Jornal dos Desportos

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Reportagens

Renascer das cinzas

Júlio Gaiano, no Lobito - 19 de Março, 2010

Bocóio se deliciavam com as grandes e belas exibições

Fotografia: Jornal dos Desportos

Com o recrudescer das acções armadas na região, que se prolongaram durante décadas, desde princípios dos anos 80 do século passado, grande parte dos serviços administrativos paralisaram e o desporto também não se safou, ficando reduzido às saudades.
Saudades que, nos tempos livres, eram "apagadas" pelos soldados e alguns funcionários públicos, entre professores, enfermeiros e pessoal administrativo, que se reuniam num campo para dar alguns chutos na bola, alegrando a assistência composta, principalmente, por elementos de sexo feminino.

Foram momentos críticos na vida daquela população que, por força da instabilidade militar, tinha pouco para se divertir, depois da jornada laboral. Ainda assim, valeu a bravura e a coragem das autoridades locais, que mesmo no calor da guerra, procuraram manter movimentada a população da região com pequenas acções desportivas, embora a defesa do município estivesse em primeiro lugar. Aliás, o momento exigia de cada cidadão vigilância e disciplina. O resto pouco contava. Ultrapassado que está o cenário de desestabilização provocado pela guerra, uma nova era desportiva está a ser vivida no município do Bocóio. As alegrias e as glórias voltaram a fazer morada nos rostos dos habitantes.

Em função da realidade vivida, as autoridades administrativas da região, lideradas por Deolinda Valiangula, ensaiam formas para se sair da letargia em que o desporto se encontra mergulhado. Foram identificados os locais para se erguer algumas infra-estruturas desportivas, como os pavilhões gimnodesportivos e campos de futebol, tanto na sede municipal, como nas comunas e nalguns bairros de maior concentração populacional.

A par dessas iniciativas, as atenções da Administração Municipal estão centralizadas na recuperação do pavilhão gimnodesportivo "Major Saidy Mingas", situado bem no centro da vila da sede do município, dada ao interesse primário traçado que passa em pôr em prática o projecto de massificação e fomento desportivo nas disciplinas de salão, nomeadamente, o basquetebol, andebol, voleibol e ginástica (rítmica e desportiva).

Em busca
do tempo

Existe trabalho no município do Bócio. Os factos são visíveis na sede municipal. A Administração está determinada a reanimar o desporto na terra rica em ananás e forte em tradições orais. Um potencial que se perdeu no tempo por culpa da guerra fratricida, que se prolongou durante muito tempo no país.

O vice-administrador, Quintino Vicente Pedro, confirma as consequências da guerra que dilacerou o país, no seu todo, e o município, em particular, que foi um dos mais afectados. "Durante muito tempo, vivemos o desporto aos sons dos rádios e de alguns jornais que nos chegavam através dos familiares e amigos", disse.

A esperança por melhores dias nunca se desvaneceu. "Agora, o momento é outro, o país está em paz efectiva, precisamos de inverter o quadro e viver o calor do desporto ao vivo". Tão vivas como Angola, estão as inúmeras mãos unidas de angolanos em prol do bem-estar social. “Decidimos partir para a recuperação das infra-estruturas desportivas destruídas”, disse.

O município do Bocóio viu as infra-estruturas arrasadas pelas bombas, o que forçou a paralisação da prática desportiva. Foi duro para uma juventude que não teve outra escolha senão alistar-se nas Forças Armadas e conservar o pouco que restara das infra-estruturas socio-económicas e desportivas.

"Foi duro, mas valeu termo-nos sacrificado um pouco", comentou Afonso Tchipondia, desmobilizado das FAPLA, para quem o Bocóio está a mudar muito para melhor.  Enquanto as obras continuam no seu curso normal, o atletismo, karaté-dó e xadrez preenchem as ‘vacaturas’ deixadas com a impraticabilidade dos desportos colectivos (futebol, basquetebol e andebol).

Desporto escolar
parado no papel

O programa de desporto escolar, traçado pelo Governo Provincial, continua por se concretizar no município do Bocóio. Problemas administrativos, associados à insuficiência de quadros capacitados para levar avante o projecto, estão na base da situação.
"A nível local, temos poucos professores de Educação Física e a maioria das escolas não possuem espaços para desenvolver o desporto escolar, o que dificulta a implementação prática nas escolas", comentou um dos professores.

Mesmo assim, o nosso interlocutor disse acreditar que a ausência de actividade desportiva nas escolas não é da responsabilidade das direcções escolares, mas do Governo Provincial, que deve criar incentivos para que a mesma seja fomentada nas escolas, sobretudo, onde as condições estejam, minimamente, criadas para o efeito. Tendo em conta as condições em que se encontra a maioria das escolas do Bocóio, o professor que prefere identificar-se por KCDK, por recear represálias, afirma que o futebol e o atletismo devem constituir prioridades nas escolas locais. 

Girabairro preenche vazio

Na ausência de desporto de alto rendimento, o Girabairro-Taça do Presidente colmata o vazio aos fins-de-semana, com a movimentação da juventude do Bocóio. A organização do certame é da responsabilidade da secção municipal da Juventude e Desportos e do núcleo do Movimento Nacional Espontâneo que, em parceria com a sua congénere do Lobito, que fica a 75 km, tem sabido levar a bom porto as provas locais.

Para a presente edição (quinta), a prova conta com a participação de 10 equipas. Por aquilo que constatamos “in situ”, a organização debate-se com muitos problemas, que se agudizam a cada dia que passa, por falta de apoios materiais e financeiros. “Está tudo na base de improvisos”, segundo revelaram pessoas ligadas à organização do Girabairro.

As equipas carecem de tudo um pouco, desde bolas e equipamentos a chuteiras. Inclusive, acontece que, em certos campos, por falta de dinheiro, os jogos são realizados sem alinhamento. O outro problema é a falta de rede para a cobertura das balizas, o que provoca grandes embaraços no ajuizamento dos lances duvidosos com rótulo de golo.

Arrelvamento do campo
encalhado há três anos

Aquando da primeira deslocação à região do Bocóio (Março de 2007), ficou-se a saber das autoridades locais que o município ganharia um campo relvado até ao ano seguinte. Naquela altura, constituiu uma grande novidade e moveu de alegria boa gente da província de Benguela e, em particular, os naturais e amigos daquele município.

O vice-administrador Quintino Pedro, que havia anunciado a boa-nova, alegara que o trabalho de prospecção já tinha sido feito pelos especialistas na matéria na província, que aprovaram a qualidade do solo para a colocação de relva natural.

As convicções de Quintino Pedro basearam-se nas garantias dadas pelo então governador provincial, Dumilde das Chagas Rangel, que aquando da sua visita de trabalho àquele município, havia prometido relvar o campo num período de dois anos.

E, pelas contas feitas, a relva estaria pronta até finais de 2008, ou, o mais tardar, entre Janeiro e Fevereiro de 2009.  Passados que foram os dois anos, as obras continuam paralisadas e a apreensão toma conta dos habitantes, na maioria jovens ávidos de praticar futebol. A empreiteira convidada a executar os trabalhos abandonou a obra e deixou grandes crateras no centro do rectângulo.

A equipa de reportagem procurou ouvir alguém ligado à administração local, mas redundou em fracasso. Todas as pessoas convidadas a pronunciarem-se sobre as causas que levaram a empresa contratada para o arrelvamento a abandonar a obra negaram-se a falar no assunto. As que acederam ao pedido fizeram-no sob a condição de anonimato.

"Veja e tire sozinho as suas conclusões. Não estou autorizado a pronunciar-me sobre o assunto. A administradora pode dizer-lhe algo sobre isso e outros empreendimentos encalhados por incumprimento das cláusulas por parte de alguém”, comentou um dos funcionários da Administração do Bocóio.

Sectores da hotelaria e turismo
à espera de melhores dias

Apesar dos investimentos que estão a ser feitos na recuperação das principais infra-estruturas, que podem servir para relançar o desporto na região, o município do Bocóio continua a debater-se com problemas de hospedagem.
Os populares contactados pela equipa de reportagem afirmaram que, no capítulo referente à hotelaria e turismo, a Administração somou poucos pontos, o que tem criado sérios embaraços para acomodar delegações numerosas que acabam por acampar em escolas ou mesmo em jardins públicos.

O município possui duas pensões e igual número de restaurantes, que servem os turistas que se deslocam em negócios ou lazer. Bocóio é uma localidade que muito tem por se explorar e mesmo as pequenas lojas contam-se a dedo. Contabilizam-se seis, na sua maioria geridas por expatriados asiáticos.

Agenda inviabiliza contacto com o JD

O contacto com a Administradora Municipal, Deolinda Valiangula, foi inviabilizado porque na altura da nossa estada no município, a mesma se havia ausentado para a sede da província, Benguela, que dista a 105 km, segundo nos foi informado por um alguém que se identificou como funcionário da Administração local.

Contudo, uma fonte bem posicionada daquela instituição garantiu-nos que a Administradora se encontrava algures no território do Bocóio e que, por razões de calendário, estaria indisponível para qualquer pessoa. Aconselhou-nos a marcar audiência com a Dr. Deolinda Valiangula.

Cumpridas tais formalidades, continuamos à espera da chamada para a devida entrevista. Um facto que nos custa a crer, dada a abertura que lhe é conhecida, como pessoa de trato fácil e pronta a responder a todas as questões que são colocadas.