Jornal dos Desportos

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Reportagens

"Quero ajudar o 1 de Agosto a reconquistar o ttulo de campeo"

Manuel Neto - 08 de Abril, 2010

Stlvio Cruz, um dos reforo do 1 de Agosto para a presente poca

Fotografia: Domingos Cadncias

Como está em relação à lesão que contraiu durante o CAN’2010?
O pior já passou. Estou a recuperar satisfatoriamente. A cada dia que passa, sinto-me melhor e com vontade de voltar a jogar. Acredito que, se continuar assim, na próxima semana já poderei entrar em campo para dar o meu contributo ao clube, isso se o técnico decidir.

A troca do Sporting de Braga pelo 1º de Agosto foi a melhor opção?
Penso que sim, porquanto tenho vários objectivos no clube angolano. O primeiro é ajudar a equipa a reconquistar o título perdido há alguns anos. O segundo é contribuir para que o futebol angolano apareça, com boa qualidade, na arena nacional e internacional. Claro que isso só será possível se houver a colaboração de todos.

Essa opção foi bem vista pelos seus familiares?
Os meus familiares deram-me todo o apoio nesse particular. Antes de tomar a decisão, falei com eles e concordaram comigo. Se assim não fosse, acredito que nunca estaria a jogar em Angola.

Gostou do ambiente que encontrou no 1º de Agosto?
Sim, gostei! Encontrei bom ambiente e foi-me proporcionada uma grande recepção. Quando isso acontece, só facilita a integração de qualquer atleta que pretenda atingir grandes patamares como eu.

O plantel do 1º de Agosto garante o alcance do objectivo de ser campeão?
Acho que sim. Apesar de, no momento, o grupo não estar a cem por cento, devido À dificuldade que temos encontrado para formar uma equipa base, porque uma boa equipa não se faz de dia para noite. Acredito que em breve tudo será melhor para bem do investimento que se fez para a presente época.

As condições de trabalho são boas?
Estou habituado às condições do desporto em Angola, desde a minha participação na Selecção que esteve no CAN´2010. Para mim, nada é novidade. É certo que não podemos as comparar com as condições existentes na Europa, mas acredito que, pouco a pouco, vamos chegar lá. O 1º de Agosto está no bom caminho.

Girabola e Taça de Angola não bastam

Conhece bem o futebol angolano?
Sim. Ainda em Portugal, acompanhava alguns jogos do Girabola. Apesar de haver bons talentos, penso que têm muito que evoluir. Acho que uma das coisas que contribui para a evolução do nosso futebol é a emigração de atletas.

E as competições internas, no geral?
Acho que devia haver mais competições para uma maior rodagem competitiva dos jogadores. A meu ver, o Girabola e a Taça de Angola não bastam. De momento, devemos conformar-nos, tendo em conta o número exíguo de infra-estruturas, com realce para a má qualidade do relvado, que não facilita um futebol rápido e técnico, aliado ao sol que atrapalha muito. Acho que as pessoas de direito deviam rever o horário de jogos, pois o calor retira muita coisa boa ao futebol.

O que diz dos escalões de formação no país?
Ainda não tenho um grande conhecimento a esse respeito, mas, pelo que ouço, acho que necessitam de mais apoio. Não basta a vontade das pessoas que trabalham nesses escalões etários, pois quer os juvenis, quer os iniciados e quer as escolas de futebol são imprescindíveis para o sustento das selecções seniores.

Como caracteriza a formação dos técnicos nesses escalões?
O técnico é um elemento preponderante na formação de jogadores. Por isso, é importante que ele renove constantemente os seus conhecimentos, na medida em que têm 50 por cento da responsabilidade do fruto que se colhe nesses escalões. Acho que deviam merecer mais formação no estrangeiro para melhorarem a qualidade do seu trabalho.

Como avalia as nossas infra-estruturas desportivas?
Penso que a construção dos quatros estádios que foram utilizadas durante o CAN abriu um bom caminho a esse respeito. São estádios magníficos, que podem ser comparados com os melhores do mundo, mas é necessário que se construa mais campos para as competições nacionais e às camadas de formação.

"Jogar em Portugal
deu-me muita experiência"

Fale da sua experiência no estrangeiro...
Fez-me crescer muito como atleta e como homem, pois existe uma grande diferença entre o futebol angolano e o português, concretamente em termos competitivos. Se mais jogadores angolanos emigrassem, seria muito bom para o futebol local e seria um contributo valioso tanto para a Selecção, como para as equipas angolanas.

Porque o jogador angolano prefere jogar em Portugal, em detrimento de outros países europeus?
Não existe uma razão especial. A verdade é que, comparativamente a outros países europeus, o futebol português é de fácil adaptação para o jogador angolano. Aliás, é sempre bom passar primeiro por um futebol de nível médio e, posteriormente, ir a um de nível superior. A par disso, Portugal tem vantagem devido ao clima e à língua.

Com quantos anos foi para o Braga?
Com sete. Fiz lá toda a minha formação. Passei um ano em Espanha, pelo facto do meu pai ter ido lá jogar andebol e, depois, regressei. Foi muito bom, porque joguei em várias posições, como a de médio, defesa e trinco.

Em Portugal, nunca teve e oportunidade de ingressar em equipas mais cotadas?
Tive vários convites, inclusive de equipas espanholas, alemãs e inglesas. Infelizmente, não pude concretizar a transferência, devido ao desacordo que houve entre a minha ex-equipa e as interessadas nos meus préstimos. Gostaria que a presença no país me relançasse na arena internacional.

O que ganhou de realce durante o tempo em que jogou em Portugal?
Ganhei muita experiência e boa qualidade de vida. Pouco tenho a reclamar, porque os bens conseguidos têm sido extensivos aos meus familiares. Hoje, tenho residência e viatura pessoal devido ao futebol.

É casado?
Não sou, mas vivo maritalmente há pouco tempo. Ainda não tenho filhos.

Pode-se dizer que "filho de peixe sabe nadar", uma vez que é filho de Filipe Cruz, treinador do 1º de Agosto e da Selecção Seniores Masculina de Andebol?
Acho que a minha família tem muito jeito para o desporto. Basta ver que o meu pai jogou andebol e eu jogo futebol. Por isso, sinto um grande orgulho, na medida em que o desporto é uma grande valia para a vida.

O orgulho
de participar no CAN

Apareceu na selecção de Angola que participou no CAN´2010 com 21 anos. Teve o apoio dos seus pais durante a prova?
Eles diziam com frequência para ajudar o nosso país a ir o mais longe possível, para sermos reconhecidos a nível internacional. "Dá o teu melhor", diziam. Aliás, o meu pai tem uma palavra de ordem que é a seguinte: "correr e trabalhar e o resto vem com naturalidade". É isso que me tem feito um homem forte.

Como a família reage quando você perde um jogo?
Tenho um defeito. Quando perco, não falo de desporto, tranco a cara e fecho-me no meu quarto. O meu pai já me conhece. É certo que no futebol existem três resultados possíveis, que são a vitória, o empate e a derrota, mas ninguém gosta de perder.

Como se sentiu na estreia pela Selecção de Angola no CAN?
Foi um orgulho. Já joguei em grandes palcos, mas representar a Selecção Nacional foi a maior felicidade que tive ao longo da minha carreira. Jamais esquecerei.

Acha que tínhamos possibilidade de ir mais longe?
Sim. Angola apresentou um bom futebol, mas infelizmente não pôde chegar às meias-finais, como era o nosso anseio, embora todos tenham dado o seu melhor. Faltou uma pontinha de sorte, mas temos de ter paciência porque o futebol tem dessas coisas.

Gostou de trabalhar com Manuel José?
Sim. Gostei imenso. Acho que se podia dar mais oportunidade para que ele pudesse amadurecer o trabalho que levava a cabo. No pouco tempo que esteve cá, ele fez um excelente trabalho.

A morosidade na escolha do novo seleccionador nacional não o preocupa?
Penso que não, até porque os dirigentes da Federação Angolana de Futebol são competentes. Acho que ainda temos muito tempo pela frente. Aliás, questões do género devem-se resolver com calma para evitarmos consequências negativas no futuro.