Jornal dos Desportos

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Reportagens

Problemas da arbitragem estão no próprio futebol

Augusto Panzo - 07 de Setembro, 2012

proximidade entre os árbitros e os clubes

Fotografia: Kindala Manuel

Jornal dos Desportos - A orientação da FAF para que os clubes fizessem um depósito antecipado de valores a favor do Conselho Central dos Árbitros de Futebol de Angola (CCAFA), para a cobertura das despesas dos árbitros teve o impacto que se esperava?
Carvalho Neto - Tivemos uma abordagem sobre esta questão o ano passado, mas não conseguimos materializar. Este ano, voltamos à carga e novamente sem êxitos. A FAF, na reunião que teve com os clubes, tentou, de alguma forma, voltar a tratar dessa problemática, de maneira a retirar alguma proximidade entre os árbitros e os clubes, mas não conseguimos materializar está recomendação.

A que se deve o não cumprimento dessa recomendação?
A comissão criada para o efeito é integrada por alguns clubes do Girabola e, até agora, não apresentou qualquer informação sobre a metodologia, os procedimentos e outras fórmulas pertinentes, para a resolução desse caso. Isso deve-se também ao facto de alguns clubes estarem a atravessar alguns problemas organizativos e financeiros.

A falta de operacionalidade da comissão condiciona a fixação de um valor exacto para os clubes cumprirem?
É verdade. Isso retira-nos a possibilidade de estabelecermos um valor exacto a ser depositado nos cofres da FAF, no início de cada época, para que as despesas ligadas às arbitragens deixem de depender directamente dos clubes, passando assim para a responsabilidade da federação. Outra questão que se verificou é que, em algumas localidades como Soyo, Dundo e às vezes o Luena, continuamos a ter alguma dependência dos clubes.

A que se deve a esta dependência?
Por vezes, a transportação é difícil e se estes não intervirem, corremos o risco dos árbitros não viajarem a tempo para a localidade indicada para dirigir os jogos. Há, inclusive, zonas em que a hospedagem é complicada e esses clubes têm de intervir. Pelo que disse, ainda existe uma grande promiscuidade entre os clubes e os árbitros ou vice-versa. Assim sendo, a verdade desportiva está beliscada…Temos que ter em conta o seguinte: Os árbitros, os jogadores, os treinadores, os presidentes dos clubes, os directores dos clubes, das federações, dirigentes federativos, são todos da mesma família. São todos angolanos, circulam pelas mesmas ruas, pela mesma cidade, então, nessa ordem de ideias, não há como as pessoas não interagirem, e nem há como as pessoas não estarem em contacto umas com as outras. Até porque são seres sociáveis, e nesse contexto, estão sempre juntas e em comunicação.

Como assim?
O problema não é o contacto entre uma pessoa e a outra, mas aquilo que se vai abordar; há uma diferença. Quero com isto dizer que, não é o facto de eu estar com alguém, que eu esteja a fazer algum negócio sobre a minha actividade profissional. Eu não estou impedido de me encontrar com alguém, só porque esse é o presidente do clube e eu o árbitro. Nada disso está aprovado cá no nosso país. Não temos regras, nem leis que impeçam as pessoas de estar umas com as outras.

Está querer dizer que…
É importante que nós, dentro das nossas relações pessoais, tratemos tudo com a maior nobreza possível, com a maior honestidade e que saibamos tratar as questões todas em função daquilo que é a nossa verdadeira dignidade. Não podemos ir para além daquilo que é, até porque temos a impressão que o nosso país é bastante populoso, o que não é verdade. É de facto grande, mas a população vive confinada em círculos pequenos. Estamos confinados em espaços em que os encontros entre as pessoas são inevitáveis. Estive recentemente numa actividade em que me encontrei com os presidentes dos clubes. Será que deveria fugi-los e não conversar com eles? Será que o facto de estar a conversar com os mesmos, estaria a negociar, porque sou o presidente do CCAFA? Acho que as pessoas não podem pensar assim, e eu também não posso agir com base nisso. Infelizmente, há alguns que assim o fazem, e não podemos deixar de dizer que isso não tem acontecido.

RECADO
Dirigente pede aos clubes mais trabalho


JD – Muito se tem cogitado sobre os jogos do Recreativo do Libolo, que é acusado de ser sempre favorecida pelos árbitros. O que se lhe parecem estes ditos?
CN – Bem, eu não estou dentro do Libolo, nem sou treinador ou dirigente dessa equipa, mas enquanto presidente do Conselho Central de Árbitros, vejo quase todos os jogos. Sabe que, no futebol, é fundamental saber aproveitar os erros dos adversários, pois, é desse aproveitamento que vem o ganho. E, para mim, este tem sido o segredo do Libolo no presente Girabola. Tem sabido aproveitar, da melhor forma, os deslizes cometidos pelos adversários, não no sentido que tem se dito dos erros dos árbitros, mas sim, do escalonamento táctico dos seus opositores em campo.

Está a sair em defesa do Libolo ou o que pretende demonstrar?
O que se passa é que, às vezes, damos muita importância ao que não merece. Exigimos muito dos árbitros e pouco das nossas próprias equipas. Se verificarmos bem, o desempenho dos nossos jogadores tem de melhorar. Estou aqui a verificar que, enquanto dirigente e adepto de futebol, hoje já não se registam aqueles lances que culminam com golos magistrais dos tempos de Abel Campos, Ndunguidi, Lufemba, e outros craques que houve no nosso campeonato. Neste momento não temos jogadores do quilate destes que acabei de citar, que desequilibravam o jogo em favor das suas equipas. Hoje quer-se buscar vitória através de penaltes. Se acompanha com muita atenção os jogos neste Girabola, em todos eles as pessoas só querem castigo máximo.

Está a querer dizer que os clubes falam mais do que trabalham internamente para melhorar as suas performances …
Como é possível realizar-se um campeonato com trinta jornadas ou trezentos jogos, cujos resultados são à base de grandes penalidades? Será que é isso que se pretende para o desenvolvimento do nosso futebol? Acho que não. Os treinadores têm que aprimorar as suas equipas e os seus jogadores. Nos dias que correm, dificilmente se vêem golos que resultam da cobrança de bolas paradas, tanto em jeito, como em força. Prova mais que evidente disso é que, o nosso melhor marcador neste Girabola tem dez golos, em vinte e três jornadas disputadas, o que indicia que não se está a melhorar a questão do golo, que é a verdadeira essência do futebol, porque toda a gente quer recorrer aos penaltes. Os nossos jogadores têm que treinar mais do ponto de vista teórico, táctico e físico.

DEFESA DOS FILIADOS
“CCAFA não sanciona
os juízes por emoção”


JD - Há dois ou três anos, houve um caso de arbitragem que envolveu o árbitro Manuel Francisco, o que lhe terá custado uma suspensão. Este ano voltou a haver outro caso com o mesmo. Que explicações tem a fazer a propósito desse caso?
CN - Bem, enquanto Conselho Central, não podemos particularizar este ou aquele árbitro. Temos 19 árbitros de primeira categoria, 38 assistentes, e alguns  árbitros da segunda categoria. No nosso ponto de vista, preferimos ver os assuntos de forma global. É certo que o árbitro em causa foi designado por nós para ajuizar o jogo entre o Libolo e o 1º de Agosto. Já analisamos o vídeo na presença da equipa de arbitragem e concluímos que houve de facto alguns erros, não apenas do juiz principal, mas da equipa toda. Foram erros que ocorrem em muitas outras partidas de futebol. O que fez despoletar essa polémica, é o facto de o jogo ter sido entre aquelas duas equipas e por ironia do destino o árbitro em causa.

Na qualidade de presidente do CCAFA está assumir a sua responsabilidade pela nomeação do árbitro neste jogo?
Escolhemos o Manuel Francisco para ir ajuizar aquela partida porque ele é um dos árbitros mais antigos do Girabola, sendo por isso bastante experiente para ajuizar um jogo daquela dimensão. Sabem que os jogos que envolvem equipas do topo arrastam consigo muita pressão do ponto de vista psicológico. Assim, juntando estes factores todos, preferimos que fosse para o Calulo um árbitro daquele quilate, que conhece os técnicos, que está acostumado à pressão do público. Houve realmente alguma infelicidade, porque o Manuel Francisco e os seus companheiros não tiveram uma actuação ao nível daquilo que a gente esperava, mas já conversámos com as pessoas e estas já estão sensibilizadas e reconheceram que houve algumas falhas do ponto de vista das suas actuações, mas estas só existem, se estivermos em campo.

Em função do erro cometido pela equipa de arbitragem naquele jogo, que medidas o conselho tomou?
As nossas medidas são internas. Quando indicamos alguém para ajuizar as partidas, indicamos também um comissário, que elabora o relatório no final desse jogo e é desse informe que retiramos as ilações necessárias. Se dentro dessa matéria existe algo passível que nos possa conduzir à instauração de um processo disciplinar, procedemos dessa forma. Para evitar equívocos, não podemos nos cingir apenas a um jogo, pois, são muitas partidas, algumas das quais de maior relevância do ponto de vista psicológico, porque há jogos em que estarão envolvidas equipas que lutam para não descer de divisão e por causa da pressão podem surgir erros.

ENTREVISTA
“Segundona é muito problemática”

JD – No Zonal de Apuramento, também os árbitros têm sido alvo de duras criticas. O que se passa, de facto, na segundona?
CN - Muita coisa. O Zonal é uma competição mais problemática e que muitas vezes nos retira o sono. Face a desorganização dos clubes, quando surgem estes casos, às vezes, ficamos sem solução para agirmos. É uma prova que nos deixa perplexos, porque a mobilidade dos árbitros é mais difícil, assim como as condições de transporte, recepção e acomodação, e também devido à inexperiência dos juízes por serem novos nessas andanças.

Mas a que tipo de desorganização se refere concretamente nessa competição?
De vária índole, desde problemas administrativos como a falta de ficheiros, fotografias, identificação em dia, inclusive os campos que às vezes não estão em condições, porque as balizas estão empenadas, ora porque a relva não está bem tratada ou não existe mesmo, embora em alguns deles tenha sido foi feita a inspecção, mas que depois disso os recintos voltaram a se degradar.

A par destas irregularidades, que mais?
Regista-se também a falta de policiamento nos campos, as bolas não são oficiais e é necessário escolher o que está de acordo com os regulamentos. Muitas vezes, ao proceder-se esta escolha, os próprios dirigentes das equipas acusam-se mutuamente de que a do adversário está preparada com feitiço e outros argumentos. Há ainda a questão da incapacidade financeira dos clubes, que não conseguem suportar as despesas inerentes às arbitragens, o que nos leva às vezes a recorrer à arbitragem caseira, e quando assim acontece, o adversário queixa-se de uma possível batota, porque o juiz beneficiou o anfitrião, enfim, muitas situações complicadas.

 Mas a preparação dos árbitros para a alta competição passa precisamente por essa prova, porque é aí que ganham traquejo para provas mais exigentes, ou não é assim?
Exactamente. Por isso, eu peço a todos que olhem para os árbitros, não em função daquilo que produzem no fim, mas com base no que lhes é posto à disposição para trabalharem. É impossível exigir-se muito dos árbitros, quando estes não têm campeonatos provinciais regulares. Por exemplo, o que é que os árbitros do Bengo, Malange, Kwanza Norte, Zaire, Kuando Kubango ou Bié podem fazer, quando nessas regiões não existem campeonatos provinciais com regularidade? Nada.

Quantos jogos no mínimo um árbitro deve fazer por época para ascender à primeira divisão?
No mínimo, deve fazer cinquenta jogos por temporada, em vários escalões e sempre com muita pressão, antes de atingirem o Girabola. Hoje, eles atingem um mínimo de dez a onze jogos, o que é bastante irrisório, em função das exigências que se impõe. Com essa quantidade tão diminuta de jogos, qual é a capacidade que este árbitro tem, para dirigir partidas do Girabola, em que se regista um alto grau de exigência e uma pressão altíssima? Praticamente nenhuma. Nessa óptica, não podemos ver o árbitro como um cogumelo isolado dentro de uma horta, temos que vê-lo como parte de uma horta onde há cebola, tomate, couve e outros produtos, e que tem que ser regada.

ALERTA
“Temos de profissionalizar os árbitros”

JD – Concorda com aqueles que defendem a profissionalização obrigatória da arbitragem angolana?
CN – Exactamente, porque se formos a ver, em todos os campeonatos a nível da Europa ou de outras partes do mundo, os árbitros já são profissionais, mas aqui, em Angola, ainda continuamos com o amadorismo. É urgente que se profissionalize a arbitragem, porque é uma forma de diminuirmos os erros constantes. Pois, a partir do momento em que ele é profissionalizado, passa a dedicar-se integralmente à sua actividade. Tem mais tempo de treinar o suficiente, já consegue contratar um fisioterapeuta, um nutricionista, um preparador físico, só para cuidar da vida dele e tem um salário para cuidar disso, para além de sentir seguro do ponto de vista familiar, o que não acontece actualmente.

O que é que está a ser feito nesse sentido?
De momento nada, porque a nossa sociedade ainda não está preparada para isso, porque até a própria profissionalização do desporto em geral, e em particular do futebol, basquetebol e andebol não existe. O que se vive aqui no nosso país, é mais uma anarquia do que uma profissionalização propriamente dita, porque as pessoas não pagam taxas, não têm impostos e outras obrigações. Por isso é que se tem visto que quando os jogadores terminam as suas carreiras de futebolista, basquetebolista ou andebolista, passam a pedintes, a girar pelas ruas. Daí, surgem aqueles casos em que quando estão doentes, são obrigados a recorrer à Rádio 5 ou a TPA para solicitarem o apoio da sociedade.

 Isto justifica que …
Como não há um profissionalismo real, ninguém paga a segurança social, o seguro de vida ou da velhice. Enfim, até há casos em que até os contratos não existem. O que gira por aí são alguns papéis ou rabiscos que fazem com que certas pessoas fiquem ligadas a determinadas instituições ou clubes, mas como eles não sabem, coitadinhos, acabam ficando por aí.

Depois de tudo isso, que avaliação faz da arbitragem no presente Girabola?
De momento é difícil fazer uma avaliação global, porque o campeonato ainda não terminou, e estamos agora na sua fase mais complicada, porquanto ainda se vive uma grande batalha na luta pelo título no topo e outra luta pela manutenção na prova. Se virmos bem, do último classificado ao oitavo da tabela, a diferença pontual é ínfima. Então precisamos estar mais atentos ao andamento das coisas. Os árbitros precisam de estar muito mais compenetrados no ajuizamento dessas partidas, que envolvem as equipas do topo e em risco de descida de divisão.

GIRABOLA
Presidente exige
melhor qualidade

JD – Para si, onde reside o grande problema da arbitragem nacional?
CN - O grande problema da arbitragem angolana está no próprio futebol.

As debilidades do futebol angolano arrastam consigo também a arbitragem?
É efectivamente isso que se vive. Porque, se se joga mal também apita-se mal o jogo de futebol e, disso não tenhamos dúvidas. Se repararmos, quando o jogador está dentro da grande área, ao invés de progredir para a baliza e marcar o golo, prefere cair para beneficiar de uma grande penalidade, ou, na condução da bola, ao invés de evitar que este saia das linhas convencionais, prefere deixá-la sair, ou ainda, os guarda-redes preferem ficar muito tempo deitados no chão, fingindo que lhes dói isto ou aquilo em função de um choque com o adversário, que às vezes é muitíssimo leve. Aí, meu caro amigo, por mais mudanças que houver na federação, ou à frente da gestão do futebol nacional, não vamos a lado nenhum.

Como um dos vice-presidentes da Federação, o que é que há em carteira para se inverter o actual quadro reinante no futebol nacional? A FAF não gere o futebol dos clubes, mas apenas das selecções. Então, se o mal está nos clubes, a federação não tem como superar essas debilidades. Os árbitros vêm das associações provinciais, e se na sua província não há futebol, não tem um instrutor técnico para o instruir, o que é que eu como presidente do CCAFA posso fazer?Limito-me apenas a atacar aquela parte que nos cabe, que é a formação.

Perfil
Nome: Francisco Carvalho Neto
Data de nascimento: 02 de Fevereiro de 1964
Naturalidade: Malange
Formação: Jurista
Hoby: Ler e escrever
Calçado: 42
Cor: Lilás
Música: Semba
Prato preferido: Funje de bombó com peixe seco e quiabo