Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Reportagens

"Quero contribuir para evoluo da modalidade no pas"

Augusto Fernandes - 06 de Fevereiro, 2015

Bartolomeu Conde treinador de Atletismo

Fotografia: Jornal dos Desportos

Bartolomeu Conde foi para a Portugal em 1979 com a madrinha para tratamento de uma enfermidade que tinha nos pés e acabou por ficar cerca de três décadas.

Com o passar do tempo decidiu jogar futebol nos juvenis do Benfica de Lisboa. Bartolomeu Conde conta: “Inicialmente comecei por jogar futebol nas camadas jovens do Benfica de Lisboa. Mas o futebol é muito violento. Em certa ocasião levei uma canelada que me fez desistir de jogar futebol. Mas como sempre tive um espírito desportivo optei por praticar atletismo que é uma modalidade individual e sem correr os mesmos riscos que o futebol apresenta e tem tudo: lançamento, salto em altura, velocidade, etc. No atletismo a pessoa tem muitas opções."

Bartolomeu Conde entrou no mundo do atletismo no Grupo Desportivo da Boavista, que se situava próximo do estádio de Alvalade.

Posteriormente foi para a Moita e representou o Clube Desportivo Moitense da terceira divisão, o Desportivo dos Loures e posteriormente foi para o Setúbal. “Já um pouco mais maduro fui convidado a representar o Benfica de Lisboa onde fiquei quase cinco anos e saí por razões pessoais. Mas como não podia representar uma equipa da Primeira Divisão, já que tinha de pagar um valor muito alto pela rescisão, só podia representar um clube da Terceira Divisão e fui parar novamente ao Loures. Depois disso fui para o Belenenses, onde fiz a minha carreira como atleta e treinador”.

Quisemos saber qual era o  ponto forte de Bartolomeu Conde como atleta: “O meu ponto forte era a marcha atlética. Em 1988 participei numa prova de 50 km em Portugal com a participação de atletas portugueses e espanhóis (fui o único africano na prova).

Fiquei em terceiro lugar com 4h42, marca considerada   recorde angolano. Por isso o meu treinador enviou uma carta à Federação Angolana de Atletismo para que eu fosse inscrito para os Jogos Olímpicos daquele ano (Seoul88), pois a minha marca dava para eu representar o país. Mas infelizmente passado algum tempo a FAA (Federação Angolana de Atletismo) disse que não foi possível inscrever-me para os Jogos Olímpicos, porque a carta chegou tarde. Fiquei muito desiludido. Hoje ninguém sabe de mim, sou um ilustre desconhecido no mundo do atletismo angolano. Naquela época eu era o único marchador angolano no exterior do país e com bons números”.

Para Bartolomeu Conde não foi fácil lidar com a desilusão. Ele conta:  “Devo admitir que não foi fácil. Se tivesse ido aos Jogos Olímpicos seria um feito histórico para mim e certamente teria dado um outro rumo à minha vida. Mas o mundo é assim mesmo.

Temos de saber lidar com estas situações. Aos poucos fui superando o desânimo e em 1990 decidi fazer o curso de treinador de atletismo, começando primeiro como monitor e depois fiz vários cursos do ramo. Assim dando sequência à minha formação ingressei na Escola Municipal dos Desportos de Lisboa onde funcionei com o governador da Câmara Municipal num projecto desportivo em duas escolas sediadas em Lisboa e Madrid, eu fazia o vai-e-vem e era uma peça fundamental no andamento do referido projecto”.

Hoje, Bartolomeu Conde é treinador de uma das equipas mais carismáticas do país, feito que conseguiu depois de fazer os cursos de 1.º e 2.º graus de treinador e foi evoluindo nas camadas jovens, subindo degrau a degrau até chegar a formar boa parte de atletas juniores e seniores que representaram a selecção portuguesa em atletismo. “Nesta fase fui tendo maior reconhecimento e cheguei a ser um dos filhos mais queridos do Belenenses, tendo sido o treinador principal dos seniores daquela equipa em 2012 até regressar ao país que me viu nascer em 2013.”

Em Angola desde Outubro de 2013, Bartolomeu Conde  reencontrou a sua família depois de 34 anos sem contacto com eles.

Bartolomeu Conde recorda como foi aquele dia memorável: “Foi um momento indescritível. Quando cheguei a Benguela fui a rádio local e deixei os meus dados. No dia seguinte ligou um jovem a dizer que era meu sobrinho. Expliquei onde estava e o jovem apareceu poucos minutos depois. Levou-me a casa da minha irmã e foi uma grande festa. Houve de tudo um pouco. Agora só me falta ir a Ganda, minha terra natal”.

Há mais de uma época no clube militar do rio seco Bartolomeu Conde diz que já deu para perceber que o 1º de Agosto é um grande clube e que goza da simpatia de muita gente e por isso é uma grande responsabilidade representá-lo. "Mas aos poucos vou conhecendo melhor o clube internamente e o mesmo também esta a acontecer com os atletas”.

O treinador militar é de opinião de que  o 1º de Agosto não é só uma potência mas também é um clube que tem a obrigação da fazer mais pelo atletismo do país, atendendo ao número de simpatizantes que ostenta.

"É verdade que ainda nos faltam algumas condições básicas para o melhor treino possível, mas estas condições podem ser criadas a médio prazo. O nosso pais está em franco desenvolvimento, por isso tenho grandes motivos para acreditar que o mesmo também se vai dar com o desporto e especialmente com o atletismo.”

O grande objectivo de Bartolomeu Conde como treinador é ajudar o clube a ganhar o maior números de títulos possíveis. Alem disso pretende contribuir com todo o  saber para o desenvolvimento do atletismo angolano. “Isto só pode acontecer se apostarmos seriamente nas modalidades individuais e o atletismo é ou seja deve ser uma das modalidades mais investidas, pois temos como exemplo  José Sayovo. Quero ver a bandeira de Angola ser hasteada nos Jogos Olímpicos com atletas que passaram por mim”.

Conde, disse mais: “Sentir-me-ei muito grato quando um dia ver um atleta formado por mim vencer uma prova mundial ou mesmo africana e assim dignificar o nosso país”.

Entretanto o jovem treinador diz que se deve prestar a devida atenção à modalidade, o que implica dizer que se deve investir nos recintos desportivos de modo a praticar-se a modalidade sem sobressaltos.

“Às vezes temos de improvisar treinar na praia, no Miramar ou nos Coqueiros. Além disto também faltam alguns materiais para um treino eficaz. Temos de criar as condições básicas em termos alimentares para antes e depois do treino. No entanto já temos uma pista e dentro de dias passamos a usá-la."

Desde que está no comando técnico do clube militar, Bartolomeu Conde venceu o campeonato nacional em masculinos e teve um segundo lugar em femininos alem de outras vitorias a nível provincial. No entanto ele diz que a médio e longo prazo vai mostrar a força do clube as forças armadas no atletismo nacional.

Em sua opinião, o atletismo é uma modalidade olímpica e "a mãe" de todas as modalidades desportivas. É a modalidade mais completa pois tem quase tudo. É uma modalidade familiar. Quase todos podem fazer exercícios físicos, correr, nadar, lançar, saltar, no futebol, andebol, basquetebol ou outra modalidade qualquer um tem de entrar atletismo em forma de corrida, exercícios físicos e assim por diante.”

Quisemos saber a diferença em termos de importância entre um campeão olímpico e um campeão mundial. Conde explica: “Os Jogos Olímpicos são uma exposição. É uma espécie de feira onde se mostram os melhores produtos do desporto a nível do globo. Tem uma grandeza muito superior à de um Mundial. Repare no número de países que participam num jogos Olímpicos. Não se pode comparar com os de um Mundial. Portanto, um décimo lugar nos Jogos Olímpicos tem muito mais valor que o quarto lugar num Mundial.

Enquanto um campeão do mundo pode ser facilmente esquecido quando surgir um outro, o campeão olímpico é quase eternizado.”

Em relação à São Silvestre de Luanda, Bartolomeu Conde  explica  porque nos limitamos a ver os etíopes e quenianos a dominar a prova: “Enquanto não nos organizarmos, não fizermos as coisas com cabeça, tronco e membros vai ser difícil ganhar uma São Silvestre.


POR DENTRO


Nome:
Bartolomeu Conde
Filiação: Afonso Petutela
e Paulina Samba
Ano  de nascimento:  5/01/1967
Estado civil: Solteiro
Filhos: Nenhum
Irmãos: Três
Prato preferido: Calulu de Peixe
Bebidas: Vinho e cerveja
Música: A boa musica
Casa própria: Não tem
Carro: Não tem
Tem medo da morte: Sim porque nos impede de ver o futuro
Religião: Católico
Clubes do coração: 1º de Agosto e Belenenses
Sonho: Ver um atleta formado por mim ser campeão olímpico