Jornal dos Desportos

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Reportagens

"Os treinadores de futebol tm dois coraes"

Joo Francisco - On-line - 25 de Maio, 2013

Arnaldo Chaves, antigo futebolista desde os ento torneios corporativos dos anos 60

Fotografia: Jornal dos Desportos

Os treinadores de futebol em qualquer parte, algumas vezes são considerados bestiais, outras bestas. Tão cedo podem estar empregados como desempregados, num ápice. É o caso de Arnaldo Ferreira Júnior, 64 anos, ou simplesmente Arnaldo Chaves, como é conhecido nas lides futebolísticas, que depois de ter passado por muitas equipas, as últimas das quais na província de Cabinda, está novamente no desemprego.

“As chicotadas psicológicas às vezes justificam-se, outras não. Por isso, nós os treinadores temos que viver com dois corações: um para o futebol e outro para a família”, frisou o treinador, justificando a sua situação e as constantes “chicotadas psicológicas” que têm acontecido um pouco por todas as equipas do Campeonato angolano da primeira divisão, vulgo Girabola.

Arnaldo Chaves, antigo futebolista desde os então torneios corporativos dos anos 60, no Sporting da Maianga, Casa Americana, Asma, entre outras, terminando a carreira como jogador na Académica do Lobito, já no Girabola, nos anos 80, passando a treinador, inicialmente dos escalões de formação do mesmo clube, perdeu a conta das vezes que dormiu descansado e no dia seguinte acordou no desemprego.

“Deixei de jogar aos 33 anos, na época de 1980/81, devido a uma lesão, quando representava as cores da Académica do Lobito. Fui operado e puseram-me depois como treinador dos juniores do mesmo clube, onde fui campeão provincial nos anos 82, 83, 84 e 85.” “No ano seguinte, 86/87, fui parar ao Sporting da mesma cidade (Lobito). Curiosamente, também representei o Sporting do Lobito no Campeonato Provincial mesmo antes de ir para a Académica ”, frisou.


TRAJECTÓRIA

Da Académica do Lobito
para o GD CUCA em Luanda


De 1968 a 1974, o Juba participou em todos os torneios Cuca, que normalmente era disputado no campo de São Paulo, ganhou apenas uma vez em 1972. “Na final do torneio jogamos contra o Cazenga de Maventa e outros e ao cabo dos noventa minutos estávamos empatados (0-0). Então recorreu-se à marcação de grandes penalidades para se encontrar o vencedor. Só depois de vinte penaltes por cada equipa é que se encontrou o vencedor porque o Cazenga falhou um e nós marcamos todos. O resultado final foi de 20 para o Juba e 19 para o Cazenga”, recorda-se.

Com aquela conquista o Juba sagrou-se pela primeira e única vez campeão distrital de Luanda. Este título deu  direito a disputar a fase inter-provincial  que normalmente eram disputadas por duas equipas de Luanda, uma de Benguela e outra do Huambo. “Nas preliminares jogamos contra o Andorinhas da Calomanda de Benguela, isto se a memória não me atraiçoa e vencemos por (5-2 ) e o Cazenga venceu o representante do Huambo. Por isso na final do Inter – Provincial (hoje equivalente a fase nacional) voltamos a jogar contra o Cazenga e perdemos por 7-2”, friosu.

Segundo o Kota Frikiki uma das equipas mais fortes de Angola, na altura,  era o Portugal de Benguela(hoje Nacional de Benguela) com jogadores como  Malta da Silva, Valongo, Januário Candengandenga e outros.


OUTRAS EXPERIÊNCIAS
Passagem pelo Movimento Nacional Espontâneo
e selecções nacionais


Em 1992/93, o treinador voltou a ficar no desemprego, retomando a sua actividade futebolística em 1994, no seio do Movimento Nacional Espontâneo (MNE), que na altura também tinha equipa (s) de futebol e movimentava as comunidades com várias actividades desportivas, com os célebres gira-bairros, entre outros torneios.

Em 1995, Arnaldo Chaves fez dupla com José Kilamba na selecção de sub-17, que disputou o torneio dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), na Guiné-Bissau. Em 1996 substituiu Nando Jordão na Académica do Lobito, tirando a equipa do nono para o quarto lugar e dando o título de melhor marcador do Girabola a César Caná.

Depois da Académica do Lobito, Arnaldo Chaves colocou o Interclube na primeira divisão (1998/99) e passou pelo Desportivo da Huíla (2000) e ASA, de 2001 a 2004. No ASA, coordenou as escolas dos escalões de formação com 120 crianças e seis jovens treinadores, entre os quais, Minhonha, Kanka, Jonshon e Sérgio.
Em 2005/2006, transfere-se para a província mais ao norte do país, Cabinda, para salvar o Sporting local da despromoção no Girabola, colocando-o na nona posição no primeiro ano e na sétima posição no segundo ano. 

“Depois de Cabinda, voltei a ficar novamente no desemprego, regressei a Luanda e mais tarde a Direcção do Porto de Cabinda, pela mão do administrador Lobo do Nascimento, chama-me para dirigir a área técnica, equipamentos e infra-estruturas da empresa, onde fiquei até conseguir a minha reforma”, concluiu. Ainda em Cabinda, Arnaldo Chaves chegou a ser requisitado para assessorar o brasileiro Djalma Cavalcanti no Futebol Clube de Cabinda, em 2009.


MEMÓRIAS

Da baliza a ponta de lança


Arnaldo Chaves começou a praticar futebol aos oito anos na única escola primária que existia nos anos 60 em Calulo. “Há 60 anos era guarda-redes. Aos 15 anos, devido às convulsões políticas, transferi-me com a família para Luanda, tendo representado o Sporting da Maianga na categoria de juniores. Mais tarde fui trabalhar na Casa Americana como mecânico e como esta empresa entrou nos campeonatos provinciais corporativos, passei a representar a equipa como trabalhador/jogador, já na posição de defesa central, devido à minha polivalência e como marcava muitos golos, fui escalado para o meio campo”, recorda-se.

A partir daí, Arnaldo Chaves notabilizou-se como ponta de lança, posição em que marcava em média três golos. Acabou por ser em 1968 o melhor marcador do campeonato corporativo. Na Casa Americana, Arnaldo Chaves teve como colegas, Maló, Zé Miúdo, Gaspar, Álvaro, Elias, Miguel, Conceição, entre outros.
“Durante o tempo em que joguei o corporativo pela Casa Americana, marquei 15 ou 16 golos e no primeiro ano cheguei a disputar a bola de prata. Em 1967 perdemos o campeonato a favor do Sindicato dos Motoristas - onde actuavam jogadores como Lourenço Bento, Firmino Dias, entre outros – por uma bola.”

“Tínhamos que ganhar à Textang por 4-0, mas acabámos por consentir um golo (4-1) e ficámos na segunda posição, num jogo da final disputado no campo do São Paulo, completamente abarrotado com pelo menos 12.000 espectadores”, recorda-se. Como era um dos melhores marcadores do seu tempo, Arnaldo Chaves revelou que o Asma fez-lhe uma proposta irrecusável, dobrando o salário que ganhava na Casa Americana, acabando por mudar de ares. “Como marcava muitos golos, prometeram-me o dobro do salário no Asma e tive que pedir a desvinculação na Casa Americana. No Asma fui campeão provincial e nacional em 1968”, referiu.


POR DENTRO

Nome completo:
Arnaldo Ferreira Chaves Júnior
Filiação: Arnaldo Ferreira Chaves e Adelina Maria de Almeida Chaves
Nascimento: Calulo, aos 15 de Agosto de 1948
Estado civil: Divorciado
Filhos: Dez. O 11º vem a caminho.
Filme: Policiais
Prato: Funge de milho branco com peixe seco frito e com feijão de óleo de palma, farinha da minha terra e banana doce.
Bebida: Vinho tinto e sumo de manga
O que faz nos tempos livres: Ver televisão, assistir a jogos de futebol e noticiários políticos
Acredita em Deus: Sim, Ele é o nosso criador
Religião: Católica
Clube do coração: Sporting de Portugal
País de sonho: Angola
Perfume: Chevinhon