Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Reportagens

Padre Matumona enluto Jornalismo Desportivo

15 de Abril, 2011

Muanamosi Matumona deixa um vazio enorme no seio do jornalismo angolano

Fotografia: Jornal dos Desportos

O padre e jornalista Muanamosi Matumona faleceu, na quarta-feira à noite, no Hospital Militar Principal, em Luanda, vítima de doença. Jornalista deste diário há largos anos, e recentemente nomeado director-geral da Rádio Ecclésia, o profissional da comunicação social angolana enluta, em particular, o jornalismo desportivo, área em que tinha uma intervenção muito forte com crónicas e artigos de análise sobre o fenómeno desportivo nacional e internacional. 

Um comunicado divulgado na manhã de ontem pela Conferência Episcopal de Angola e São Tomé e Príncipe, informa que o sacerdote católico se encontrava gravemente doente, tendo falecido às 20h10. A mesma nota dá a conhecer que o programa das exéquias vai ser anunciado oportunamente. Muanamosi Matumona nasceu no Uíge, a 16 de Setembro de 1965. Era sacerdote católico, jornalista e professor de Sociologia e Filosofia Africana na Universidade Agostinho Neto e no Seminário Maior do Uíge.

Exerceu jornalismo há quase três décadas, tendo abraçado a carreira em 1983. Como profissional da informação, trabalhou no extinto Jornal Desportivo Militar (JDM), colaborou na Angop e no Jornal de Angola, onde até à data da sua morte coordenava a página Religião. Em Portugal, trabalhou no diário desportivo “O Jogo” e foi colaborador assíduo do “Jornal de Notícias”. Doutor em Teologia Fundamental, pós-graduado em Comunicação Social pela Universidade Católica Portuguesa, e doutorando em sociologia pela Universidade de Lisboa, Padre Matumona frequentou também o Curso de Jornalismo Radiofónico organizado pela IMBISA, em 2001, em Harare (Zimbabwe).

É autor de várias obras, entre as quais: Jornalismo Angolano: História, Desafios e Expectativas (2002); A Reconstrução de África na Era da Modernidade. Ensaio de uma Epistemologia e Pedagogia da Filosofia Africana (2004); Cristianismo e Mutações Sociais em África. Elementos para uma Teologia Africana da Reconstrução (2005). Teologia Africana da Reconstrução como Novo Paradigma Epistemológico; Contributo Lusófono num Mundo em Mutação (2008); Os Media na Era da Globalização e Para uma Sociologia do Jornalismo Angolano (2009) são entre outras obras do jornalista. Neste momento de dor e profunda consternação, a direcção e o colectivo de trabalhadores do Jornal dos Desportos apresentam à família do malogrado os mais profundos sentimentos de pesar.

Mensagens de condolências

Várias mensagens de condolências foram enviadas à Rádio Ecclésia, Emissora Católica de Angola, pelo passamento físico do seu Director-Geral, o padre e jornalista Muanamosi Matumona. Dentre as mensagens destacam-se as do Comité Provincial de Luanda do MPLA, Governo Provincial de Luanda (GPL), Luanda Antena Comercial (LAC), Editora Mayamba, Jornal de Economia e Finanças, Sindicato dos Jornalistas Angolanos (SJA) entre outros organismos públicos, privados e pessoas singulares.

A nota do SJA refere que o “padre Matumona era dos académicos com mais actividade investigativa em jornalismo, tendo publicado duas obras em 2002 e 2008, o que lhe conferia um estatuto de mestre dentro da classe”. Já o GPL considera que o padre Muanamosi Matumona “personificava o que de melhor se podia exigir a um membro de uma das mais prestigiadas estações de rádio na província”. Por seu turno, O MPLA através do seu comité provincial de Luanda destaca que o malogrado jornalista “deu um enorme contributo ao desenvolvimento do ensino e do jornalismo nacionais através do seu trabalho nestes campos, tendo deixado para as gerações futuras uma vasta e variada obra nas áreas da sociologia e da filosofia”.

O nosso último encontro

Domingo, 20 de Março de 2011, no Estádio Municipal dos Coqueiros, em Luanda, o 1º de Agosto defronta o Leopards de Dolisie do Congo Brazzaville, em jogo a contar para a Taça da Confederação, vulgo Nelson Mandela. O meu telefone toca e no visor está o número do Padre Muanamosi Matumona, procurando saber a minha localização e por conseguinte, a possibilidade de lhe arranjar um ingresso para o referido jogo que, por várias razões, lhe interessava ver, sendo a mais forte, seguramente, a sua paixão pela equipa militar, conforme inúmeras vezes fez questão de referir, como, por exemplo, a atitude de “decretar e observar, escrupulosamente, um jejum para que o seu clube conquiste glórias, mesmo vivendo um período complicado”, escreveu o Padre neste jornal, na edição de sábado, 9 de Abril...

Que não esteja, portanto, na origem do seu prematuro desaparecimento físico o referido jejum, pelo que, ao ser assim, que seja glorificado com as conquistas do 1º de Agosto, do seu coração, como dizia. Voltando à conversa daquele domingo, não levou muito tempo, o Padre estava nos Coqueiros, proveniente da redacção deste jornal, para onde regressámos na minha viatura, no final do jogo, é claro. Nada, mas absolutamente nada, fazia crer que, afinal, aquele era o nosso último encontro. O último dia em que eu dava boleia a um amigo e que jamais irá almoçar comigo conforme vezes sem conta fizemos no CODENM, CEFOJOR, Sindicato, locais escolhidos para metermos a conversa em dia, como soe dizer-se...

De volta aos Coqueiros, ainda me recordo do camarote em que nos sentamos, e tivemos como colegas de ocasião o Vice-almirante Vaz, como nós, “louco” pelo 1º de Agosto. Recordo-me também do pedido que fiz à simpática jovem do protocolo, para que atendesse com reverência o Padre, Jornalista, Docente e por conseguinte Director da Rádio Ecclésia e do Jornal Apostolado, Muanamosi Matumona. Degustando ginguba torrada, aproveitamos o momento para falar de coisas extra futebol, atendendo que a nossa relação de amizade assim nos obrigava.

Dentre as coisas faladas, estava o pedido do Padre para que eu regressasse à Rádio Ecclésia, na condição de comentarista desportivo, tarefa que já desempenhei num passado recente. “Carlitos! Regressa e não há mais nada a pensar. Já falei com o pessoal e estão à sua espera”. Foi nestes termos que o agora falecido Muanamosi Matumona me impôs o regresso à Emissora Católica de Angola, reforçando que “não há incompatibilidade nenhuma com as suas ocupações extra jornalismo…Apenas vais falar de Desporto…é pacífico”.

Por razões pessoais, adiei o regresso, apesar da quase certeza que dei ao pedido de um colega em múltiplos sentidos. Imaginem o quão difícil é para mim, digerir a dura realidade da morte prematura do Padre Matumona com quem, afinal, já não terei oportunidade de manter qualquer tipo de conversa que sempre observamos na base da cordialidade e profundo respeito. Aliás, pelo seu carácter algo introvertido, poucas são as pessoas que têm condições para falar da magnitude humana do Padre Muanamosi Matumona.

Isso me permite taxar aqui e agora, que Muanamosi Matumona era um homem inconfundível no carácter e posição assumidas de forma coerente, sempre na base do equilíbrio e compreensão da diferença natural dos seres humanos.Nesta base, aprendi com o padre que o perdão é transcendente ao nosso querer, daí ser dele a recomendação/ obrigação para que eu voltasse a falar com uma jovem, a quem havia dado certo desprezo, por razões óbvias. Obedecendo à sua voz, assim agi e, enquanto homem de Deus que pregava o perdão, devo publicamente agradecer porque com ele muito aprendi sobre o valor e necessidade de perdoar.

Para finalizar, quero segredar consigo, (apesar de já não poderes escutar), que a pessoa que lhe prestou cuidados médicos, na noite de segunda feira, e a quem disseste ser muito zelosa no trato dos pacientes é a Paula Correia Calongo Adão, minha esposa, informação que não te foi prestada na altura, por razões do teu debilitado estado de saúde. Enquadro isso naquelas coisas que dizias ser “providencial”, sobre as quais os seres humanos apenas devem obediência. Paz à sua alma.

 Carlos Calongo

Era um Mestre na
crónica e no comentário

Ingressei nos quadros do Jornal de Angola, saído da Rádio Nacional de Angola, no segundo semestre de 1981, pelas mãos do malogrado Alexandre Gourgel “Xandoca”, jornalista e político de mão cheia, na altura, colaborador do único diário do país. Foi em princípios de 1982, que “penetrei” na Secção Desportiva, sob proposta de Pires Ferreira, que também já não faz parte do mundo dos vivos.

Ali encontrei quatro “dinossauros” do jornalismo desportivo. Confesso que, coisa que nunca me ocorreu antes, apoderou-se de mim um certo receio e alguma intranquilidade, por fazer parte do núcleo de Victor Silva (chefe), Gustavo Costa, Gil Tomás e Pires Ferreira. Eu, que havia passado pelas mãos dos também malogrados Rui de Carvalho e Francisco Simons, assim como de Maria Luísa Fançony, Carlos Garcia, Felisberto Costa (Costinha) e Arlete Bolonhês, entre outros, na RNA e Victor Aleixo, João Serra, João Miranda, José Luís de Matos, Achille Lôllo, Filomeno Manaças, Américo Gonçalves e Sara Fialho, grandes mestres do jornalismo prático de imprensa.

Ao interiorizar que não era tarefa fácil, apercebi-me que estava enganado. Além de profissionais do melhor que havia em Angola no campo da imprensa desportiva, eram elementos de trato fácil, que colocavam o seu saber ao dispor de quem, como eu, se iniciava nesta coisa de fazer jornalismo desportivo. Depois de mim, juntaram-se a família do “Desporto”, com curto espaço de tempo de diferença, o António Ferreira “Aleluia” e o Fontes Pereira, que deixaram de ser colaboradores, e mais tarde o António Félix e o João Francisco “Karpov”, a que se seguiu o Salas Neto, saído da ANGOP.

Foi com o Muanamosi Matumona, na altura quadro efectivo do então Jornal Desportivo Militar (JDM), outra grande escola do jornalismo desportivo e colaborador para o futebol africano, no Suplemento Desportivo “Suple”, que para além do trabalho, privei mais incluindo em algumas rodas de colegas e amigos, onde, contra a minha vontade, volta e meia eram abordados assuntos sobretudo da qualidade de trabalho. Bebi dele ensinamentos que guardo e faço uso com algum sentimento de responsabilidade, tais como a diferença e redacção dos diferentes géneros jornalísticos.

Volta e meia recordava que foi pela minha mão que se tornou colaborador do “JA”, cuja indicação para falar com os responsáveis do então único diário, aconteceu na noite de uma quarta-feira, no estádio dos Coqueiros, quando fazíamos a cobertura do embate entre o Sporting Luanda, treinado pelo argentino Mário Imbelloni e o 1º de Agosto, pelo jugoslavo Ivic. Para além do dom de pedagogo que possuía, era um jornalista de cabeça, tronco e membros, pois num abrir e fechar de olhos, ou com a “perna as costas”, como soe dizer-se, primeiro, por meio das velhas máquinas de dactilografar com os linguados de 25 linhas e depois nos computadores, executava com qualidade, artigos de opinião, crónicas, comentários e entrevistas.

Ele que mesmo depois de se ter tornado padre da igreja católica, professor universitário e escritor de mão cheia, e numa das pessoas que mais investigou e publicou livros sobre o jornalismo angolano, nos últimos anos, nunca deixou de manter o seu vinculo de responsabilidade e humildade, para com quem que fosse, independentemente da sua crença religiosa, cor da pele e estrato social. Retenho com alguma nostalgia, os momentos em que numa fase “menos boa” por que passei, ao contrário do que sucedeu com alguns colegas e amigos que me “abandonaram” quando mais precisei, foi dos poucos que se deslocou várias vezes ao meu domicílio, para, entre meio a algumas conversas, me agraciar com alguns conselhos envoltos em sinceridade absoluta.

Nesta hora de dor, não posso deixar de referir as “divergências ‘’, em termos de opinião quando “discutíamos”, cada um puxando a “brasa a sua sardinha”, em relação ao 1º de Agosto, de que ele era adepto confesso e sobre o Progresso Associação do Sambizanga, clube pelo qual entrego as minhas forças e saber sempre que necessário. Era a imparcialidade e neutralidade que os jornalistas devem obedecer, que centravam a nossa conversa, neste particular. O Muanamosi Matumona era um Mestre no jornalismo desportivo e não só. Para além do trato e da palavra fácil, o seu ponto forte eram a crónica e o comentário.  

Leonel Libório

Adeus amigo Matumona!

São raras as ocasiões em que os jornalistas devem ser notícia e não é seguramente a morte o elemento decisivo para justificar essa raridade. Porém, no caso do padre/jornalista Muanamosi Matumona, seria imperdoável que, ao despedir-se de nós, não aproveitássemos essa circunstância da mortalidade para lhe dizermos publicamente obrigado. Em nome de todos os que fizeram e fazem o Jornal dos Desportos, onde ele colaborou há mais de 15 anos, com um estatuto de escrita simples e cristalino sobre os deveres de isenção e pluralismo.

Tive o prazer de receber Muanamosi Matumona, no extinto Jornal Desportivo Militar, quando, na flor da sua juventude, descobriu o dom que tinha pelo jornalismo desportivo. Foi, no extinto JDM onde, tal como eu, escreveu os seus primeiros textos. Fui, por assim dizer, um íntimo do falecido e o meu privilégio foi além da partilha profissional de alguns momentos de reflexão e convívio. Foi dele que recebi os primeiros conselhos após a morte da minha esposa, há sensivelmente dois anos. E, por duas vezes, prontificou-se a rezar as missas de recordação do sexto mês e do primeiro aniversário, na Igreja da Nazaré.

Quando optou por seguir a carreira sacerdotal, o jornalismo não ficou de lado. Mesmo de Portugal, os seus escritos eram enviados para o JDM e outros publicados no “Diário de Notícias”, em terras lusas. Foi a sua generosidade que o levou a não se dissociar do jornalismo desportivo. Quem ganhou com isso foi JDM, o primeiro semanário de desporto em Angola, numa época em que a informação especializada estava muito longe de ter o ritmo vertiginoso de hoje.

Agora que nos deixa, ninguém terá certamente qualquer dúvida sobre a qualidade profissional daquele que acabou por casar faustosamente o seu próprio nome com o do Jornal dos Desportos e muitos reconhecerão que ele foi um combatente consequente das liberdades pessoais e colectivas. Como padre, professor e jornalista. Eis porque a generosidade de Muanamosi Matumona não morrerá. Foi autor de várias obras, entre as quais: Jornalismo Angolano: História, desafios e expectativas (2002); A Reconstrução de África na era da modernidade. Ensaio de uma Epistemologia e pedagogia da Filosofia Africana (2004); Cristianismo e mutações sociais em África.

Elementos para uma teologia Africana da Reconstrução (2005); Teologia Africana da Reconstrução como novo paradigma epistemológico. Contributo lusófono num mundo em mutação (2008); Os Media na era da globalização. Para uma sociologia do Jornalismo Angolano (2009). Obras que as gerações futuras deverão procurar entender, com a certeza sempre renovada de que estarão a aprender mais sobre o arco-íris da vida.

Policarpo da Rosa

Colegas lamentam a perda

Mário Eugénio
É um grande choque”

“Está a ser um grande choque a notícia da morte do padre Matumona, pelo que me é quase impossível neste momento expressar os meus sentimentos. Convivi muito de perto com ele e sabia o quanto era um homem bom, generoso e amigo de todos. Era dono de muito conhecimento, fez licenciaturas, fez doutoramento e ainda assim era uma pessoa muito humilde, o que é raro quando o homem tem esses atributos todos. Então não perdemos só um colega, perdemos um grande companheiro, um verdadeiro filho de Deus”.

Betumeleano Ferrão
“Fiquei sem reacção”


“A verdade bíblica há muito me libertou, mas quando leio Génesis 3:19 e chego à parte: “que voltes ao solo, pois dele foste tomado. Porque tu és pó e ao pó voltarás”, sinto aquele frio comum que até Deus compreende, “pois os viventes estão cônscios de que morrerão; os mortos, porém, não estão cônscios de absolutamente nada, nem têm mais salário, porque a recordação deles foi esquecida”, Eclesiastes 9:5.

Sei que nenhum de nós tem como escapar da transitoriedade da vida humana, mas mesmo assim fiquei sem reacção quando o toque de mensagem do Jorge Neto despertou-me para a triste realidade da partida do Padre Matumona, o meu companheiro do italiano, das conversas bíblicas, eu sou TJ, dos debates sobre o futebol, ele era D’Agosto e eu Petro, e das nossas recordações do nosso Sambizanga, eu nasci no Bairro Mota e ele teve uma curta passagem pelo BO de onde partiu para a conquista do mundo, mas acabou por sucumbir ao último inimigo, este mesmo que me levou a mãe, os irmãos e agora il padre amico”.