Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Reportagens

Perdidos Futebol Clube continuam desencontrados

Walter Silva - 11 de Janeiro, 2012

Clube continuam desencontrados

Fotografia: Jornal dos Desportos

Formação emblemática e histórica do futebol suburbano, o Perdidos Futebol Clube foi fundado, entre outros, pelo lendário Jacinto João.
Nascido em Luanda aos 25/1/44 e falecido aos 29/10/2004 em Setúbal (Portugal), Jota Jota, como também era conhecido, foi um dos mais conceituados futebolistas do futebol em Angola e em Portugal, durante a década de 60 a 70. O Perdidos, cujo primeiro presidente foi João Mascarenhas, vive, neste momento, mergulhado numa profunda crise directiva e desportiva, na sequência das condições impostas pelo mercado.

Eternizado pela voz melodiosa de Teta Lando, um dos maiores ícones da música popular urbana de Angola, na sua galerna e apreciada música “Eu vou voltar”, o Perdidos Futebol Clube faz parte do valioso mosaico cultural do país.  Presença assídua no popular Torneio Cuca, o clube tinha sede no Bairro Popular e efectuava os seus jogos no campo da Fefa. Nos seus primeiros anos de existência, alguns jogadores fizeram furor e deram alegrias aos adeptos. Dentre esses jogadores, destacam-se nomes como Dado, Bastos, Baio, Pimenta, Ninito e Neco 102, jogadores que espalharam o perfume do seu futebol nos mais variados campos de Luanda, defrontando equipas como Las Palmas do Prenda, Benfica do Quinzau e Académica do Ambrizete.

O seu maior adversário foi o Escola do Zangado, de Joaquim Dinis, vulgo Man Dinas, Antoninho Parte os Cornos, Artur da Cunha, Lourenço Bento, Júlio Araújo, Firmino Dias, entre outras feras do futebol suburbano. Em 1966, durante a primeira edição do referido Torneio Cuca, em pleno campo da NOCAL, o Perdidos Futebol Clube, com a sua principal estrela, Jacinto João, sucumbiu diante do Escola do Zangado, de Man Dinas, jogador que também se notabilizou no ASA e Sporting de Portugal. Porém, na época de 1972/1973, o Perdidos Futebol Clube, tal como o clarão de um relâmpago, iluminaram, se súbito, o cenário do futebol suburbano de Luanda e lançaram sobre os seus adeptos uma onda de incontornável euforia.

Ao princípio, ninguém reparou na equipa. As melhores formações eram as do Juba, Cazenga, Escola do Zangado e Benfica de Calumbunze. Com o decorrer do torneio, o Perdidos, desmentindo o seu próprio nome, impôs o seu futebol, demolindo tudo o que lhe apareceu pela frente. A equipa cilindrou o seu eterno rival Escola do Zangado por 3-0, não havendo reticências na vitória. Pai II, mais tarde Tozé da TAAG, com o seu fabuloso pé esquerdo, “brincou” com os defesas do Escola, marcando dois soberbos golos. André Costa, uma pérola do futebol luandense e que também despontou no Atlético e Ferroviário, ambos de Luanda, confirmando as suas qualidades de goleador, marcou o outro tento da equipa, falhando, de seguida, um lance que poderia ter aumentado o score.

O Perdidos garantiu a sua presença no “Provincial” (Angola era “província” à data de realização do referido Torneio), junto com o seu eterno rival (Escola do Zangado), Camunda (Benguela) e Calumanda (Huambo). Nas meias-finais, as duas equipas vindas do Sul de Angola, perderam diante dos colossos da capital. Para gáudio dos grandes amantes do Torneio Cuca, Escola do Zangado e Perdidos do Bairro Popular voltariam a encontrar-se na grande final desse ano. Durante a semana que antecedeu o jogo, o tema das conversas dos subúrbios foi o jogo da final. Falou-se das dificuldades que surgiriam para se conseguir um lugar no estádio dos Coqueiros. Discutiram-se as possibilidades do Perdidos e do Escola quanto à conquista do troféu.

Arquitectaram-se farras comemorativas da vitória e sonhou-se com a taça “Dr. Manoel Vinhas”, o patrono do Torneio. Zé Cambuta e Man Quim António, dois fervorosos adeptos do Perdidos, organizaram a claque no Bairro Popular, enquanto kotas Mateus Pelé e o falecido Zé Capiupiu, denodados paladinos do Escola, fizeram o mesmo no eixo Marçal/Zangado. O Perdidos era claramente favorito, depois da brilhante campanha realizada na fase inicial do Torneio. Gaby, o capitão da equipa, André Costa, Pai II (António José), Dino Cravid, Jutson, Pai I, Armando Dumas, Marito, Catarino Portela (que depois jogou na TAAG), Castelo Branco, Man Ribas afirmaram-se como os melhores jogadores do Torneio Cuca nessa época. Quem iria convencer o Perdidos da derrota? Ninguém, mesmo ninguém.

Chegado o dia da esperada e excitante final, Escola e Perdidos “desceram” até ao Estádio dos Coqueiros, acompanhados, cada um, dos seus fanáticos adeptos, num jogo emotivo, em que a equipa do Zangado levou a melhor, vencendo o seu arqui-rival por 1-0, com golo do finado João Pequeno, deitando por terra as aspirações da equipa do Bairro Popular, que continua “perdida” no tempo e no espaço, pese embora um grupo de homens sérios, em data recente, tenha ensaiado fórmulas no sentido de o ressuscitar, a exemplo do seu arqui-rival, liderado pelo Eng.º Sebastião Bento Lourenço, irmão mais novo do craque Lourenço Bento.