Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Reportagens

Reforma Educativa no pas prev insero do jogo-cincia

Joo Francisco - 18 de Fevereiro, 2010

Protocolo foi assinado em 2005

Fotografia: Jornal dos Desportos

À semelhança de países (onde Angola bebeu no passado experiência dos modelos de sociedade) como a antiga União da Republicas Socialistas Soviéticas (URSS) e Cuba, a reforma do Ensino Técnico Profissional prevê a implementação de clubes escolares de xadrez nas escolas integradas no Projecto RETEP. O Projecto existe deste 2005, altura em que o elenco de Aguinaldo Jaime assumiu as rédeas na Federação Angolana de Xadrez (FAX) e, cinco anos depois, começa a ter pernas para andar.

Doze escolas, das quais nove de Luanda, uma de Benguela, e outras duas da Huíla e de Cabinda, designadamente o Instituto Médio Comercial, o Instituto Médio de Economia do Kilamba Kiaxi, Instituto Médio de Economia do Lubango, Instituto Médio de Economia de Luanda, Instituto Médio de Economia do Kikolo, Instituto Médio Industrial de Benguela, Instituto Médio Industrial de Luanda, Instituto Médio Industrial do Prenda, Instituto Médio Politécnico Alda Lara, Instituto Médio Politécnico de Cabinda, Instituto Médio Politécnico Pascoal Luvualu e Instituto Médio Técnico 17 de Setembro, foram as primeiras instituições a serem seleccionadas a inserir o xadrez, entre as integradas no Projecto RETEP ( Reforma do Ensino Técnico Profissional).

Com base neste projecto, que iniciou em Março de 2005, a Federação Angolana de Xadrez assinou um protocolo, em que estiveram igualmente envolvidos o Ministério da Educação, a Academia de Xadrez de Gaia (Portugal) e a Empresa Lusis, equipamentos e Serviços, Lda. Foram signatários do protocolo de cooperação desportiva o então ministro da Educação, Burity da Silva, o presidente da FAX, Aguinaldo Jaime, o administrador da Lusis, José Paiva, e o presidente da Academia de Gaia, Jorge Antão.

Melhorar a qualidade da prática na camada juvenil é meta

O projecto para o desenvolvimento do xadrez juvenil destaca as valências educativas da prática da modalidade, que se manifesta na sua contribuição para o desenvolvimento intelectual, a educação social e desportiva, objectivos culturais, ampliação dos conhecimentos, bem como o desenvolvimento pessoal e formação do carácter. O protocolo determina ainda que "com a criação dos clubes escolares, para além das valências educativas, o projecto visa aumentar o número de praticantes jovens e melhorar a qualidade da prática do xadrez na camada juvenil.

Caberá ao Ministério da Educação, ao criar os clubes de xadrez inseridos no Desporto Escolar, caracterizar a actividade como complemento curricular, permitindo aos alunos a prática de actividades desportivas em ambiente educativo, sob a orientação de professores, podendo configurar-se como a principal possibilidade para a maioria dos jovens poderem participar em quadros competitivos de forma regular.

Definidas as tarefas das escolas

Segundo os mentores do protocolo, "às escolas mobilizadas compete nomear os professores responsáveis pelo funcionamento dos clubes escolares, promover as acções de divulgação das suas actividades e a inscrição dos alunos interessados, assegurar o enquadramento espacial e material adequado, bem como a coordenação e orientação técnico-pedagógica dos alunos que integram o escolar", algo que já acontece no Imil, a primeira instituição que desde o dia 07 de Fevereiro passou a contar com o seu próprio espaço.

De acordo com o Presidente da Federação Angolana de Xadrez, Aguinaldo Jaime, "o Imel (Instituto Médio de Economia de Luanda), será a próxima escola a beneficiar deste projecto com valências educativas no desenvolvimento da atenção e o poder de concentração, aumento da percepção, análise, síntese e orientação espaço-temporal, bem como potenciar a capacidade de raciocínio lógico-matématico, desenvolvendo igualmente a criatividade e a imaginação.

O nosso jornal soube, igualmente, que nalgumas escolas já mobilizadas poderão ser criados Centros de Formação Desportiva de Xadrez (CFDX). Estes deverão incluir, obrigatoriamente, alunos de outras escolas, tendo de ser celebrado protocolos entre as escolas envolvidas, aprovados pelas direcções das mesmas e pela Direcção Nacional do Ensino Técnico Profissional.

Federação encarregue da formação

A Federação Angolana de Xadrez (FAX), numa primeira fase, vai colaborar na qualificação técnica dos professores, através de acções de formação contínua que abordem não só aspectos técnicos da formação do xadrez como também competências organizativas dos clubes e eventos. À FAX caberá ainda sensibilizar e habilitar as associações provinciais (APXs) de meios para se tornarem mais um parceiro do processo.

O protocolo sublinha que é importante que os professores tenham toda a receptividade e apoio das associações para desenvolverem os seus clubes escolares, nomeadamente na resolução dos aspectos técnicos que não dominem, como a organização de torneios, o encaminhar para o desporto federado dos alunos mais talentosos e/ou mais dedicados, a criação de clubes federados, a especialização própria ou dos alunos, etc.

Compete, igualmente, ao órgão reitor da modalidade, formar quadros monitores/animadores, no seio das associações provinciais. Estes técnicos terão de ser qualificados e, ao serviço das associações, apoiarão os clubes escolares e farão a ligação destes com o desporto federado, através do fomento da criação de clubes federados nas escolas e captando os jovens mais talentosos para os clubes já existentes.


O papel da Academia de Gaia e Lusis.

A Academia de Xadrez de Gaia (Portugal) prestará todo o apoio na organização dos clubes escolares, colaborando com as direcções das escolas, com o Ministério da Educação, com a Federação Angolana de Xadrez (FAX) e a Lusis, organizando propostas para uniformizar o quadro competitivo e o regulamento especifico da modalidade no Desporto Escolar, a nível escolar e nacional.

Quanto a empresa Lusis Equipamentos e Serviços, Lda, no âmbito do Projecto RETEP, além do apoio em geral à criação destes clubes, oferecerá às escolas com clubes escolares material apropriado, designadamente tabuleiros, peças e relógios, cientes de que os alunos terão um melhor desempenho. O responsável pelas academias de xadrez na Federação Angolana de Xadrez, que engloba a prática nas escolas, é o engenheiro Tito Martins.

Honra aos "mestres" a título póstumo

Embora não tenha atingido a categoria de Mestre no xadrez, Alexandre Gourgel, que já não faz parte dos vivos, foi em vida um dos “pioneiros” do surgimento das escolas de xadrez em Angola. A partir dos círculos de interesses (era assim que se chamavam os núcleos da modalidade na escolas) de xadrez nas escolas, Alexandre Gourgel criou a Escola de Xadrez da Constrói que, entre os anos setenta e oitenta, foi a que mais talentos forjou.

Mestres como Alberto Jorge, João Francisco, Francisco Briffel e Alexandre do Nascimento, passaram por aquela escola. O ex-presidente da Federação Internacional de Xadrez, Frederic Olafson, de visita a Angola, visitou aquele núcleo de xadrez, por detrás do prédio da Maianga, onde funcionava a maior parte dos gabinetes da empresa Constrói. Alexandre Gourgel e Marcolino Meirelles foram, em outras palavras, dois dos precursores do xadrez corporativo.

Se Gourgel ou "Xandoca" fez com que, enquanto esteve disponível, o xadrez fosse apoiado por uma empresa onde chegou a dar a sua colaboração, Marcolino Meirelles fez o mesmo em relação à Nocal, empresa que chegou, inclusive, a patrocinar a realização de mais de uma dezena de torneios internacionais. Já Mário Silla, o primeiro Campeão de Angola, numa altura em que ainda não se atribuía o título de Mestre Nacional (MN) (atribui-se agora aos vencedores dos campeonatos nacionais Individuais Absolutos), levou o xadrez às Forças Armadas, onde também surgiram várias escolas, em que passearam a sua classe muitos dos nossos oficias superiores do exército.

Não podíamos fazer uma incursão ao regresso do xadrez dos musseques às Escolas, sem que tecêssemos as referências que se impõem a estas três importantes figuras do mosaico escaquistico angolano. No passado, o xadrez teve tradição em quase todas as escolas do ensino secundário, particularmente em Luanda, com destaque para o Makarenko (antiga Escola Industrial, agora IMIL), Mutu ya Kevela (ex- salvador Correia), Alda Lara, N´gola Kanine, só para citar alguns.

Na antiga Escola Industrial ou Comercial surgiram jogadores como Mário Sillas, Marcolino Meirelles (os dois já falecidos), Agostinho Adão, Cassiano e Rogério Ferreira, os irmãos Velosos (José e Hermenegildo), os também irmãos Cassiano e Rogério Ferreira, Luís Borges, entre outros. Isto para dizer que, a história do xadrez angolano sempre esteve ligada às "escolas" e mesmo àqueles que vieram dos musseques passaram por estas verdadeiras academias ou tinham que vencer os integrantes destas instituições do ensino para começarem a ser considerados verdadeiros jogadores.

Muitos dos nossos melhores jogadores ainda se lembram dos verdadeiros momentos de felicidade, quando comemoravam uma vitória sobre um dos"veteranos" como Agostinho Adão, Mário Silla ou Marcolino Meirelles. Verdadeiros "sururus" eram protagonizados antes e depois de um "match" entre um consagrado e um jovem que queria ganhar um "lugar ao sol", nos diversos torneios abertos, que eram disputados, principalmente, nos ginásios das escolas que referimos.