Jornal dos Desportos

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Reportagens

Optimismo e descrença na Académica

Júlio Gaiano, no Lobito - 13 de Agosto, 2010

Sede da Académica vai merecer novo tratamento

Fotografia: Jesus Silva

A assembleia-geral extraordinária que elegeu a nova direcção da Académica Petróleos Clube do Lobito, liderada por José Bento Cangombe, continua a merecer comentários díspares nos distintos círculos do desporto local. A ausência de algumas pessoas-chave para a união do clube está na base das lamúrias que se fazem ouvir nos vários círculos desportivos das terras lobitangas. São homens que continuam reticentes quanto à validade da sessão que ditou a eleição da direcção liderada por José Bento Cangombe.

Os dirigentes desportivos ligados ao clube procuram, a todo o custo, minimizar a cena, ou seja, tentam “tapar o sol com a peneira”, dando a entender que está tudo bem e que a crise faz parte do passado, remetendo-a para o esquecimento. Nos bastidores, as notícias que rolam, aumentam ainda mais o cepticismo dos homens que lidam com a análise desportiva local. A problemática reinante no seio da Académica continua longe do fim. A presença de pessoas ligadas às crises do passado na direcção está na base da contestação passiva que se faz sentir.

Todo o mundo comenta. Para muitos, com as ausências do presidente cessante, Paulo Rangel, e do coordenador da Comissão de Gestão, António Costa, ficou provado que algo de fundo deve ser feito, como identificar as causas e atacar, de forma radical, os efeitos, para evitar a constante repetição de erros cometidos nas anteriores lideranças. “É preciso sacrificar homens para salvaguardar o bom-nome do clube, que já se tornou numa marca do município”, afirmou um dos lobitangas ouvidos pela nossa reportagem.

As pessoas contactadas acrescentaram que a ausência dessas duas importantes figuras do desporto na província tirou algum peso no conclave, motivando especulações (e preocupações) entre os apoiantes do clube, que sempre defenderam uma direcção unida e forte do ponto de vista da organização e disciplina. A referida assembleia, que aconteceu a 24 de Abril e elegeu José Bento Cangombe, contou com a participação de cerca de 300 apoiantes, tendo apenas exercido o direito de votos 44 sócios, tendo 42 votado a favor e dois nulos.

Um processo marcado pelo negativismo, se levarmos em consideração o número de apoiantes presentes no local. Pois que, pelo número de votantes (44), muitos vêm a terreiro questionar se vale confiar na direcção constituída por individualidades com um passado negativo na gestão do clube e resultante de uma auto-eleição. O actual elenco directivo é composto por cerca de 40 membros, alguns dos quais antes considerados avessos ao clube. Daí, a vozearia gerada no seio dos adeptos.

Optimismo e cepticismo
dividem os lobitangas

A Administração Municipal do Lobito e algumas empresas sedeadas na urbe garantem os apoios materiais, morais e institucionais para elevar os níveis desportivos e administrativos do grémio academista que projecta tornar-se num grande clube nacional, apurou o Jornal dos Desportos de fontes afectas à nova direcção do clube. É uma pretensão que começou a ganhar corpo e alguma credibilidade com a inserção de certas individualidades ligadas ao ramo empresarial local no elenco administrativo.

A actual Mesa da Assembleia-geral é liderada pelo administrador municipal, Amaro Ricardo Segunda, que já prometeu muito trabalho para resgatar a mística e o prestígio perdido. A concretizarem-se as ajudas prometidas à nova direcção, vai restar ao presidente Cangombe aglutinar as forças desencontradas para construir uma Académica forte e respeitada, como é seu desejo, da massa associativa e dos adeptos.

Esse facto ficou confirmado no acto de tomada de posse, realizado a 6 de Maio. Na cerimónia, testemunhada por cerca de uma centena de convidados, entre os quais, governantes, políticos e desportistas, o presidente Bento Cangombe, além de ter convidado o seu antecessor, Paulo Rangel, a juntar-se à “família Académica”, num claro reconhecimento do trabalho por si desenvolvido enquanto liderou os destinos do clube, prometeu imprimir nova dinâmica em todas as estruturas do clube.

"Ver para crer"
Apesar dos esforços desenvolvidos pelas entidades lobitangas em torno da “causa” Académica, muitos são os que continuam cépticos devido às experiências vividas nas anteriores direcções. Muito já se falou, inclusive, foram prometidos apoios de todo o tamanho, que falharam na hora da materialização. As desculpas pelos incumprimentos surgiram em catadupa, num desrespeito às palavras dadas nos momentos de festa.

E, como forma de se prevenir dessas tramóias, que já se tornaram tradição na cultura de alguns responsáveis da sociedade lobitanga, muitas pessoas contactadas para se pronunciarem sobre o futuro do clube, face aos apoios prometidos pelas entidades empresariais e administrativas locais, preferiram ser como o discípulo desconfiado, o São Tomé, ou seja, “ver para crer”. Afinal, a ninguém interessa voltar a assistir ao que aconteceu na época passada e que redundou na destituição do presidente Paulo Rangel, que até estava a desenvolver um trabalho aceitável, um ano antes do fim do seu mandato.

Cangombe prioriza
arrumação da casa

O presidente da Académica Petróleos Clube do Lobito, José Bento Cangombe, definiu duas grandes tarefas como prioridade da sua gestão: a organização administrativa e financeira, de forma a estabilizar o clube, e a união da família das terras dos flamingos. A primeira é ensaiada desde a vigência da Comissão de Gestão, cujo mandato cessou em Abril último, com a realização da Assembleia-geral que elegeu a nova direcção. Os primeiros resultados ainda podem ser conhecidos este anos.

Para Bento Cangombe, a par  desta tarefa, a direcção vai continuar a cimentar a união da família academista, adoptando uma cultura de concórdia e respeito mútuo entre os dirigentes, sócios, adeptos e outras entidades a si afectos (atletas, técnicos e funcionários do clube). “Precisamos de acabar com o mito de que a Académica pertence a uma determinada localidade da cidade do Lobito.

A Académica é do Lobito, pertence aos sócios, adeptos, amigos e todos os que a apoiam. Por isso, aceitamos abraçar esse projecto para uni-lo e fortalecê-lo. Já é uma marca do município do Lobito e dos lobitangas. Esta é a segunda tarefa: unir e cimentar a família da Académica Petróleos Clube do Lobito”, frisou. 

Ascensão ao ‘Gira’
seria uma fatalidade

Ao contrário do que a maioria dos adeptos e sócios defendem, o presidente da Académica do Lobito considera prematuro pensar num eventual regresso ao Girabola em 2011. Cangombe defende que muita coisa deve ser feita e ponderada no seio da equipa principal, para evitar os erros cometidos no passado: ter uma equipa que sobe e desce de divisão no ano seguinte. “O nosso desafio é a criação de uma base de sustentação da equipa que compete para dignificar o nosso futebol.

Para isso, precisamos de três anos para estabilizar e dar confiança à equipa principal, a fim de proporcionar resultados que satisfaçam os interesses dos sócios e adeptos”, frisou. O dirigente desportivo assegurou que “não quer uma Académica que ascenda de divisão hoje e desça amanhã”. Mas a presença da equipa na II divisão, não exclui essa hipótese: “Não devemos descurar que estamos a competir na fase de apuramento ao Girabola e daí tudo pode acontecer”.

Uma subida da equipa ao Girabola’2011 constituiria uma fatalidade para aquilo que se tem como o projecto traçado para o futebol sénior do clube nos próximos três anos. “Não quero com isso afirmar que a Académica não esteja preparada para subir este ano ao Girabola, antes pelo contrário. Precisamos de ser honestos sobre aquilo que é a realidade do clube e da equipa sénior. O plantel foi remodelado em cerca de 90 por cento.

Há muitos jovens que subiram de escalão. Por isso, não temos receio de afirmar que uma subida da equipa ao Girabola, nesta fase de remodelação, constituiria numa fatalidade, que iria exigir da nossa parte esforços redobrados de forma a que os resultados a obter em campo dignifiquem o clube, os interesses dos sócios e da massa apoiante”, ajuntou. A Académica do Lobito disputa a fase de apuramento ao Girabola’2011 na Série B, ao lado do Estrela 1º de Maio, Nacional SC e do 17 de Maio, todos de Benguela, Mambrôa do Huambo, Atlético do


Modalidades de sala
continuam em alta

A nova direcção da Académica do Lobito já começa a materializar alguns dos projectos apresentados durante a campanha eleitoral que ditou a eleição por um mandato de quatro anos. Fontes próximas do clube afirmaram que o presidente Bento Cangombe promete continuar a apoiar as modalidades gimnodesportivas, dentre as quais o andebol feminino lidera a lista de prioridades. O andebol feminino, que já deu muitas glórias e alegrias ao clube, vai merecer uma atenção especial da actual direcção.

Vai potenciar-se a estrutura, desde as escolas, passando por escalões subsequentes (iniciados, juvenis e juniores). É o desafio traçado para os próximos dois anos. “A Académica do Lobito não se resume ao futebol. Há, no clube, outras modalidades que, na óptica do presidente Cangombe, devem merecer tratamento de acordo com o peso que possuem no clube.

Por isso, vão continuar merecer a atenção devida da nossa direcção”, revelou uma das fontes que acrescentou a realização em curso de estudos de viabilidade para a abertura de um departamento de hóquei em patins. Presentemente, o clube movimenta o futebol, o andebol e o xadrez. Por dificuldades financeiras, motivadas pelas constantes crises de liderança, o clube extinguiu o atletismo e o ténis de campo.

Sócios reclamam atenção
ao fundador do clube

Apesar de ter estado na base da aceitação do convite para o cargo de presidente da Académica do Lobito por parte de José Bento Cangombe, pouco ou nada se sabe dos seus projectos em relação ao tratamento a dar a Geraldo Terceiro Guiado, fundador do clube, a quem algumas pessoas ligadas à direcção julgam que deve ser dado o devido reconhecimento.

Para alguns associados, o não pronunciamento do presidente Cangombe em relação ao Velho Gigi pode revelar alguma prudência em relação ao assunto, pois se trata de uma pessoa ligada à história do clube mais emblemático do município. Por isso, acreditam ser cedo para tirar ilações. Ninguém da direcção se pronunciou, oficialmente, sobre essa matéria.

Ao contrário das anteriores direcções, esta é a que menos referências faz ao futuro a dar ao fundador da Académica do Lobito. O que deixa muita gente sem entender o que se está a passar. Na verdade, Geraldo Terceiro Guiado passa necessidades de vária índole.

Jorge Valentim defende unidade

Uma das figuras emblemáticas do Lobito convidada a abraçar o projecto da Académica para os próximos quatro anos (2010-2014) é Jorge Valentim, que responde pela vice-presidência da Mesa da Assembleia-geral, um cargo que exerce desde a gestão de Gonçalves Aníbal Rodrigues. Em declarações à imprensa, Jorge Valentim pediu à direcção “maior colaboração e transparência” na gestão do clube e a colocar de parte as querelas entre os dirigentes, técnicos, atletas e sócios para que se constitua uma agremiação forte e unida, que “congregue todas as franjas do clube”.

O também político solicitou que se acabe com “as alas criadas” e não se perca “tempo com querelas”. “Esqueçamos o passado e toquemos para a frente. O que nos une é muito maior do que nos divide. Por isso, vamos aproveitar o momento para juntos trabalharmos em prol do clube”, comentou. No entender de Jorge Valentim, nos tempos que correm, as administrações municipais e comunais, sob orientação dos respectivos executivos provinciais, estão preocupadas com o desenvolvimento do desporto, fruto das novas infra-estruturas, algumas novas e outras recuperadas pelo Executivo Central.

Por isso, cabe a todos os amantes do desporto aproveitarem o momento para olhar o futuro com optimismo. A prospecção de novos valores nos bairros, nas escolas, sem descorar a potencialização dos quadros humanos que trabalham nas distintas áreas, desde os técnicos ao pessoal administrativo, foram, ainda, algumas das propostas avançadas pelo “vice” da Mesa da Assembleia-geral da Académica Petróleos Clube do Lobito.