Jornal dos Desportos

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Reportagens

Rui Campos mantm crena no ttulo

Pedro Augusto - 23 de Abril, 2010

Rui Campos, presidente do Recreativo do Libolo

Fotografia: Jornal dos Desportos

"Vamos acabar a primeira volta do campeonato na linha da frente" A direcção do Recreativo do Libolo mantém a ambição pelo título do Girabola´2010. O sétimo posto que ocupa no presente campeonato, com 10 pontos, menos sete que o líder FC Bravos do Maquis, não constitui motivo de grande preocupação nas hostes do clube liderado por Rui Campos. Em entrevista ao "Jornal dos Desportos", o presidente do grémio de Calulo assegurou que a equipa está a praticar um bom futebol, por isso, acredita que vai terminar a primeira volta na linha da frente. O "número um" dos libolenses espera ver se as equipas que estão nas posições cimeiras tenham sustentabilidade para manter as performances ao longo dos 30 jogos.

Cumprida que está metade da primeira volta do Girabola´2010, o que se lhe oferece dizer em relação ao nível competitivo do mesmo?
A leitura que faço é de que estamos perante um campeonato muito competitivo, em que as equipas que tradicionalmente se posicionam na segunda metade da tabela classificativa, estão nos lugares cimeiros. Isso, digamos, de uma maneira geral, é bom para a competição, pois, traz novos motivos de interesse. Aliás, os adeptos dessas equipas estão empolgados, os atletas igualmente, o que faz com que a prova saia da monotonia.

E quanto à prestação do Recreativo do Libolo?
Quanto ao Libolo, digamos, está numa posição similar à dos tradicionais candidatos ao título, que estão mais ou menos na nossa zona de pontuação, isso porque as equipas teoricamente mais fracas tiveram boas prestações nos jogos que disputaram contra o Libolo e o 1º de Agosto. Quero com isso dizer que vamos ter um campeonato competitivo; acredito que este ano o campeão vai se definir por uma diferença de quatro ou cinco pontos. De qualquer forma, vamos ver até que ponto as equipas que estão na frente na tabela classificativa têm sustentabilidade para manter o nível de performance ao longo dos 30 jogos.

Dos 24 pontos possíveis, o Libolo perdeu 14. Isso não "belisca" as vossas pretensões para a presente época futebolística?
Não. Mas podíamos estar melhor. O Libolo poderia ter, neste momento, mais nove pontos. Foram dois empates e uma derrota em casa. São pontos que somados aos 10, nos colocariam nas posições cimeiras do campeonato. O mesmo poderão dizer os candidatos 1º de Agosto, Petro e Interclube.

Não teme que os efeitos de 2009, em que o Libolo também perdeu muitos pontos em casa, principalmente com equipas que não são do "seu campeonato"?
É verdade que são sempre pontos e que fazem falta e no fim, se não alcançarmos os nossos objectivos, espero eu alcançar, vamos recordar os jogos com o ASA e com o Soyo. Ainda assim, acredito que o Libolo acabará a primeira volta do campeonato na linha da frente.

Se a classificação da equipa não o preocupa assim tanto, o que dizer da qualidade do futebol que a equipa do Libolo está a praticar este ano?
Esta é a parte que me deixa mais tranquilo. Hoje, o Libolo joga um bom futebol. É pena que as pessoas em Luanda não tenham muitas oportunidades de ver, porque jogamos muito em campos que não têm transmissão televisiva, mas o Libolo está a jogar um futebol com um nível acima da média que se pratica no Girabola. Isso deixa-me tranquilo, porque o Libolo está a evoluir, está a jogar cada vez melhor.

Quer com isso dizer que o plantel se mantém à altura dos grandes desafios (Girabola e Taça de Angola) da presente época?
Sem dúvidas, embora tenhamos tido alguns constrangimentos, pois, perdemos dois jogadores por lesão, por sinal avançados, o Reginaldo e o Fuxito. Vamos tentar fazer de tudo para os recuperar e, se não for possível, temos de colmatar essas brechas na época de inscrição de Junho. Mesmo assim, o Libolo tem muitos atacantes, faz golos. No início da época, cometíamos muitos erros defensivos, mas agora cometemos menos. Espero que a equipa descole a partir de agora.

Qual a gravidade de lesão do Reginaldo e do Fuxito. Ainda jogam esta época? Caso não recuperem e na eventualidade da contratação de outros avançados, já existem contactos nesse sentido? Quem são e qual a proveniência dos mesmos?
Possivelmente, voltam a jogar esta época, mas não na primeira volta. Agora, caso eles não voltem a jogar esta época, temos sim várias hipóteses. Uns de fora e outros do mercado nacional. A nível interno só será possível com a reabertura do mercado, em Junho, com acordos entre clubes. Estamos a trabalhar em três/quatro hipóteses para ver se concretizamos duas.

Qual a proveniência dos jogadores estrangeiros? Brasil, Portugal...
De Portugal, não. Estamos a tentar negociar um ponta-de-lança brasileiro e um nigeriano que actua no Esperance de Túnis.

Equipa precisa de mais experiência internacional

O Libolo fez uma grande aposta para "atacar" as provas africanas na presente época. O senhor sente-se frustrado por não terem atingido à fase de grupos da Liga dos Campeões Africanos?
Foi, de facto, um balde de água fria que sofremos com a nossa eliminação nas competições africanas. Queríamos ir mais longe na prova, não para ganhar, pois ainda não demos esse salto. A competição da CAF é uma coisa diferente, é preciso primeiro ganharmos internamente para depois ganharmos fora. Não consideramos um drama a nossa eliminação.

Mas sempre deu para ganhar alguma experiência nessa competição?
Claro que sim. Aliás, o objectivo era dar experiência para futuras participações. Estamos com pena, é verdade, porque o APR é uma equipa que estava ao nosso alcance. Empatámos a duas bolas em Kigali e perdemos em casa num jogo em que não jogámos bem. Foi daqueles jogos em que os jogadores não cumpriram com o que havia sido programado, porque assisti aos treinos e vi o empenho deles e dos técnicos. Tentaram recuar para defender o empate, o que foi mau. É o terceiro ano que estamos no Girabola, descontando o ano da Segunda Divisão, pois, subimos sem querer. Agora, precisamos de mais experiência internacional.

"O Petro Atlético de Luanda
é o nosso principal adversário"

Dos três anos que o Recreativo do Libolo compete no Girabola quem acha ser o vosso principal adversário? O Petro de Luanda ou o 1º de Agosto?
Posso responder sem problemas. O adversário desportivo é o Petro Atlético de Luanda e o emocional é o 1º de Agosto. Devido a factores que aconteceram nestes três anos, o Libolo eliminou o 1º de Agosto na Taça de Angola, antes de fazer com o Petro, esse é um momento que provocou essa rivalidade saudável. O Petro está cheio de títulos e nós ainda não ganhamos nada. 

Como a população do Kwanza-Sul, particularmente a de Calulo, vê essa pretensão da vossa direcção em apostar na conquista do título do presente Girabola? 
É curioso que eles são mais ambiciosos que a direcção do clube (risos).

O presidente Rui Campos acha essa ambição legítima?
Sim. Aliás, não tenho dúvidas de que é possível ser campeão. Porque tem de ser sempre o Petro e o 1º de Agosto e os outros os segundos?
O Libolo pode ser campeão, perfeitamente. Eu não contava lançar o repto ao terceiro ano, pensava lá para o quinto ano de Girabola, mas as coisas aconteceram o mais rápido do que previa. Creio que é bom. Não quero dizer que vamos ser campeão, temos possibilidades de ganhar, mas os nossos adversários estão atentos. Mesmo que não ganhemos, o facto de nos assumirmos como candidatos é importante, porque faz parte do hábito não só de ganhar, mas de habituar as pessoas a ter o costume de ganhar. 

Mas ser campeão nacional pressupõe muita coisa...
Estamos conscientes disso. Se o título nos sorrir este ano, será óptimo, se não também, porque pode sorrir no próximo ano ou no quinto que eu estava a pensar. Somos candidatos ao título, isso pressupõe alguma coragem, algum arrojo, e para que isso aconteça não basta dizer que vamos ser, temos de provar lá dentro, temos lutar, porque os nossos adversários muitos deles têm grande valor e muito mais história e experiência. Começamos a incutir essa ideia para alterar a mentalidade de quem joga no Libolo. Um jogador que vai para o Petro sabe que é para ser campeão. A partir de agora, os atletas que forem para o Libolo, sabem que é para ser campeão.

"O nível da nossa arbitragem
não é péssimo como se pensa"

Falou do nível competitivo do presente Girabola como sendo bom. E em relação às outras componentes, referimo-nos concretamente à arbitragem, por sinal, elemento fulcral num jogo?
Poucas vezes, no passado, falei da arbitragem e quando o fiz, foi no geral. Para mim, o nível da arbitragem em Angola não é péssimo, como algumas pessoas tentam fazer crer, pois, considero que em relação à de outros países, não estamos assim tão atrasados. Mas isso não significa que tudo esteja bem.

O que quer dizer com isso?
Quero com isso dizer que nem sempre o trabalho dos árbitros é feito como deve ser. Por exemplo, no jogo que realizámos no Luena, contra o Bravos do Maquis, passaram-se várias coisas que não são normais, por isso, julgo que é preciso ter-se cuidado, pois, há situações que quem de direito deve corrigir para que o nosso nível melhore e possamos fazer evoluir o nosso futebol. Errar, toda gente erra, muitas vezes, o Libolo perdeu com erros de arbitragens e nunca vim falar, assim como eventualmente tenhamos ganho alguns jogos com erros de arbitragem, porque acho que erro é erro. Agora, o que não deve acontecer é que, durante 90 minutos, os erros sejam sistemáticos, porque isso pode levar a vários tipos de interpretação. Quando um penalty é mal marcado ou não é marcado, é motivo de celeuma; quando um golo é mal anulado ou não é anulado, é outro motivo de celeuma, mas quando há muitas coisas no mesmo jogo, dois golos, bolas jogadas fora das quatro linhas, isso fica complicado tirar uma conclusão do que se está a passar.

Pelo que acaba dizer, entende-se que a vossa equipa foi prejudicada no jogo contra o Maquis. Em função disso, o que a direcção do Libolo pensa fazer junto das estruturas que regulam a arbitragem nacional?
A direcção do nosso clube enviou o filme do jogo ao Conselho Central de Árbitros da FAF para analisar e tirar as suas ilações sobre o trabalho do árbitro do jogo, assim como estamos a editar um vídeo com os lances que nós pensamos não foram bem julgamos. Falo exactamente do golo do Bravos do Maquis, pois foi validado um lance que não foi golo, e na parte final anularam-nos um golo limpo, marcado pelo Edson, por fora de jogo que não existiu. No Luena, foi muito complicado. Houve lances capitais e quando são muitos erros que intervêm no resultado, a verdade desportiva não existe e fica mais difícil gerir a situação.
Gostaria também dizer que quando marcámos o golo, os nossos jogadores estavam a festejar e foi arremessada uma câmara fotográfica que atingiu à cabeça do nosso capitão Machado, mas penso que isso consta do relatório do árbitro e do comissário, porque o árbitro entregou a câmara ao comissário, essa é a parte negativa em que a arbitragem não tem responsabilidades, assim como o próprio Bravos do Maquis, porque em todos os campos há espectadores que têm esse tipo de comportamento reprovável.

Projecto de formação do clube
arranca em Maio próximo


O Recreativo do Libolo fez, este ano, contratações de jogadores de nível para as suas equipas de futebol e de basquetebol, particularmente a primeira, o que atesta a qualidade da mesma. E o futuro do Libolo como está a ser preparado?
É importante que os projectos sejam sustentáveis, não sejam de curta duração. Desde o início, que trabalhamos para isso. Neste momento, continuamos a primar pelo reforço dos nossos objectivos. O que fizemos desde há três anos até hoje, em termos de infra-estruturas em Calulo, é muito importante. Fizemo-lo com fundos angariados dos nossos patrocinadores, sem ajuda de entidades públicas. Tudo o que está lá, foi feito com muita dedicação. Fizemos um estádio que mês a mês as melhorias são significativas, é um estádio confortável, prático para jogos. Estamos a meio da construção do nosso campo número dois. Esse projecto ficou um pouco atrasado, mas agora já temos uma visibilidade para que ele termine no fim da primeira volta, não só para gerir melhor o nosso relvado principal, como também para darmos início ao processo de formação na vila de Calulo.

Para quando ao arranque do projecto de formação em Calulo?
Vamos começar com a nossa escola de futebol quando o campo número dois ficar pronto. Também já estamos a pensar no campo número três, que será de relva sintética. O técnico chega na próxima semana e vai ocupar-se disso para reforçar a vertente de formação. No fim do ano passado, dois dos nossos ex-jogadores, Rats e Gazeta, foram enviados a Lisboa para uma formação no Benfica. Os ex-atletas frequentaram, igualmente, um curso de treinadores de nível 2 e regressam em Maio. São eles que se ocuparão das escolas de futebol do Libolo.

Quer com isso dizer que daqui a três anos poderemos ver os frutos das escolas do Libolo na equipa principal?
Daqui a tres anos, começaremos a ver os primeiros juvenis saídos da escola do Libolo e, dois anos mais tarde, os juniores. Contamos fazer um projecto de referência, que seja abastecedor de atletas para as selecções de Sub-17 e Sub-20. A partir daí, pensamos que a equipa principal do Libolo vai beneficiar com isso. Esse é o projecto que temos e vamos tratar como foco principal do nosso clube, formaremos os miúdos, faremos com que eles cheguem até juvenil com formação futebolística e académica. Essa é uma das maneiras e ajudar o futebol a evoluir no país.

"Podemos pensar em organizar
uma Taça das Nações em Sub-17"

Na sua opinião, qual a melhor via para se rentabilizar os estádios existentes no país, construídos no âmbito do CAN’2010? Acha que o Governo deve pensar já na realização de um "Africano" de Sub-20?
O CAN dura um mês, cria um grande efeito e daqui a três anos, se não se fizer nada, vai se desvanecendo essa festa toda que vivemos e ficaremos apenas com saudades. É lógico que não podemos organizar CAN todos os anos, mas devemos aproveitar. Construímos quatros belos estádios, de nível em qualquer parte do mundo para jogos de primeira linha, mas o futebol não é só isso. Nós não gostamos fazer o bolo começando pela cereja, a base é fazer um investimento em campos, pode ser de relva sintética, que é de fácil manutenção, espalhando pelos municípios do país. O que o Libolo fez em mandar dois ex-atletas para o exterior, as estruturas do nosso país podem fazer em toda a parte do país.

Se bem entendemos, a construção de infra-estruturas deve ser reforçada com a formação de técnicos capazes?
Sim. É importante ter campos de futebol e pessoas que possam ser enquadradas na formação. Não pode ser uma pessoa qualquer, formação é uma coisa que deve ser específica. Com esse investimento, creio que quatro anos depois, temos condições em organizar uma Taça das Nações de Sub-17, por exemplo, mas dois ou três anos, uma de Sub-20 e com o processo todo a correr podíamos sonhar em fazer um mundial de Sub-17.

Com esse processo, acredita que estarão lançadas as bases para que tenhamos uma selecção de honras forte?
Acredito. Aliás, isso é que vai dar a sustentação da selecção principal. Angola só será uma potência em futebol se a selecção "AA" ganhar consistentemente, não ir ao Mundial uma vez e depois ficar 30 anos sem lá ir. Tem que ser consistente, não quer dizer que se vá sempre. Isso só é possível quando a base está bem construída e a selecção principal beneficie com o abastecimento da base. Sei que ir ver um jogo de Sub-17 não é tão empolgante, mas é necessário investir aí, porque é lá onde está o futuro.

Mas as competições nacionais jovens são muito pobres?
Deve haver organização para que as provas de Sub-20 (juniores) e Sub-17 (juvenis) sejam fortes, bem organizadas, de maneira que os clubes lancem as suas bases. O Libolo vai lançar as suas escolas de futebol, depois vai ter juvenis e juniores. Assim, se não houver competição, vão andar nas escolas até arranjarem clubes no Girabola e vai se perder muito trabalho.