Jornal dos Desportos

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Reportagens

Projecto oportunidade com balano animador

Hlder Jeremias - 08 de Julho, 2012

Petizes do Lar Mama Muxima conviveram com a madrinha do projecto que se mostrou satisfeita com o desempenho dos meninos

Fotografia: Jornal dos desportos

Quem frequenta o Clube de Ténis de Luanda com alguma assiduidade nota que algo diferente se está a passar naquele recinto, ao reparar no aglomerado de crianças trajadas de uniformes rosa e verde, todas entretidas com as explicações do técnico João Sanda, que auxilia João Almeida no processo de ensinamento dos pequenos. As 30 crianças incluídas no projecto “Oportunidade para todos” pertencem ao Lar “Mamã Muxima”. Há oito meses, não realizavam qualquer actividade física, agora têm um semblante mais alegre e já dominam alguns princípios do ténis.

No final de uma representação, em que todos mostram níveis aceitáveis de remate e recepção da bola para esta etapa de aprendizagem, os pequenos juntam-se para um banquete oferecido pela madrinha do projecto, Manuela Nganga, que transbordava de alegria pelo carinho demonstrado por aquelas crianças, que muito cedo foram privadas do aconchego dos seus pais biológicos. Natural da Suíça, Manuela Nganga encontra-se há alguns anos a trabalhar em Angola e não resistiu ao encantamento do projecto filantrópico elaborado por João Almeida. Numa das suas habituais deslocações ao Clube de Ténis de Luanda para praticar a modalidade, procurou inteirar-se do assunto e não pensou duas vezes para abraçar a causa.

A trabalhar em projectos de desenvolvimento sustentável, Manuela Nganga é a principal fonte de receitas para fazer face aos custos com a aquisição de farnéis, transporte, material e outros suplementos, a par do Clube de Ténis de Luanda, que cedeu os seus courts para o trabalho. Questionada sobre as razões que a levaram a juntar-se à iniciativa, afirmou que “o ténis é uma modalidade que a minha família praticar há várias gerações, por isso, tenho grande amor por ela. Infelizmente, a prática deste desporto ainda não é acessível a todas as classes porque exige alguns custos.

Ao aperceber-me que havia pessoas a fazerem algo para estas crianças, fiquei encantada e, com o pouco que posso, estou disposta a ajudar para que um dia elas possam ter uma vida melhor”. A “madrinha” considera o balanço da primeira fase de “muito positivo, pois é só olhar para este rostos alegres que me sinto muito feliz e encorajada a prosseguir esta caminhada”.


Constrangimento
Falta de condições limita alargamento


O mentor do projecto “Oportunidade para Todos”, João Almeida, gostaria de aumentar o leque de crianças a praticarem a modalidade, mas o seu desejo esbarra nas dificuldades que ainda tem de enfrentar para prosseguir com a fase experimental. Apesar dos apoios que surgiram nos últimos tempos, João Almeida refere que um número maior de crianças implicaria a contratação de outros treinadores, o que passa pela remuneração dos mesmos.  “O nosso objectivo é dar esta oportunidade a mais pessoas carentes porque muitas crianças dos arredores do Clube de Ténis de Luanda têm pedido para fazer parte do programa.

No princípio, inserimos algumas, mas chega uma altura em que temos de fazer um balanço para ver a viabilidade de trabalharmos com um número maior de crianças. Isso será possível quando contarmos com mais apoios porque aquilo que temos ainda não é suficiente para termos mais treinadores”. O treinador das crianças, João Sanda, alinha pelo mesmo diapasão, ao dizer que a inclusão de outros técnicos seria muito benéfica para o projecto, pois ficaria menos apertado, já que várias vezes se tem confrontado com situações de incompatibilidade de tempo, o que o obriga a redobrar esforços para que as crianças não fiquem impedidas das suas lições.

“Trabalhar com crianças exige uma atenção muito grande para que qualquer situação esteja dentro do nosso controlo. Trabalho há mais de oito meses com esses petizes e gosto de estar com eles. Hoje, já vemos alguns resultados do nosso trabalho que, diga-se, não tem sido muito fácil, pois, cada uma delas tem o seu carácter e, como é óbvio, há aquelas que dão um pouco mais de trabalho”, refere.

IMPORTÂNCIA
Irmã Cristina
reconhece benefícios


A responsável auxiliar do lar “Mamã Muxima”, irmã Cristina, reconheceu que as crianças se tornaram mais animadas desde a criação do projecto “Oportunidade para todos”. Em declarações ao Jornal dos Desportos, a responsável pelas 30 crianças beneficiadas frisou que, no início, a coisa não foi levada muito a sério, porque se julgava tratar-se apenas de uma brincadeira, mas o seu impacto é de tal grandeza que este projecto está a merecer um estudo aprofundado, de modo a que outras crianças também possam vir a beneficiar, não só no ténis, mas outras modalidades mais acessíveis. “Estamos muito gratos por nos terem brindado com este projecto, perante as dificuldades materiais que o lar tem enfrentado. As nossas crianças estão mais felizes e agradecemos ao Senhor por ter iluminado as pessoas que, com todas as dificuldades, não poupam esforços para levar o projecto avante”.


RECONHECIMENTO

Crianças do lar
agradecem


Nazaré Miguel, 11 anos, a viver no lar desde os 2 anos de idade, deixa transparecer muita alegria e vontade de aprender cada vez mais. A pequena pensa em vir a representar o país nos grandes eventos desportivos, por isso, pede aos mentores do projecto que continuem a transmitir os seus ensinamentos. O mesmo sucede com Maria de Fátima Xicuamuanantes, de 10 anos, e Josefina Maria João, de 11. “Ainda não sabemos quase nada do ténis, mas o professor João Sanda está a ensinar-nos bem. Vamos dedicar-nos a fim de representarmos a nossa selecção”, finalizaram.

Quanto aos rapazes, o nível de aprendizagem é mais célere. Adão Teixeira Augusto Deni Muxima, 10 anos, e Joanilson Muxima, 7, querem se tornar referências ao nível da capital e vestir as cores das equipas grandes do país. Num discurso ainda tímido, afirmam: “queremos ser campeões de Luanda e jogar no 1º de Agosto”.