Jornal dos Desportos

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Reportagens

O sonho ibérico

19 de Novembro, 2010

Espanha é a selecção campeã do mundo

Fotografia: AFP

Dois países, uma península e um sonho: organizar o Campeonato do Mundo de 2018. É esta a mensagem principal que foi passada no particular de quarta-feira entre Portugal e Espanha no Estádio da Luz, em Lisboa, numa das últimas oportunidades de “seduzir” a FIFA antes do anúncio da candidatura vencedora, marcado para dia 2 de Dezembro.

A ideia de uma candidatura partilhada entre os dois países nasceu, quando a Espanha já tinha expressado o seu interesse em organizar a prova e, depois de alguns avanços e recuos no processo, a candidatura conjunta acabou por ser oficializada a 23 de Dezembro de 2008, baseada na ideia de “dois países com fronteiras comuns nos mapas, mas, na realidade, sem linhas divisórias do quotidiano”.

Num molde bem diferente daquele que foi utilizado em Portugal para o Euro’2004, o projecto não contempla a construção de vários estádios novos, apostando maioritariamente na remodelação de infra-estruturas já existentes, sendo que os cinco novos recintos projectados (Bilbau, Madrid, Saragoça, Málaga e Valência) serão construídos independentemente da atribuição do Mundial a Portugal e Espanha.

A candidatura ibérica começou por ter como alvo a organização de uma das duas edições (2018 e 2022), pois, pela primeira vez na história do organismo, a FIFA decidiu atribuir a organização de dois Campeonatos do Mundo na mesma data. No entanto, seguindo à letra a política de rotatividade que impôs para os Campeonatos do Mundo, o organismo máximo do futebol mundial decidiu atribuir a edição de 2018 a um país filiado na UEFA, delimitando o lote de candidatos a Portugal-Espanha, Inglaterra, Rússia e Bélgica-Holanda.

Nas inspecções realizadas pela FIFA, os alicerces da candidatura ibérica foram largamente elogiados pelo chileno Harold Mayne-Nicolls. O chefe dos avaliadores considerou os estádios visitados “cenários ideais para um Mundial” e teceu vários elogios a nível da “segurança, comodidade e pontualidade”, merecendo destaque a ligação de alta velocidade em território espanhol.

Particularidades
da candidatura

São candidatas a acolher o evento 18 cidades: Corunha, Alicante, Badajoz, Barcelona, Bilbau, Gijón, Lisboa, Madrid, Málaga, Múrcia, Porto, San Sebastián, Santander, Saragoça, Sevilha, Valência, Valladolid e Vigo. Seis destas cidades vão ser descartadas, pois a FIFA só permite um total de 12 sedes. A Final seria jogada no Estádio Santiago Bernabéu, em Madrid, e o jogo inaugural no Camp Nou, em Barcelona. O jogo do terceiro e quarto lugar está marcado para o Estádio do Dragão, no Porto.

As duas meias-finais do Mundial’2018 serão jogadas no Estádio da Luz, em Lisboa, e no Novo Mestalla, em Valência. Sete dos estádios apresentados pela candidatura ibérica estão qualificados com a categoria máxima pela UEFA: Camp Nou (Barcelona), Santiago Bernabéu (Madrid), Olímpico Lluis Companys (Barcelona), Olímpico (Sevilha), Estádio da Luz (Lisboa), Estádio José Alvalade (Lisboa) e Estádio do Dragão (Porto).

DATAS-CHAVE
23/12/2008 Oficialização da candidatura conjunta de Portugal e Espanha.
22/01/2009 Candidatura expressa, junto da FIFA, o interesse em organizar as edições de 2018 ou 2022 do Mundial.
12/03/2009 As duas federações confirmam o Registo de Candidatura na FIFA.
29/10/2009 Apresentação do logótipo oficial da candidatura na sede da FPF, em Lisboa.
02/12/2010 Data em que é anunciada a candidatura vencedora na corrida ao Mundial’2018.

As fortes candidaturas adversárias

Inglaterra em
busca de vingança 
Depois de uma derrota para a Alemanha na corrida ao Campeonato do Mundo de “2006, os ingleses não admitem mais deslizes na tentativa de “trazer o futebol de volta a casa”. Com uma candidatura forte e bastante apoiada a nível governamental, a Inglaterra é apontada como uma das grandes favoritas a vencer a corrida. Pormenores. Organizaram o Mundial em 1966 e o Europeu em 1996. Recusaram a hipótese de a organização ser estendida a outros países da Grã-Bretanha.

Rússia violência
pode comprometer

Inserida num plano abrangente de modernização do futebol local, a candidatura russa tem recolhido muita simpatia junto da FIFA. No entanto, o projecto tem sido manchado pelas recentes manifestações de hooliganismo por parte de adeptos russos em Moscovo e São Petersburgo, as duas principais sedes da candidatura. Pormenores. Está prevista a construção de seis estádios novos. País não recebe uma grande competição internacional desde os Jogos Olímpicos de Moscovo em 1980, data anterior à desagregação da União Soviética.
 
Bélgica-Holanda
ainda falta um "gigante"
Qualificada como a candidatura mais discreta - por não ter sido envolvida em acusações de corrupção -, a parceria entre a Bélgica e a Holanda sofre com a inexistência de um “gigante” para albergar a final. A FIFA exige um estádio com capacidade para 80 mil espectadores, e teme-se que o projecto para um novo estádio em Roterdão não seja aprovado a tempo. Pormenores: Candidatura pode sofrer com a instabilidade política na Bélgica, com potencial para levar à dissolução do país. Os dois países organizaram em conjunto o Europeu de 2000.

Acusações mancham corrida

A corrida aos Campeonatos do Mundo de 2018/2022 tem sido manchada por acusações de corrupção trocadas entre as candidaturas, que acusam o inovador sistema de atribuição de duas edições na mesma data de favorecer a criação de alianças. A candidatura ibérica foi acusada pela Inglaterra de ter feito um acordo com o Catar - concorrente à edição de 2022 - para assegurar sete votos, mas as acusações foram prontamente negadas por Gilberto Madaíl, presidente da FPF, e Laurentino Dias, secretário de Estado da Juventude e Desporto.

Por seu lado, a candidatura inglesa e a russa enfrentam acusações de terem feito um acordo com as candidaturas norte-americana e australiana, respectivamente. Todas estas suspeitas desencadearam uma autêntica caça às bruxas que culminou com o afastamento de Amos Amadu e Reynald Temarii - representantes da Nigéria e do Taiti no Comité Executivo da FIFA (organismo que decide a atribuição dos Mundiais) - por terem sido apanhados a vender votos a um consórcio de empresas norte-americanas pela Imprensa britânica.

O nigeriano Amos Adamu foi suspenso de todas as actividades relacionadas ao futebol durante três anos e multado em 10 mil francos suíços (10.130 dólares), enquanto Reynald Temarii, do Taiti, foi banido por um ano e multado em 5 mil francos suíços (5.065 dólares). Outros quatro dirigentes da Fifa foram suspensos e multados, incluindo Slim Aloulou, presidente do comité da FIFA que resolve disputas entre clubes, jogadores e treinadores.

“Enquanto eu estiver no comité de ética, vamos ter uma política de tolerância zero para todas as violações”, disse o presidente do comité de ética, Claudio Sulser, após três dias de reunião do órgão para avaliar o caso. “Não queremos burlões, não queremos doping, não queremos que nenhum abuso seja aceite”, acrescentou. A Fifa afirmou que todos violaram o código de ética da entidade.

Sistema de votação
mantém as regras


O sistema de votação será o mesmo já utilizado para eleição das sedes para os dois últimos Mundiais, ou seja, idêntico ao que se realiza no Comité Olímpico Internacional (COI), quando se elege a sede para a celebração dos Jogos, pelo que se vão realizar várias rondas de votação até se conseguir que um país consiga a maioria absoluta. A diferença é que o Comité Executivo do COI tem 115 membros, enquanto o da FIFA tem apenas 24, sendo que, por causa da suspensão de dois membros por alegada corrupção, ficou reduzido a apenas 22 elementos.