Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Reportagens

Picantes histórias do futebol

19 de Dezembro, 2010

Pelé estreou-se na selecção do seu país aos 17 anos

Fotografia: AFP

Entre a comemoração dos 70 anos de Pelé, em 23 de Outubro, e a dos 50 de Maradona, no dia 30, não podia faltar o registro de mais um aniversário de nascimento de Garrincha. Se estivesse vivo, tinha feito 77 anos no dia 28. Aqui estão três das várias histórias bem-humoradas que se contam sobre o Mané.  Numa excursão do Botafogo à Costa Rica, o jogo estava empatado, no final, Garrincha pegou a bola, driblou toda a defesa adversária e, na frente ao guarda-redes, ficou parado durante intermináveis segundos. Depois de muito tempo, finalmente resolveu colocar a bola entre as pernas dele e fez o golo da vitória. Terminada a partida, o técnico Paulo Amaral perguntou por que Garrincha não tinha marcado logo o golo do desempate. E Mané, com toda a simplicidade do mundo, respondeu: “Ué, é que o guarda-redes demorou muito para abrir as pernas..."

Sabendo que o guarda-redes Manga não sabia ler, Garrincha mostrou-lhe um jornal e disse: "Olha aqui, este repórter escreveu aqui que você é mau carácter, que bate em mulher..." Manga acreditou e quando o tal repórter chegou ao Botafogo para cobrir o treino no dia seguinte quase acabou por levar uma sova. Enquanto isso, escondido num canto, Garrincha assistia a tudo, rebolando a rir. Certa vez, Garrincha conversava com o cronista Rubem Braga. E reclamava: “Jogador em fim de carreira, como eu, devia receber apoio do desporto do seu país, como acontece na Itália, por exemplo. Confio que isso venha a acontecer no Brasil, um dia. Mas confio, desconfiando". “Confia esconfiando?”, perguntou Rubem Braga. “Igual ao Marechal de Ferro?", completou, referindo-se ao ex-presidente Floriano Peixoto, cujo lema de governo era exactamente “Confiar desconfiando". "Ué", surpreendeu-se Garrincha. “Eu não sabia que o Marechal de Ferro também tinha sido jogador de futebol..."

Depois de Pelé, Maradona

Depois dos 70 anos de Pelé, comemorados no dia 23 de Outubro, sete dias depois foi  a vez do argentino Maradona fazer anos: 50, em 30 de Outubro. Abaixo, algumas histórias sobre a idolatria a esse jogador que muita gente (principalmente os argentinos) também julga ter sido o maior do mundo. Essa idolatria por Maradona é tanta que inspirou até a criação de uma religião, a Igreja Maradoniana. E piadas sobre esse exagero, também de cunho religioso, como a que se seguem. Dizem que um argentino morreu e foi para o Céu. Recebido pessoalmente por São Pedro, ele quis logo saber se lá também havia futebol. Ficou muito contente com a resposta, porque o santo não só disse que havia, como ainda o levou para ver uma partida.Os dois ficaram, então, perto de um campo de futebol, onde um rapaz magrinho e barbudo acabava com o jogo. Ele pegava a bola, fintava todos e marcava. O adversário tentava dar nova saída, mas logo o barbudinho pegava na bola novamente e repetia a jogada, fazendo um golo atrás do outro.

Impressionado, o argentino perguntou: “Mas quem é esse?” São Pedro respondeu que aquele barbudinho era Jesus, “o filho do chefe”. Mas o argentino não se fez rogado, e ainda retrucou: “Ah, é? E quem ele pensa que é? O Maradona???" No seu regresso ao Boca Juniors, já aos 34 anos, Maradona jogava com um inusitado penteado amarelo, parecido com o estilo moicano, que logo foi imitado por muitos dos seus admiradores. Um deles era um garoto que ganhou notoriedade no país por ter sido proibido de frequentar o colégio com os cabelos pintados iguais ao do ídolo. A direcção do estabelecimento de ensino resolveu, então, chamar os encarregados de educação da criança para a advertir. Todos se surpreenderam quando o pai fez questão de comparecer devidamente trajado com a camisa do Boca Júnior. E os cabelos, claro, também pintados ao estilo do filho, como os do próprio Maradona.

 "Penso nele e penso em Pele, mas Diego está destinado a ser maior. É maior.” (Alfredo Di Stéfano, considerado o maior jogador argentino de todos os tempos até o surgimento de Maradona, em depoimento, em Março de 1979), disse: "Napoleão dizia que não são os homens que devem adaptar-se a uma táctica preconcebida, mas sim a táctica que deve ser elaborada em função dos homens.”
(César Luis Menotti, técnico da Argentina, campeã mundial, em 1978, que, deixou o jovem Maradona, então com 17 anos, de fora da convocatória para aquela disputa) "Qualquer um de nós faria um pacto com o diabo para jogar como ele joga.” (Jorge Valdano, companheiro de Maradona na selecção da Argentina, campeã mundial em 1986) “Não aceitamos comentários desfavoráveis sobre Maradona.” (aviso colocado pela claque na Bombonera, o estádio do Boca Juniors)

Três verdades
e mentiras sobre o rei

Seja no dia 21 de Outubro, quando ele de facto nasceu, ou no dia 23, conforme consta na certidão de nascimento, o facto é que este ano Pelé, o rei do futebol mundial de todos os tempos, completou 70 anos. A seguir, resgatamos depoimentos que ele fez, em 1999, à revista brasileira “Placar”, sobre três histórias que se contam por aí sobre sua vida e carreira. A versão:  Antes de aparecer no Santos, Pelé tinha sido reprovado em peneiras de outros clubes, que variam conforme quem conta a história: Corinthians, Palmeiras, São Paulo... O facto, explicado pelo próprio Pelé: “Antes de ir para o Santos, nunca havia saído de Bauru. Acontece que eu estive em São Paulo a disputar um torneio infanto-juvenil estadual pelo Baquinho. Jogamos a final na Rua Javari e ganhamos facilmente. Só eu fiz uns quatro golos. No banco havia um médio, o Tiãozinho, que era um crioulinho também e vestia a camisa 10 (eu era o 8). Quando eu apareci no Santos usando a camisola 10, todo mundo se lembrou daquele menino, o Tiãozinho, que realmente esteve rodando em vários clubes, entre eles o Bangu, do Rio. Mas aquele não era eu, não, era o Tiãozinho...”

A versão:
Numa excursão do Santos, o juiz expulsou Pelé do campo. Depois, acabou "expulso" pelo público revoltado e Pelé voltou ao campo.
O facto, segundo Pelé: “Isso tudo aconteceu na Colômbia, por causa da confusão que todo mundo fazia entre mim e outros jogadores negros do Santos. Fui expulso porque, segundo o juiz, eu estava numa briga em que não participei. Tinha ido lá para apaziguar, mas o juiz queria tirar um de cada equipa. Viu um outro crioulo a lutar e acabou me expulsando. Mas, na verdade, quem criou a confusão foi o Dorval. Depois, a claque ameaçou invadir o campo e eu tive que voltar. O juiz foi mesmo trocado”.

A versão:
Certa vez, o juiz teria confirmado um golo duvidoso do Santos. Ao ser pressionado por todo a equipa adversária, disse que, bem ou mal, a jogada merecia ser validada só “por causa da sua beleza”. O facto, segundo o próprio Pelé: “Essa aconteceu, sim, foi no campo do Santos, num jogo contra o Guarani, e sei que não é mentira porque eu mesmo ouvi o juiz falar. O juiz era o João Etzel e foi numa jogada quase igual àquela que ficou famosa, contra o Juventus: dei “chapéus” seguidos em três defesas e chutei para o golo inicial da Vila Belmiro. A bola bateu no travessão, no chão e entrou. A equipa inteira do Guarani correu para cima do juiz, alegando que a bola não havia ultrapassado a linha. No fim, o juiz confessou: ‘Querem saber de uma coisa? Mesmo se não tivesse sido golo eu iria dar porque a jogada foi muito bonita. É golo do Pelé e acabou!”.

Algumas notas
sobre o Morumbi

No dia 2 de Outubro fez 50 anos que o São Paulo venceu o Sporting, de Portugal, com um golo de Peixinho, no amistoso que marcou a inauguração do Morumbi. Pouca gente sabe, mas o terreno inicialmente cedido pela Prefeitura de São Paulo para a construção do estádio ficava no Ibirapuera. Quem colocou água na fervura foi o vereador e depois prefeito Jânio Quadros, um notório corintiano. O São Paulo, então, teve de procurar outro local. Décadas depois, novamente como prefeito, Jânio voltou a implicar com a concessão de terrenos para a construção de estádios de futebol, dessa vez reivindicando a restituição da posse pela prefeitura do terreno anteriormente cedido em Itaquera ao Corinthians.

Para erguer e concluir o Morumbi, o São Paulo, durante mais de uma década, tirou recursos do departamento de futebol. Resultado: um jejum de títulos no Campeonato Paulista que começou em 1958 e só terminou em 1970. Na maior parte daquele tempo, o único jogador são-paulino a nível de Seleção Brasileira era o “prata da casa” Roberto Dias, que começou a jogar como libero e depois foi deslocado para a defesa. Isso deu origem à piada que dizia que qualquer técnico podia ser campeão pelo São Paulo com “dez dias”. Ou seja: dez outros jogadores como Roberto Dias... Uma das fontes de rendimento para a construção e manutenção do Morumbi era a venda de cadeiras cativas. Para promovê-la, o São Paulo arranjou “garoto propaganda” o ex-guarda-redes argentino José Poy.
Poy foi, durante muitos anos, o jogador que mais vezes vestiu a camisola do São Paulo. Posteriormente, como técnico, foi campeão paulista em 1975. “Venha tomar um café com o Poy”, dizia a publicidade, mostrando um Poy sorridente, sentado nas cadeiras cativas que o clube pretendia vender. Sabia que quando foi finalmente concluído, em 1970, e reinaugurado com um jogo do São Paulo contra uma equipa portuguesa (1-1 com o FC Porto), o Morumbi ainda era chamado “Paulistão”?