Jornal dos Desportos

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Reportagens

"Precisamos de associações mais fortes e organizadas"

Gaudêncio Hamelay, no Lubango - 09 de Abril, 2010

Quintino Cabral promete dias melhores no judo

Fotografia: Jornal dos Desportos

Na qualidade de presidente da Federação. Como caracteriza o estado actual do judo em Angola?
Diria que está num bom caminho. Em termos desportivos, temos grandes projectos. Só para exemplificar, temos agora a ideia de concretizar um projecto que tem a ver com os apoios que vamos receber das instituições estrangeiras. Em termos desportivos estamos num bom caminho.


Em que consistem esses projectos?
Temos agora um projecto anual com a Embaixada do Japão para fornecimento de material a que designamos Projecto de Desenvolvimento e Expansão do Judo. O mesmo consiste na aquisição de material desportivo, por parte da Embaixada do Japão que vai fornecê-lo à Federação para a expansão da modalidade. O projecto está avaliado em cem mil dólares norte-americanos (cerca de 9,9 milhões de kwanzas). Temos garantia de que ao longo do ano corrente, teremos mais quatro ou cinco tapetes. Se conseguirmos concretizá-lo até ao final do nosso mandato, teremos quinze tapetes em Angola, porque ainda nos falta três anos. Este é uma parte do projecto, que engloba um outro conjunto de coisas como a massificação do judo.

Há outros países interessados em ajudar-vos?
Temos outro projecto com Israel como a Casa de Cultura e Artes de Israel que nos promete a instalação de dojos. Quando falo em dojo são as salas de treino com técnicos; prometem pagar os técnicos que lá trabalharem; apetrecham as salas de treino com material em todas as províncias. Vamos começar em Luanda com uma sala e seguir-se-á uma outra numa das cidades do Sul de Angola que ainda não foi identificada.

Para além de dojos e técnicos, o que contempla mais o projecto com o Israel?
Contempla também a formação de técnicos, fornecimento de equipamento desportivo, pagamento de técnicos e todo um conjunto de tarefas que permitem o desenvolvimento salutar do judo. É um projecto programado pela Federação, mas que vai merecer o apoio e a responsabilidade das associações provinciais. Já temos os projectos feitos, precisamos que haja associações provinciais fortes que peguem nesses projectos e sejam capazes de as implementarem.

Existem candidatos provinciais, isso é, associações que se propuseram a aderir a um desses projectos?
Infelizmente, até ao momento não há candidato. Aproveitamos a oportunidade para apelar às associações provinciais para que se reforcem e se organizem no sentido de conseguirem das estruturas do Estado espaços, onde possamos implementá-los. São projectos sérios que obrigam engajamento de todos os filiados; é um compromisso da Federação com as instituições que estão a apoiar-nos. Agora, as associações provinciais são as que têm de implementar o programa; devem fazer a sua parte de serviço, porque sem as quais não conseguimos fazer nada.

Há associações provinciais que lamentam a falta de apoios por parte da Federação, mormente, equipamentos desportivos entre outro material. Até que ponto a Federação poderá colmatar esta situação em particular a Associação da Huíla?
As ajudas da Federação passam pelo seguinte: primeiro é necessário que haja uma associação constituída, cujo trabalho vai definir se merece o apoio. O que acontece é que não há interesses das associações para o merecerem. Ora vejamos: temos o projecto como o Japão, mas não há candidatos para absorver os meios à disposição. Em Angola, existem apenas três tapetes e a Federação Angolana de Judo vai receber cinco tapetes este ano. As províncias têm de mostrar que estão em condições de fazer bom uso dos mesmos para o merecerem. O apoio tem de ser feito em função daquilo que as associações fazem. O material vai chegar e não os precisamos em nossos armazéns; temos de canalizá-lo desde que tenhamos a consciência de bom uso e de que vai servir verdadeiramente o judo a desenvolver-se.

As associações estão limitadas no seu funcionamento…
Os candidatos a esse material devem demonstrar que estão em condições de fazer o bom uso, porque o apoio não pode ser em saco roto. Todo o apoio tem de resultar em frutos; temos de chegar aqui e dizer a província X ou Y, nesse caso particular a Huíla, recebeu um apoio de um tapete e está instalado no sítio X. Na altura do apoio, tinha cem atletas e agora tem duzentos, por exemplo, dos quais X meninas. Temos de ter frutos após os apoios.

Perante a inércia das Associações provinciais, os cinco tapetes vão ficar na Federação?
Nunca. A Federação Angolana de Judo tem muitas probabilidades de melhorar e desenvolver a modalidade no país. São dois projectos muito importantes e bons que só vêm beneficiar o judo em Angola. Agora, as associações provinciais devem organizar-se para se candidatar a esses apoios e beneficiar deles. Se não conseguirmos dar bom uso a esse material, no próximo ano, não podemos candidatar-nos para receber mais. A nossa intenção é receber todos os anos material desportivo, mas temos de mostrar que estamos a desenvolver a modalidade.

Que outros projectos da Federação existem para este ano?
Estamos no início, o que significa dizer que ainda temos muitas competições por organizar e participar. Temos de 16 a 19 deste mês nos Camarões o Campeonato Africano, cujos seleccionáveis foram identificados no decorrer do último campeonato nacional. Posteriormente, temos depois os campeonatos nacionais por equipa, individual nas categorias de juvenis, juniores, a Taça de Angola e o torneio da Independência. Em termos de competições, ainda temos entre oito e nove provas por realizar. No entanto, há muito trabalho pela frente.

"Estamos em reestruturação" 

Qual é o sentimento que lhe vem à alma, quando se realiza um campeonato nacional com praticantes em representação de 61 por cento das províncias do país?
É realmente motivo de grande satisfação, por conseguirmos movimentar 101 atletas em representação de onze províncias, o que constitui uma grande representatividade nacional. Estamos satisfeitos por realizarmos essa festa com resultados desportivos excelentes e com o desempenho dos atletas.

Esperavam por isso?
Esse era o nosso desiderato movimentar cada vez mais o judo; torná-lo cada vez mais nacional. Felizmente, conseguimos atingir o objectivo e esperamos continuar nessa senda. Temos de criar políticas que estimulem a prática do judo nas outras províncias que não se fizeram presente nesse campeonato nacional. Também é verdade que essas mesmas províncias, que não se fizeram representar, tiveram dificuldades financeiras para se deslocar para a cidade do Lubango. Isso pressupõe que temos de trabalhar em conjunto com os governos provinciais para ver se patrocinam a deslocação dos seus representantes para esses campeonatos de grande monta como são os campeonatos nacionais por equipas e individual.

O campeonato foi negativamente marcado no último dia por actos de vandalismo, no qual se assistiu a cenas de pugilato que em nada dignifica o desporto nacional, quando actualmente os desportistas do mundo primam por fair play. Que comentário se lhe oferece fazer?
Estamos numa fase de reestruturação e organização do judo em Angola. É um trabalho que começámos há algum tempo e a disciplina é uma das bases da organização. Os actos de vandalismo e de indisciplina que ocorreram no primeiro dia da competição já foram exemplarmente castigados e todos os outros assim também o serão. Não podemos aceitar nem permitir que algumas pessoas manchem o bom-nome do judo; estraguem a festa que nos deu tanto esforço para o realizar e aquilo que os atletas por si mesmo vieram aqui representar na Huíla.

Qual foi a punição aplicada aos infractores?
De acordo com o nosso regulamento disciplinar, os infractores do primeiro dia foram punidos em conformidade com a gravidade da prática do acto cometido. Uns tiveram admoestação registada e outros a suspensão. Agora, os processos vão decorrer até ao Conselho Disciplinar da Federação que vai decidir a punição definitiva. Refiro-me à suspensão.

O judo feminino continua a merecer incentivo de todos. Qual é a estratégia para debelar essa situação?
Em termos de participação feminina no campeonato nacional, realmente, não é o que esperávamos, mas é de louvar pelo facto das províncias de Cabinda, de Luanda e de Huíla terem marcado presença com o sector feminino. Inicialmente, prevíamos que as províncias de Benguela e do Huambo trariam também equipas femininas, mas, infelizmente, a quantidade pretendida ainda não foi satisfatória. Temos de aumentar a quantidade para que possamos seleccionar a melhor qualidade. Contudo, conseguimos movimentar 29 atletas do sexo feminino.

Conquista de medalhas
é objectivo número um


 Disse que o campeonato foi selectivo para os atletas que vão representar o país no Campeonato Africano nos Camarões. O que se pode esperar da participação angolana?
Uma política é certa. Angola deve participar no próximo campeonato africano, porque abdicámos da participação em competições internacionais no ano passado, para reorganizarmos internamente e fazer remodelação em termos de judo. Criámos critérios de selecção que agora servem como base. Assim, o primeiro objectivo do país tem de ser uma boa representatividade nacional, que logicamente passa por bons resultados desportivos.

 
O que significa para si bons "resultados"?
Consistem em obter medalhas e é o ponto número um. Vamos seleccionar atletas em função da idade. Atletas acima de 25 anos, dos 23 aos 25 e abaixo dos 22 anos. Os atletas que eventualmente forem seleccionados com idade acima dos 25 anos têm de dar provas concretas para estarem presentes nos Camarões; não é suposição de que vão para a competição internacional arrebatar medalha; têm de ser optimistas de que as medalhas constituem no objectivo número um. Se não forem para conquistar medalha, é preferível levar apenas um atleta de 25 anos, ou dos 22 aos 25 anos, ou abaixo dos 21. Temos agora, como grande objectivo os Jogos Olímpicos de Londres’2012. Um atleta acima de 25 anos que não consegue medalhar a curto prazo, também não vai conseguir apurar-se para os Jogos Olímpicos de Londres. É preciso investir num atleta mais jovem a quem podemos elaborar um programa a longo prazo de cinco anos em diante. Esse é o objectivo da Federação Angolana de Judo: primeiro medalhar. Se tivermos atletas que medalhem, já é muito bom, mas se não os tivermos, vamos usar os critérios. Mais vale fazer-se representar com uma selecção mais jovem e recolher o fruto do trabalho dentro de cinco a seis anos.


Sabemos que já existe uma pré-selecção para o Campeonato Africano de Camarões. A escolha foi definida depois da realização do último campeonato nacional?
Ainda não falei com a área técnica, mas acredito que a selecção definitiva dos elementos que vão representar Angola no Campeonato Africano saiu do último nacional. Os meus colegas da área técnica fizeram as devidas anotações; já têm os nomes e vamos discutir e acertar os pormenores em fórum próprio em Luanda.

 Escolha de técnico é mistério

Quem é o técnico nacional que vai liderar a selecção?
Já está definido, temos a pessoa indicada para orientar tecnicamente a selecção nacional, mas quero abrir um parêntesis: o judo é uma modalidade individual, na qual o seleccionador só é indicado a posterior. O importante é que deve estar preparado para exercer as suas funções.

 De quem se trata?
Não é conveniente dizer agora. Quando sair o comunicado final com o nome dos atletas seleccionados, também se conhecerá o nome do seleccionador.

Há algum inconveniente em divulgar o nome do técnico, quando estamos a poucos dias para o início do Campeonato Africano?
Não há inconveniência nenhuma. Apenas temos alguns pormenores a acertar com o técnico, porque pode não aceitar as condições que lhe impusermos. É só isso.

Como avalia a qualidade dos técnicos de judo no país?
Também é nossa preocupação. Esse projecto com Israel prevê a formação de técnicos e a realização de duas a três acções de formação de técnicos todos os anos no país. Anualmente vêm técnicos do exterior, dos quais um já está escolhido. Trata-se de um técnico israelita de nome Resseff, medalhista olímpico por Israel e vem a Angola promover cursos de treinadores. Paralelamente a isso, há também a possibilidade dentro deste mesmo projecto, de técnicos angolanos fazerem cursos em Israel. Temos de aproveitar esses projectos, porque que podem ditar o futuro da vida do judo em Angola nos últimos anos. Se aproveitarmos bem, nos próximos cinco anos, o judo vai dar um grande salto.

Qual é o maior pólo de desenvolvimento da prática do Judo no país?
A província de Luanda continua a ser o maior pólo de desenvolvimento a nível do país. Benguela já foi um bom pólo de desenvolvimento, mas lamentavelmente notamos algum retrocesso. A cidade do Lubango está a mostrar que está num bom caminho desde o ano passado; precisa de alguma organização interna, no que concerne a constituição plena de uma associação provincial de Judo. Tem de ser formada com urgência a Associação Provincial de Judo e terminar com o núcleo existente para que tenhamos uma boa organização.

\"A nossa arbitragem
ainda não satisfaz\"


Ao alongo do campeonato, verificou-se muitas reclamações por parte de dirigentes de províncias participantes devido à alegada má actuação dos juízes. O nível da arbitragem do judo no país é satisfatório?
Lamentavelmente, a nossa arbitragem não satisfaz nem em quantidade nem em qualidade. O nível ainda não é satisfatório. Não é que tenhamos maus árbitros, mas lamentavelmente devo dizer isso. Grande parte dos árbitros forma o grupo de treinadores de clubes. Então, há sempre uma tendência na arbitragem. A verdade é que não satisfaz. Temos de formar mais árbitros, porque quanto mais tivermos, melhor será a escolha dos neutros.

Como avalia a evolução técnica dos atletas?
O nível técnico foi muito bom. Vimos nas meias-finais e nas finais, discussão das medalhas de bronze. Foram atletas com muita categoria. E podemos observar que os combates finais tiveram nível elevado. Esses atletas com as condições à sua disposição, acreditamos que com o pouco tempo disponível para os preparar visando o Campeonato Africano não vai ser difícil. Em termos desportivo, tivemos bons resultados o que satisfaz a Conselho Técnico. Quanto ao nível de organização, tivemos algum percalço, próprio de desporto de combate; são algumas situações que não foram boas em benefício do judo.

Há espaços para a prática de judo sem sobressaltos em Angola?
É um outro dos nossos maiores problemas. Não há recintos para a prática do judo. Nesse momento, não existem nenhum dojo como tal. É uma luta da Federação Angolana de Judo em ter aquilo que chamam um dojo nacional sob a égide da Federação, onde as selecções nacionais possam treinar e um outro, onde se pode fazer o trabalho de formação de mais requintado. Por outro, temos também a intenção de criar dojos por pólos de desenvolvimentos regionais. Se conseguirmos instalações, conseguiremos criar os pólos de desenvolvimento regionais com o projecto do Japão. A ideia seria distribuir os pólos pelas regiões do país, mas não podemos ficar parado em função da dinâmica de cada uma das regiões ou províncias; vamos avançar por aí. Instalação desportiva para o judo é difícil e sentimos complicações. Esse realmente é uma das grandes dificuldades.


As condições encontradas na Huíla para a realização do Campeonato Nacional foram satisfatórias?
Dentro da nossa realidade, não só foram satisfatórias, mas boas. Fizemos um campeonato interessante, agradável. Acredito que poderíamos ter feito uma outra coisa melhor, mas é próprio do contexto que se vive. Não conseguimos superar uma outra dificuldade que surgiu, mas isso não retirou a imagem do campeonato e a organização. Considero de satisfatório as condições que a Huíla proporcionou as delegações desportivas: o apoio do governo local, da direcção da Juventude e Desportos e do COCAN-Huíla no concerne ao alojamento, transportação e moral. Podemos dizer que conseguimos ter o apoio que esperávamos.

A quantas andamos em termos de equipamentos?
Em termos de equipamentos, a Federação compra sempre, porque só pode suportar as selecções nacionais e não consegue dar um apoio generalizado aos clubes e a todas as províncias. Os recursos financeiros da Federação são também muito exíguos. Não está em condições e não é competência da Federação dar esse apoio generalizado às associações e aos clubes. Podemos fazer alguma coisa naquilo que for preciso.

 
Quantos praticantes estão inscritos na Federação Angolana de Judo em todo o país?
Cinco mil e oito atletas de todos os escalões, desde o mais baixo até seniores, mormente juvenis A e B, esperanças, juniores e seniores. Em femininos, os escalões estão repartidos, porque não é possível fazermos competições nos escalões mais jovens. Geralmente, realizamos competições unificadas juniores/seniores. Como aconteceu no evento realizado no Lubango, algumas esperanças são obrigadas a participar no Campeonato Nacional de sénior feminino. Contudo, temos de criar um mecanismo de separá-los porque não é salutar uma esperança trabalhar com os seniores. Mas para a concretização do intento, primeiro temos de aumentar o volume de atletas, isso é aumentar a quantidade e depois separarmos por idade.