazio. É a satisfação pelo sonho concretizado.  Sem presente. Sem futuro.

A caminho da escola, uma bola improvisada alegra-lhe a perna ou a mão. Um garrafa de plástico serve para marcar o golo. O remate para a baliza imaginária encanta-lhe a alma. Um sorriso de felicidade exibe nos lábios. "Sou craque", diz para si mesmo.

Em cada esquina do bairro Prenda, há uma criança prendida aos sonhos. Movido pelo sentimento bairrístico, o antigo basquetebolista Idelfonso esvaziou os bolsos para dar corpo a um projecto de formação de desportistas. Sem olhar aos custos, ergueu na circunscrição do distrito da Maianga, em Luanda, o Grupo Desportivo Kiteculo. Um clube embebido pelo sonho. De crianças. Jovens. Adolescentes.

O ex-atleta tem mil razões para a criação de um clube no bairro em tempo de crise: "Estamos cansados da delinquência". Kiteculo aposta no resgate de valores.  Não só morais. O do nome Prenda também. Uma circunscrição repleta de histórias.

Prenda tem registo de grandes desportistas. Deu à selecção portuguesa, Gil Gomes, irmão de António Gomes, actual Director Nacional dos Desportos e antigo futebolista Toni Estraga. Tem Miller Gomes, o actual treinador do Kabuscorp do Palanca. A esses nomes juntam-se aos de basquetebolistas Garcia Domingos, Idelfonso Kiteculo, Izequiel da Silva, Milton Barros e o futebolista Manucho Barros. São ídolos acarinhados no bairro.

Para contornar a delinquência e preservar a imagem do nome Prenda no mosaico basquetebolístico, Kiteculo trabalha com 380 crianças no campo erguido entre os Lote 4 e 5. Um espaço exíguo para centenas de crianças. A vontade de trabalhar é grande, mas não há outra alternativa. Os recintos, que outrora viram nascer os craques, foram invadidos pelos casebres. Sem opção, trabalha em regime bi-diário no único campo da circunscrição.

No período vespertino, Kiteculo é obrigado a deixar a quadra para os mais adultos. De professor, passa a espectador. De mãos atadas, junta-se nas bancadas a seus pupilos, outras vezes, em companhia de pais e encarregados de educação, e partilham as fintas e os golos de futebol de salão.
"Amamos essas crianças e esperamos que sejam pessoas influentes com boa educação para o bem da sociedade", disse.

Kiteculo decidiu começar o projecto sem as condições necessárias e está ciente do risco do investimento . Aporta o futuro no Deus que professa: "tenho fé que um dia possa aparecer um patrocinador para suportar os custos".

As aulas de basquetebolistas começa sempre com a oração a Deus. Kiteculo justifica que a busca pela orientação divina é "importante". Desde a implementação do projecto a 15 de Março de 2016, o número de delinquentes reduziu no bairro.

"Aqueles que não tinham ocupação, encontraram nos treinos a cobertura de tempos livres. As crianças, que andavam à toa, hoje, têm um comportamento diferenciado. Passam mais tempo com os treinadores, nas escolas e em casa. A rua deixou de ser o local certo", descreveu os benefícios.

A título de exemplo, citou quatro adolescentes que atormentaram os cidadãos do bairro  no calor da noite. Eram "delinquentes com alta precisão de ataque". Desde a integração ao projecto, são "orgulho" das suas famílias, vizinhos e treinadores.

O ex-atleta confidenciou que recebe apoio moral de encarregados de educação. A alteração da conduta dos filhos tem reflexo positivo na relação familiar. São mais cooperativos e abertos. Na escola, são mais sociáveis.

 Kiteculo exprime que "uma mente vazia é uma oficina de delinquência".


HISTÓRICO
Treinadores


IDELFONSO KITECULO
Idelfonso Carlos Kiteculo nasceu no Namibe em 27 de Março de 1981. Tem 35 anos de idade e foi ex-basquetebolista com passagem em diferentes equipas do mosaico desportivo nacional. Iniciou a prática desportiva em 1996 por incentivo dos irmãos. Depois , fortaleceu a técnica no Clube Amigos de Benguela (CAB).  Em 1997, inscreveu-se como atleta profissional no Petro de Luanda, onde passou nos escalões juvenil, júnior e sénior, sob suporte técnico do malogrado Waldemiro Romero. Depois, teve como treinador Nuno Teixeira, Vitorino Cunha, Raul Duarte e Alberto de Carvalho "Ginguba".

Depois de deixar o Petro de Luanda, Idelfonso Kiteculo jogou no Atlético Sport Aviação (2007-2009) e Recreativo do Libolo (2011).  Antes de integrar a equipa do Cuanza Sul, passou no Petro Luanda (2010).

Abandonou a carreira desportiva para apostar no mundo empresarial. É dono de uma empresa do ramo de construção civil e agente de venda de gás butano.

IZEQUIEL DA SILVA
A convite de Idelfonso Kiteculo, o basquetebolista aceitou integrar o projecto. Izequiel da Silva nasceu em Luanda a 25 de Novembro de 2988 no bairro Prenda. Teve a formação desportiva no ASA. Estreou a carreira profissional no CDUAN, depois transferiu-se para Desportivo da Huíla, onde teve como técnico Manuel Trovoada.

Em 2008, integrou a equipa doLibolo com Raul Duarte. Em 2013, transferiu-se para Sporting de Cabinda com Alberto de Carvalho "Ginguba". Em 2014, com Alberto de Carvalho, transferiu-se para Interclube.
Em 2015, assinou contrato com  Libolo, sob a orientação técnica de Norberto Alves. Por contrair lesão, sofreu duas cirurgias na perna esquerda. Nesse momento, está em recuperação.

REBECA JACINTO ADÃO
É professora de Educação Física no Colégio Redentor. Tem 30 anos de idade e integra o projecto a convite de Idelfonso Kiteculo. A experiência pedagógica tem sido fundamental na relação com as crianças.


FORMANDOS
Crianças aspiram NBA e WNBA


A cada exercício, o sorriso mistura-se com o barulho. É a dieta de cada aula. Conversas avulsas convergem-se com os gritos dos treinadores. A paciência do grupo orientador une-se à inocência das crianças e adolescentes. Palmas e palmas. Uma dança e uma oração. É o ritual. Começa a sessão de treinos. Grupos repartidos. O aquecimento. Alongamento. Exercícios com bola. O momento mais feliz.

Enfileirados, as crianças batem a bola numa sequência uniforme. Noutro lado, os exercícios físicos preparam a musculatura. A divisão de grupos tem uma explicação: o número reduzido de bolas não permite juntá-los. É a rotina dos primeiros meses.

"Todos os dias chegam crianças novas ao projecto e somos obrigados a recebê-los", explica Idelfonso Kiteculo.

Cada um com o seu equipamento, mormente camisola, calção e sapatilhas, procura aprender o ABC de basquetebol. No íntimo, também há objectivos diferenciados. Uns propõem-se a ser estrelas do basquetebol nacional, outros querem integrar nas equipas da NBA. São sonhos altos. Realizáveis. Não impossíveis. Kiteculo está feliz pela ambição.

Ivandro Fernandes tem 13 anos de idade. Influenciado por um amigo, experimentou jogar o basquetebol e gostou. Desde então, colocou metas altas sem abdicar dos estudos.  O aluno da 8ª classe, na Escola Óscar Ribas, na Maianga, é adepto do 1º de Agosto. "Espero continuar a treinar até entrar numa equipa profissional no país", disse.

Manuel Carruagem Napoleão tem 12 anos de idade e foi influenciado a jogar basquetebol por um amigo que desistiu do projecto. O menino nascido no bairro Catambor evitou seguir o destino de Clélsio, porque leva na sua carruagem Leonel Paulo. Diz ser adepto do Petro de Luanda e inspira-se no estilo de jogo do extremo angolano.

Edmilson Bernardo tem 13 anos e estuda a 9ª classe na Escola Trabalho e Luta. Entrou no projecto por "vontade própria". É adepto do Recreativo do Libolo e fã incondicional de Carlos Morais, a sua fonte de inspiração. O seu sonho é jogar na equipa sénior do 1º de Agosto.

Tiuba Natiavala Francisco tem 14 anos de idade e estuda a 9ª classe no Colégio Redentor. Entrou no projecto depois de ter sido contactada pelos treinadores. Do lote das opções das modalidades, escolheu o basquetebol.

"Quero ser jogadora profissional para representar a selecção nacional e ser conhecida no mundo", esclareceu.

Tiuba afirmou que a sua dedicação aos treinos é feita com seriedade, porque todos os dias quer aprender a fim de ser jogadora profissional. "O meu destino é jogar na WNBA, mas antes quero brilhar no 1º de Agosto", frisou.

Karen Letícia Gonçalves Zego tem 14 anos de idade e estuda a 7ª classe no Colégio Redentor. A menina diz ter sido influenciado pelo pai, António Pedro Lopes Zego. No álbum familiar, o patriarca tem registo de muitos jogos de rua que faz questão de exibir aos filhos com orgulho. São os bons tempos da sua vida juvenil. Para Karen, a escolha de basquetebol resulta do "gosto".

Karen aspira também jogar no 1º de Agosto, clube de que é adepta, e integrar na selecção nacional. "Estou a fazer esforços para aprender bem a fim de atingir os meus objectivos", disse.

Lúlia da Graça Agostinho Cabral tem 10 anos de idade. A menina nascida em Luanda diz que gosta de basquetebol. Uma razão está detrás da escolha: "ensina muitas coisas úteis". Para além de jogar, aprende a respeitar a colega e a adversária em campo. Lúlia é adepta do 1º de Agosto, porque "tem muitos títulos de campeã nacional e gosta das integrantes da equipa".

As aspirações das crianças do bairro Prenda são movidas pelo sentimento da fraternidade. No intuito de se projectar ao mundo, vão carregar a bandeira de uma nação em transformação. A responsabilidade da mudança é transmitida por uma geração de jovens, que em tempos difíceis ergueram a bandeira de Angola em diferentes palcos mundiais.


PROJECTO EM CARTEIRA
Kiteculo aposta no andebol e futebol


Concebido a 15 de Fevereiro de 2015 e lançado a 15 de Março, o Grupo Desportivo Kiteculo começou com o basquetebol, modalidade de eleição do seu mentor. Em mais ou menos um mês, 380 crianças encontraram espaço para passar o tempo livre e aprender os valores morais. Desde o lançamento do projecto, os professores asseguram que há poucas crianças das redondezas a circular na rua. O efeito é positivo.

Para dar corpo e cimentar as valências do grupo, Idelfonso Kiteculo projectou o lançamento de outras modalidades desportivas. Da conversa mantida com as crianças, que não se identificam com o basquetebol, constatou que o andebol goza de boa reputação. Os onze títulos conquistados pela selecção nacional sénior e outros tantos no escalão júnior feminina tenham influenciado na escolha.

Para tornar realidade o desejo das crianças, o antigo basquetebolista recorreu à antiga capitã da selecção nacional de andebol, Elisa Manuel Brito Webba "Lili", para colher subsídios que visem a implementação do andebol. A satisfação das crianças está adiada. Até o momento, não está concebido o projecto. Kiteculo está com esperança renovada, que a mãe do andebol do Petro de Luanda vai dar um aperto de mão  para o bem de centenas de crianças do bairro Prenda.

Sem espaço para 380 crianças de basquetebol, o minúsculo campo do Lotes 4 e 5 vai acomodar também o andebol. "Não há outro na comunidade", disse.

O desporto-rei não está de fora. O futebol vai contar com apoios de dois nomes recentes do Girabola: Dias Caires e Gazeta. As antigas estrelas do Petro de Luanda vão assegurar a formação de crianças do Grupo Desportivo Kiteculo. O grupo vai trabalhar fora da circunscrição do Prenda. Não há espaços para desporto. O único, que restava junto ao Lote 14, está ocupado por um cidadão. O recinto está vedado e as crianças e jovens não podem travar um trumunu como habitualmente faziam. Para aliviar a pressão, a delinquência é a saída.

Dias Caires e Gazeta vão trabalhar para transformar as almas perdidas da sociedade. As do bairro Prenda perderam a carruagem. Não há comboio. Vão ser substituídas por outras de Viana, mas com a mesma finalidade: formar futebolistas do amanhã.

Os custos de formação são assumidos por Kiteculo. O antigo basquetebolista acumulou rendimentos, enquanto atleta, que lhe permitiram criar uma empresa.