Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Reportagens

Padre Muanamosi Matumona já repousa em paz no Uíge

Mário Eugénio, no Uíge - 19 de Abril, 2011

Milhares de pessoas renderam a última homenagem ao padre e jornalista Muanamosi Matumona.

Fotografia: Jornal dos Desportos

Os restos mortais do padre e jornalista Muanamosi Matumona, falecido na passada quarta-feira, em Luanda, vítima de doença, repousam desde ontem no cemitério municipal da cidade do Uíge, sua terra natal. Várias individualidades, entre políticos, académicos, colegas de profissão e público em geral, em número bastante considerável, renderam a última homenagem ao padre, professor e jornalista, que durante os seus anos de vida deu o melhor de si para o engrandecimento da igreja e da sociedade. Antes do corpo ir a enterrar, realizou-se, no período da manhã, na Sé Catedral, a missa de celebração das exéquias, presidida pelo bispo da Diocese do Uíge, Dom Emílio Sembelelo.

Na homilia, o prelado voltou a destacar as qualidades pessoais do reverendo Muanamosi Matumona e o trabalho por ele desenvolvido ao serviço da igreja e da sociedade em geral, tal como tinha acontecido na missa de corpo presente realizada domingo na mesma igreja, presidida pelo frei Marino. “O padre Muanamosi Matumona parte deixando-nos além de muita saudade, uma grande lição de vida”, disse o Bispo do Uíge que, confortou a família do malogrado, amigos, colegas e demais presentes com uma passagem bíblica que foi muitas vezes meditado pelo padre e jornalista.

“A morte é um regresso a Deus, de quem todo o homem veio e ao qual todo o homem regressa (…). O padre Muanamosi Matumona também meditou muitas vezes sobre as palavras de Jesus Cristo quando disse uma vez que “vim do pai, cumprido o meu dever regresso de novo ao pai”. Dom Emílio Sembelelo qualificou Muanamosi Matumona como um padre voltado para a formação de consciências. “Os ouvintes e os leitores transformar-se-iam em verdadeiros cristãos, através das suas mensagens pela comunicação social (...). ”.

Antes do término da missa foram lidas mensagens de várias instituições, todas elas destacando os feitos que fizeram de Muanamosi Matumona um “ilustre homem de Angola”. Entre elas ressaltam-se as da Congregação para a Evangelização dos Povos, em Roma, do Governo Provincial do Uíge, do Núcleo da Assembleia Nacional no Uíge, do Ministério da Comunicação Social, das Edições Novembro.EP e da Diocese do Uíge.  Sábado à noite, em Luanda, na igreja de São Paulo, e domingo no mesmo período, no Uíge, na igreja da Sé Catedral, foram também realizadas missas de corpo presente para a merecida homenagem de despedida ao padre e jornalista Muanamosi Matumona. Membros do Executivo, deputados, magistrados judiciais, professores universitários, jornalistas, estudantes, familiares e público em geral (mais de cinco mil almas) assistiram as duas missas, oraram pela alma do malogrado e ontem o acompanharam até a última morada, no cemitério municipal do Uíge.

Muanamosi Matumona nasceu no Uíge, a 16 de Dezembro de 1965. Era sacerdote católico, jornalista e professor de Sociologia e Filosofia Africana na Universidade Agostinho Neto e no Seminário Maior do Uíge. Exerceu jornalismo por quase três décadas, tendo abraçado a carreira em 1983. Como profissional da informação, trabalhou no extinto “Jornal Desportivo Militar” (JDM), colaborou na Angop e no “Jornal de Angola”, onde, até à data da sua morte, coordenava a página Religião, e no “Jornal dos Desportos”, em que era quadro sénior.

Cidade acordou cinzenta

Ontem a cidade do Uíge acordou e dormiu melancólica. O céu cinzento e fechado que se fez sentir aqui ao longo de todo o dia traduziu um acto de tristeza inolvidável. Entre choros e cânticos católicos, rezas e  lágrimas incontidas quase ninguém quis ficar em casa, preferindo de corpo e alma, ver descer à tumba os restos mortais do padre e jornalista Muanamossi Matumona, falecido no dia 13 do corrente Hospital Militar de Luanda.

Foram milhares de pessoas, entre devotos católicos e de outras confissões religiosas, políticos e intelectuais do Uíge, e vindas de outras partes do país para acompanharem Muanamossi Matumona até a última morada, e aí dizerem-no adeus. Percorrem a pé uma distância de cerca de um quilómetro, que separa a Sé Catedral, local de celebração da missa das exéquias, até ao Cemitério Municipal, onde repousam agora os restos mortais dessa figura que em vida conquistou a atenção, a alma e corações da comunidade que serviu. Digamos que a cidade ontem parou como já tinha parado no domingo, dia em que o corpo de Munamossi Matunoma chegou de avião ao Uíge. Muita gente ocorreu em massa para ir assistir a missa de ontem bem como a de domingo à noite, e também para o acompanhamento do para o último adeus.

As cores negras, a simbolizar o luto, e o branco, a “dizer” paz à alma do defunto, foram as que mais sobressaíram, quer na igreja quer em todos os caminhos que foram dar ao cemitério, que, diga-se de passagem, foi pequeno demais para albergar milhares de adolescentes, jovens e velhos das mais distintas esferas da sociedade uigense e não só. Foi, de resto, um ambiente tremendamente comovente que tocou a alma das pessoas, que vão manter inolvidável todo o grande contributo religioso, académico e científico que o padre e jornalista Muanamisi Matumona postergou, enquanto vivo, para o país e, seguramente, para África e o Mundo.
        
  António Félix, no Uíge



Uigenses em massa
assistem o acto fúnebre


A cidade do bago vermelho parou durante o período da manhã de ontem para se despedir daquele que em vida deu seu saber nas mais distintas áreas de saber na província e não só. Trata-se do padre, jornalista, professor e escritor Muanamossi Matumona, falecido às 20 horas da no hospital principal militar em Luanda, vítima de doença.

Homens e mulheres, jovens e adultos vindos de distintos municípios, comunas e aldeias, deslocaram a Sé Catedral para assistir o acto fúnebre marcado, para além da missa, por várias mensagens de condolências durante, seguido apeado a Cemitério Municipal.
Domingas João tem 25 anos de idade. Reside no município de Dange- Quitexe, cerca de 40 quilómetros da cidade de Uige.

Conta que não acreditou quando ouviu falar de falecimento do Padre Muanamossi Matumona, um sacerdote que muito admirava. “Para mim a notícia caiu como de uma bomba se tratasse, pois conheci bem o Padre e tinha muita admiração por ele, razão pela qual me desloquei até aqui para lhe render a última homenagem” disse jovem visivelmente chocada. Ntalani Mesa, irmão mais velho do Padre Muanamossi Matumona, conta que o seu irmão sempre se apresentou visivelmente saudável, e que a morte do mesmo não lhe convence.

Por esta razão pela disse que pediu a Deus o ter, caso se assim o quis, de contrario “que justiça seja feita”. Para deputada Rosa Pedro Garcia, do Circulo Provincial do Uige, assegura que é uma grande perda, porque a província perde um dos seus melhores filhos, cujo seu vazio não será fácil preencher. “No meu caso particular, quando fui nomeada a directora provincial da Juventude e desportos da província em 1998, no ano seguinte beneficiei dos seus préstimos no ano seguinte, pois o Padre na altura já era jornalista de tarimba no Jornal dos Desportos, de formas que tinha tudo para escrever sobre desporto na província” contou a deputada bastante consternada.  

    Avelino Umba, no Uíge 


Regresso inesperado

Quando em finais de 2009 conheci a província do Uíge, cidade conhecida como a terra do bago vermelho, claro está, através de sua iminência Doutor Padre Muanamosi Matumona, nada, mais nada mesmo, fazia crer que o meu regresso às terras cafeículas seria na condição de acompanhar o ilustre companheiro de profissão (jornalista), conselheiro, amigo, Padre, como era carinhosamente tratado, para a sua última morada. Confesso, que apesar da proximidade geográfica entre a província da Palanca Negra Gigante (Malanje), minha terra natal, e a do bago vermelho (Uíje), nunca manifestei interesse em conhecer esta cidade, que a semelhança das demais, também sentiu os efeitos nefastos da guerra que assolou o nosso país durante três décadas e meia.

Mas, quando passei a privar mais com o Padre Muanamosi Matumona, para além da relação profissional que tínhamos na redacção do Jornal dos Desportos, surgiu a ânsia de conhecer esta parcela do território nacional, muito em função daquilo que sua iminência falava e sobretudo escrevia nos seus artigos de opinião sobre o franco desenvolvimento da província, logo após a assinatura do memorando de entendimento a 4 de Abril de 2002. Coloquei a minha preocupação ao ilustre Padre que prontamente respondeu. Foi assim, que em finais de 2009, com a sua viatura e na companhia do Pedro Manuel Augusto conheci a província do Uíge, terra de gente generosa.

Lembro-me como se fosse hoje, que o professor, ou se preferirem o Mestre Padre Muanamosi Matumona ficou maravilhado com a minha adaptação, dado que na altura a cidade do Uíge não oferecia grandes sugestões aos seus ilustres visitantes, isto em termos de ambiente. Confesso, que foram momentos inesquecíveis que passei aqui no Uíge na altura, com o Padre Muanamosi Matumona. Conheci gente de todos os extractos sociais, desde o mais intelectual ao menos intelectual e todos a serem tratados ao mesmo nível.

Aliás, quem conheceu pessoalmente Padre Muanamosi Matumona e teve o privilegio de partilhar o seu saber, dificilmente dava conta de que estava em presença de um homem de elevado conhecimento em várias vertentes da vida. Tal era, a sua simplicidade.... 
De regresso à Luanda, senti no dever de retribuir o grande presente de início de ano. Foi desta forma que decidi convidar o ilustre Padre para uma viagem à terra da Palanca Negra, província, que curiosamente o Mestre Muanamosi Matumona não conhecia.

Na minha viatura, seguiu o malogrado e os nossos colegas de profissão (jornalista), Isaac dos Santos, Rádio cinco, e Paulo Caculo, Jornal dos Desportos. A entrada da capital, o Mestre Muanamosi Matumona virou-se e disse para mim. Melo Malanje é melhor que Uíge... Assustado com tal afirmação, eu disse apenas. Padre vamos conhecer a cidade por completo e depois disso você poderá dizer-me se de facto, Malanje é melhor que Uíge. Naquele seu geito, o Padre repetiu, Melo Malanje é melhor e ponto final. Tive que aceitar a posição do ilustre visitante à minha terra natal.

Tal como aconteceu na cidade cafeícola, tivemos momentos ímpares. No regresso à Luanda, ficou a promessa de que ele voltaria a me levar para o Uíge e como é obvio, eu também disse-lhe que regressaríamos um dia a Malanje para conhecer o bairro da Carreira de Tiro, local onde nasci, porque o Padre era fascinado por este bairro, porque segundo ele, ouvia muitas histórias engraçadas deste bairro. O ano de 2010 passou e nem o Padre nem eu, conseguimos materializar o tão esperado regresso as duas províncias.
Em 2011 surgiu então o convite do Padre, na altura, a cidade do Uíge acolhia a Conferência Provincial do Desporto. Infelizmente não respondi positivamente o convite por razões profissionais.

Mas, com aquele ar de esperança que era característico no malogrado veio então o consolo de que mais oportunidades surgiram....
Com a nomeação do Padre, para o cargo de director da Rádio Ecclésia, a 18 de Março do corrente ano, fui uma das pessoas contemplada pela sorte, ao ter conseguido falar ao telefona para dar os meus parabéns, dado ao congestionamento da linha, já que  milhares pessoas também ligavam para felicita-lo.

Durante a minha conversa com o ilustre Padre ficaram mais algumas promessas que não vou aqui dizer, mais, infelizmente, nunca mais serão realizadas porque o meu professor, conselheiro, amigo, decidiu partir para nunca mais regressar, sem no entanto, dar ao menos uma satisfação. Padre Muanamosi Matomona nesta altura de dor, preferia parafraser o meu companheiro de trabalho Morais Cânamua, o Man Moras, para nós, que os grandres homens não morrem, mais sim, descansam. A única maneira que encontrei para honrar a sua pessoa, já que você decidiu partir sem nada dizer, foi ter acompanhado os seus restos mortais até a última morada. Que a sua alma descanse em paz.
     
   Melo Clemente



Porquê desta forma?!

Estava eu com a estrutura psicológica abalada pela morte do meu pai, no passado dia 10 de Abril, quando, como se já não bastasse a dor que carregava, chegou-me a infausta notícia da sua morte prematura. De primeira custou-me acreditar, apesar de saber que para o homem morrer basta estar vivo. Custou-me a acreditar, porque algumas horas antes, encontrando-me eu no calor do óbito do sô Adriano, também ele um fiel católico, trocamos mensagens telefónicas. Procuraste saber do programa das exéquias. Tenho ainda estes MSM no meu telefone.

Só depois percebi que me estavas a responder já do leito do hospital. Foi de certeza com coragem e crença que sempre te caracterizaram que me respondias. “Estou no banco de urgência com bwé de soro, oxigénio aparelhos por todo o lado. A situação é grave.” Pode-se ler em mensagem que enviaste ao Mário Eugénio na mesma data. Porquê a mim escondeste esta particularidade? Talvez não lhe teria incomodado.

Agora amigo, como fica o seu sagrado espaço na página três do nosso jornal, em que com apurada maturidade jornalística debitavas as suas crónicas? Umas com grande sentido analítico, outras apimentadas de carga humorística, sobretudo quando, falavas do seu 1º de Agosto, do Bangú e do nosso dilecto BêO.

Como ficarão as análises do futebol africano, que só tu dominavas melhor que ninguém? E as promessas não cumpridas? Perguntaste-me no nosso último encontro quando é que visitaria a Ecclésia, e sugeriste tu mesmo que fosse só depois de arrumares a casa. Infelizmente negaram-te o tempo para esta arrumação.

Quanto ao Uíge, de que nunca te cansaste evocar nos seus escritos, perdi o número de convites que me proporcionaste para visitá-lo em sua companhia. “Agora não padre, pela próxima prometo que irei,” sempre fui lhe dando respostas do género ao longo dos últimos anos, até que hoje chego aqui para dedicar-te o último adeus. Como ingrato não fui para si amigo.

Como bom não seria estar aqui no Uíge na tua companhia. Escorrem-me as lágrimas ao saber que partes sem ver realizado um dos teus sonhos mais sagrados, que era ver o Uíge novamente representado no Girabola. Lembro-me do teu inconformismo quando nas nossas longas e intermináveis conversas falávamos do futebol no Uíge, evocando inevitavelmente as primeiras edições do Girabola.

Costumavas falar com uma pontinha de saudade sobre o FC do Uíge, sobre o Construtores e por arrasto sobre estrelas como Arménio, Carlitos, Raimundo, Vicy e outros. Deixa-me dizer-te, amigo, que admirava a forma como conciliavas as emoções desportivas e a frieza que exige o papel de sacerdote. Vi-te, no começo do ano, partir embalado para o teu Uíge, na I Conferência Provincial do Desporto, aqui decorrido de 2 a 3 de Fevereiro, porque te achavas alguém com subsídios válidos na acção estratégica para a revitalização do desporto na tua província.

Grande era o teu amor pelo Uíge. Por isso, aqui escolheste a morada eterna, não fosse esta a terra que amaste ao limite, apesar de as suas missões jornalísticas e evangélicas  o terem levado a várias peregrinações pelo mundo. Eterna será a minha saudade amigo. Longo foi, pois, o caminho palmilhado. Desde o JDM-Jornal Desportivo Militar, ainda nos ano 80, até ao Jornal dos Desportos, passando pelos nossos encontros por Lisboa, onde perdíamos longas tardes na Syber do Rossio, a famosa PT, vasculhando, feitos loucos, o fantástico mundo da Net.

 Não cabe, amigo, neste escrito de jornal a descrição dos bons momentos partilhados. Lembro-me que quando chego ao JDM, em 1987, partias tu para o Porto em busca do canudo em filosofia e teologia. Para facilitar o procedimento administrativo - era assim na tropa - transferiu-se tudo que era teu para mim: salário (quinze mil kwanzas), cartão da Loja 1, cartão do talho e cartão da Cofa.

A dada altura passei a ter duas identidades. Matias Adriano no BI e Muanamosi Matumona nos cartões de abastecimento alimentar. A primeira vez que vieste de férias ao país disseste, com ironia, que me receberias os cartões naquela período, já que estavam em teu nome. Eu disse-te que como o talho dava dois frangos por semana, passaríamos a dividir um para ti um para mim. Mas era tudo brincadeira de bons amigos.

E assim foi a nossa relação, marcada de episódios fantásticos até ao desenlace fatal a 13 de Abril. Lembro-me dos e-mail que trocávamos em 2004, tu no Uíge e eu no Burkina Faso de onde mandava, com  regularidade, algumas crónicas “fait divers”, sempre deste-me força para que reunisse algumas em livro, nesta altura na forja. Se é verdade que os grandes homens não morrem, resta-me o consolo de ter tido um amigo do teu jaez. Paz a tua alma...
 
      Matias Adriano, no Uíge