Jornal dos Desportos

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Reportagens

Odeth Tavares feliz pelo dever cumprido

Avelino Umba - 13 de Março, 2010

Maria Odeth Tavares, capitã da Selecção de Andebol de Angola

Fotografia: Jornal dos Desportos

Qual é o seu sentimento depois de mais um título de campeã africana?
Feliz, honrada e com o sentimento do dever cumprido, uma vez que nem todas as atletas têm o privilégio de ser dez vezes campeãs africanas. Estamos de parabéns, duma forma geral, e, por conseguinte, quero agradecer a todos os que nos apoiaram, directa ou indirectamente, para que o 10º título fosse um facto.

Está há 13 anos de Selecção de Angola. Que avaliação faz desse período?
Foi positivo. Comecei muito cedo no andebol, isso em 1997. Tive um pequeno interregno, por motivos familiares, na altura em que tive o primeiro filho. Considero ter tido um bom desempenho, até porque em todos os campeonatos africanos que participei, foi com muita dedicação, no sentido de obter resultados positivos. O mesmo digo dos Pan-africanos, dos quais ganhei dois e perdi um. 

Fale da sua prestação em campeonatos do mundo...
Quando comecei a participar em campeonatos do mundo foi muito difícil, porquanto não conseguíamos, às vezes, ganhar pelo menos a uma equipa. As poucas que lográvamos vencer estavam a um nível muito abaixo de nós. Com trabalho e dedicação, fomos nos aplicando cada vez mais, não só ao nível das atletas, mas também a partir dos investimentos feitos pela Federação Angolana de Andebol e da aposta do Ministério da Juventude e Desportos e do Governo em si, no sentido de chegarmos a este patamar que África e o Mundo reconhecem e respeitam.

O que ganhou durante este tempo em que esteve na Selecção de Angola dá para viver?
Não diria que dá para viver, mas para sobreviver, isso é, juntar o que ganhamos nos clubes, abrir um pequeno negócio ou qualquer coisa que auxilie os ganhos de cada dia no sentido de as "panelas não entrarem de férias", como se diz na gíria. Não podemos ficar pelo andebol, embora seja este o nosso trabalho, o que podemos considerar como o nosso emprego. Se juntarmos outros negócios, podemos estabilizar a nossa vida.

Sente-se realizada?
Não diria realizada, mas também não estou muito mal. Graças a Deus, o pouco que tenho dá para aguentar a minha vida e da família.

Valeu então a pena apostar no andebol?
Acredito que sim. Não o digo apenas pelo dinheiro, mas pelo gosto que tenho pela modalidade. Tenho o andebol no sangue. Se assim não fosse, muitas atletas deixariam a modalidade muito cedo. Sem medo de errar, carrego na veia o desporto em geral e andebol em particular, razão pela qual muitas de nós ficam mais tempo a jogar na selecção e nos clubes.

A geração a que pertence está a retirar-se das quadras a cada dia que passa...
É como tudo...Cada coisa a seu tempo. Há quem fique mais e quem fique menos. Tudo depende da forma de estar, física e psicologicamente. Quando chegar a vez de pendurar as botas, não há como evitar, sobretudo quando se está com a idade avançada.

É já altura de renovar a nossa selecção?
Não quero precisar o tempo em que a selecção deve ser renovada. Como disse, ninguém é vitalício. A atleta pode estar bem hoje e mal amanhã. Vai à selecção quem está bem e julgo que o processo de renovação não tem uma data ou tempo determinado.

"Quero massificar o andebol em Benguela"

A questão da premiação aos integrantes das várias selecções nacionais tem sido muito badalada. O que pensa a respeito?
Neste momento, não estou em condições de falar sobre esse assunto.

Neste particular, o que acontece nos clubes?
Não tenho razão para queixas em relação ao meu clube. Se assim fosse, passaria primeiro por um diálogo, no sentido de tirar tudo a limpo e as partes encontrarem uma solução.

Tem algum projecto ligado ao andebol?
Tenho em Benguela, onde pretendo trabalhar com escalões de formação para massificar a modalidade. Benguela já foi o viveiro de andebol nacional, mas hoje baixou muito, facto que me preocupa bastante, até porque vim de lá. Pretendo que Benguela retome o seu lugar no andebol do país.

Já tem as coisas alinhavadas?
Vou tentar identificar um espaço para, numa primeira fase, fazer um campo, no mínimo, para as crianças vindas das comunidades praticarem a modalidade. Já existe um esboço feito e, dentro de alguns dias, penso dar outros passos. Vamos tentar pedir ao governo local para trabalharmos em conjunto.

A expectativa criada pela Lei do Mecenato

Fale do 1º de Agosto, o seu actual clube?
Estou bem, graças a Deus. Encontrei estabilidade, tanto no seio dos colegas quanto da própria direcção. Tenho o presidente do clube como um pai, pois muitas vezes tira do seu bolso para não deixar mal a modalidade. Tenho uma grande aceitação não só da parte das colegas, como do treinador e de toda a equipa. Acredito que quando se está a trabalhar num local onde a nossa mente não é perturbada, as coisas correm de forma positiva.

O actual elenco federativo promete apostar mais no andebol feminino. Uma opinião...
Acredito que o elenco federativo não só aposta no andebol feminino, mas também no masculino, no sentido de fazer, nos próximos anos, um bom campeonato africanos sobretudo em masculinos.

Recentemente, foram recebidas pelo Presidente da República. Que mensagem vos foi transmitida?
Fomos bem recebidas pelo mais alto mandatário do País, o presidente José Eduardo dos Santos. Incentivou-nos bastante e reconheceu o grande esforço que temos feito em nome do país.

E pela Assembleia Nacional?
De igual modo, a casa das leis não deixou de reconhecer os nossos feitos. Fiz um discurso em que falei da necessidade da Lei de Mecenato. Fico satisfeita, depois de ter lido no Jornal dos Desportos que os deputados se estavam a debruçar sobre o assunto.

Já agora, fale um pouco sobre a Lei de Mecenato que tanto defende?
É para que, quando deixarmos de jogar na selecção, possamos ter uma reforma condigna. O que significa a possibilidade de o antigo praticante ter um subsídio mensal, a ser estipulada pelo governo, como se de um funcionário público se tratasse.

Da "garrafinha"
ao profissionalismo

Como a Odeth aparece no andebol?
Ainda pequena, jogava "garrafinha". A dada altura, fui convidada por uma amiga a assistir a um jogo de andebol, algo que muito me comoveu. Passados alguns dias, em 1987, achei por bem treinar andebol. Ainda descalça, porque não tinha sapatilhas apropriadas, comecei a fazer gosto às mãos, com ralhetes dos meus pais à mistura. Na visão dos meus pais, o andebol era uma modalidade para homens. Fui treinando à revelia dos pais, até passar à categoria de juniores e chegar aos seniores. Depois, foi só seguir e até me tornar a atleta que sou hoje.

Teve alguma influência na família?
A minha irmã mais velha também jogou andebol e, de uma ou doutra forma, teve influência na minha carreira, embora ela tenha parado muito cedo.

A idade não perdoa. Quantos anos ainda pensa jogar?
Cada dia que passa, a idade aumenta. A Odeth de hoje não é a mesma de ontem, pois as responsabilidades aumentaram, tenho filhos para cuidar, etc. Acredito já não tenho muito tempo para jogar, mas o futuro só a Deus pertence. Vamos ver como vão andar as coisas daqui para a frente.

Mãe, esposa e atleta, como se sente quando está numa competição fora do país?
Uma mãe é sempre uma mãe. A prestação tem sido boa, mas há aqueles momentos em que fico a pensar na família. De qualquer maneira, entrego tudo a Deus, através das pessoas que ficam a cuidar dos meus filhos. Quando regresso, tudo é felicidade, depois de mais uma missão em prol da pátria. Portanto, ao meu esposo, à minha irmã e à família toda, os meus agradecimentos e o respeito por tudo o que têm feito por mim.

Que apelo deixa às escolas de formação?
Gostaria que houvesse grandes investimentos nos escalões de formação para que as gerações vindouras viessem a assegurar o futuro da modalidade, visto a mesma ter atingido grandes patamares em África e no Mundo.

>> Por dentro

Nome: Maria Odeth
Sanches Tavares
Data de nascimento: 18/8/1976
Naturalidade: Benguela
Nacionalidade: Angolana
Estado Civil: Solteira
Formação académica: 12ª Classe
Formação profissional: Técnica média de enfermagem
Filhos: Dois
Peso: 74 Quilogramas
Altura: 1.70 metro
Número do calçado: 41
Clube do coração:
Nacional de Benguela
Desporto ideal? Andebol
Prato preferido: Cachupa
Tabaco: É contra
Droga: É contra
Bebidas: Água e sumos
Poligamia: É contra
Maior defeito: Teimosia
Perfumes: Nina Rice
Cor: Azul
Religião: Católica
Segue à moda? Não
Calor ou cacimbo? Cacimbo
Príncipe encantado: O esposo