Jornal dos Desportos

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Reportagens

Seguir o modelo de competição das melhores equipas do mundo

Manuel Neto - 14 de Maio, 2010

Técnico do 1º de Agosto de Hóquei em Patins

Fotografia: M. Machangongo

O que se lhe oferece dizer sobre o surgimento de novas equipas de hóquei em patins no país?
Com aparição de mais equipas, no caso, o Asa, Benfica de Luanda e o 1º de Agosto vieram dar mais competitividade às provas nacionais. Assim, o hóquei em patins angolano está no bom caminho e espero que outras equipas sigam o mesmo caminho para o engrandecimento do desporto nacional e da modalidade.

Que avaliação faz das competições internas?
O Hóquei em patins angolano já atingiu patamares altos no mundo. Devemos seguir o modelo de competição das melhores equipas mundiais. Por exemplo, na Espanha, realiza-se aproximadamente nove a dez competições anuais. Podemos fazer o mesmo, começando por dar mais valor aos Torneios de Abertura, aos campeonatos provinciais e nacionais e aproveitarmos os feriados nacionais para fazermos torneios de forma a dar uma melhor rodagem competitiva aos atletas e contribuir assim para uma melhor prestação das equipas nas competições internacionais. Espero que as entidades de direito apostem nisso.

Tendo em conta o patamar que o hóquei em patins angolano atingiu, já é momento de se apostar no hóquei em patins feminino?
A questão é pertinente, porque já é tempo de traçarmos políticas para o lançamento do hóquei em patins feminino, uma vez que a maior parte dos países que praticam hóquei em patins masculino também têm feminino. Devíamos seguir o mesmo caminho. Aliás a potência do hóquei em patins africano é Angola, por isso, devemos apostar nas escolas de formação de hoquistas femininas para que apareçamos no mundo do hóquei em patins feminino dentro de quatro a cinco anos.

Angola tem potencial humano para isso?
Sim, porque nos dias em que treino os masculinos, muitas garotas acorrem com frequência ao recinto e nota-se a vontade de praticar a modalidade. Infelizmente, não conseguimos atendê-las, porque o lançamento deste género transcende as nossas competências. Está lançado o repto e gostaria que as pessoas de direito reflectissem sobre o assunto.

Um olhar sobre as Infra-estruturas...
Esta componente é imprescindível para o desenvolvimento da modalidade e deveria haver mais recintos para a prática do hóquei em patins. Luanda é a cidade com mais equipas no país e a Cidadela Desportiva continua a ser o único espaço disponível para albergar grandes torneios e campeonatos nacionais, porque o campo do Grupo Desportivo da Banca nem para treinos serve. Ainda assim, temos o campo do Ferroviário que até hoje se encontra inoperante para o hóquei em patins, por razões que desconhecemos. Em suma, deve haver mais infra-estruturas para a nossa modalidade. Enfrentamos imensas dificuldades para jogar no campo da Cidadela Desportiva, por ser um campo multiusos. Há dias, que encontrámos ocupado com distintas modalidades como andebol, basquetebol, judo, karaté-dó, etc.

Como tem sido a formação dos técnicos?
Há a necessidade de haver mais formação. Lembro-me que tivemos apenas uma formação dirigida pelo ex-técnico nacional, Miguel Humbert, cujos fascículos eram em espanhol e tivemos de fazer um esforço enorme para os interpretar da melhor maneira. Apelo às pessoas de direito no sentido de promoverem mais cursos, sobretudo, para os que trabalham com as camadas de formação, mormente, são jovens.

Mais um desafio 
É o treinador mais jovem a dirigir uma equipa sénior em Angola, concretamente, o 1º de Agosto, aos 24 anos de idade. Como se sente?
Muito motivado. É mais um desafio que tenho pela frente e o meu objectivo é trabalhar para chegar ao nível dos melhores treinadores da nossa praça. Tenho um grande respeito por todos os treinadores que trabalham para o bem do desporto nacional, quer dos escalões de formação, quer de sénior. É com este pensamento que encaro o novo desafio. Aliás, durante a presente época, já fui treinador interino da equipa da Vila Alice e vencemos o torneio de abertura, por isso, estou com o moral alto para ser vitorioso na nova equipa.

O que lhe foi exigido pela direcção do clube militar?
O hóquei em patins é uma modalidade nova no 1º de Agosto e nada nos foi exigido. Estamos a trabalhar para consolidar uma equipa que possa ombrear com as melhores do país e, em breve, vencermos campeonatos.

A nata de jogadores que possui dá boas garantias para os objectivos preconizados?
Fomos reforçados com alguns atletas provenientes do Académica da Maianga, Benfica de Luanda e do Petro de Luanda. Numa primeira fase, vamos solidificar o grupo, mas isso não significa que temos um grupo frágil. Sempre disse aos meus atletas que teremos equipas muito fortes pela frente como o Juventude de Viana, Petro de Luanda, Académica da Maianga entre outras. Com todo o respeito às mesmas, quando estivermos em campo é para ganhar os jogos.

Além de treinar a equipa sénior do 1º de Agosto, ocupa outros cargos?
Sim. Sou técnico da equipa de formação do Hóquei 2000 e, dentro de dias, treinarei também os alunos da escola do 1º de Agosto, que vão dos cinco aos seis anos de idade.

"Faço o meu trabalho
com dedicação e paciência"

Como surge o gosto pelo hóquei em patins?
Surgiu numa brincadeira, ou seja, patinava na rua com "patins profissionais" em companhia de um vizinho chamado Vado. Algum tempo depois, levou-me à casa de um dirigente da equipa Hóquei Clube 2000. Trata-se do Freitas. Durante alguns meses, patinamos naquele recinto. Posteriormente, fomos inscritos na equipa do Hóquei 2000 e, em 1997, tivemos a primeira participação oficial num torneio da Aspa, na qual nos classificámos em último lugar. No mesmo ano, participámos nos campeonatos provinciais e nacionais, nos quais fizemos boa figura

Jogou apenas pelo Hóquei Clube 2000?
Joguei também na equipa sénior do Catumbela de Benguela, durante uma época, onde fui bem sucedido. Recordo-me que foi uma época em que despontavam bons valores do nosso hóquei em patins como Jujú, Tato, Maninho e muitos outros jogadores que ainda se encontram no activo.

Qual é o momento que mais o marcou enquanto jogador?
O dia que realizei o meu primeiro jogo oficial contra o Petro de Luanda, no Torneio da Aspa. Foi um momento de muita emoção por ter pisado pela primeira vez e de forma oficial num campo. Apesar de ter vivido alguma apreensão, saí-me bem e ganhei coragem para enfrentar outros jogos sem receio.

Por que razão se retirou tão cedo das quadras?
Certo dia, estava a treinar sozinho no largo, para melhorar a minha forma desportiva, tropecei e fracturei o braço direito. Embora tenha feito tratamento, não consegui recuperar-me totalmente da lesão. Tentava jogar, mas o braço piorava. Esta foi a principal razão do meu abandono prematuro. Não obstante isso, não havia abdicado totalmente da modalidade, porque continuei ligado ao hóquei em patins como observador.

E como aparece na pele de treinador?
Algum tempo depois de ter abandonado os campos, Carlos Freitas convida dois colegas meus para treinarem a camada de formação da equipa. Durante o encontro mantido, um citou o meu nome e fui chamado para integrar a equipa técnica dos escalões de formação, onde permaneço até aos dias de hoje.

O que lhe ocorreu na alma, quando lhe foi entregue essa responsabilidade?
Começar é sempre difícil, dado o grau de assimilação de cada um. Felizmente, faço o meu trabalho com dedicação e paciência, porque tenho o hóquei em patins no sangue. Graças a Deus, tudo corre bem. Trabalhar com crianças é bom, embora seja um pouco complicado.

Está a dizer que é bem sucedido na pele de treinador?
Sim.

Porquê?
Quando ensinamos alguém, que não sabe ficar de pé sobre os patins e algum tempo depois o vemos crescer, patinar e jogar com normalidade a um nível elevado, é sempre motivo de grande satisfação. Notamos que estamos a contribuir para o desenvolvimento do desporto nacional.

Relações institucionais
carecem de intervenção

E como andam as relações com outras equipas como o Académica da Maianga?
Com as demais equipas, não tenho problemas, mas com o Académica, sim, principalmente, com o técnico Jó.

Porquê?
Um ano depois de ter treinado o Hóquei Clube 2000, uma parte da equipa ficou adstrita ao BAI, na qual fui o treinador principal. Infelizmente, no ano passado, o BAI extinguiu a modalidade e, na véspera da reintegração dos jogadores na equipa de origem, no caso o Hóquei Clube 2000, fui surpreendido com o comportamento do Jó por ter convencido os meus atletas a integrarem-se no Académica. Jó teve um comportamento muito triste, porque gastamos muito com a formação dos atletas e não deviam roubá-los assim de nós. Aquele comportamento acabou comigo. Só consegui reerguer o moral, depois de algum tempo.

Já conversaram a cerca do assunto?
Já sim. As desculpas apresentadas foram descabidas e não me convenceram. É um comportamento extremamente reprovável, porque sou o mais novo do grupo de treinadores angolanos; deviam respeitar o meu trabalho, mas não aconteceu. Logo, concluí que são elementos com quem não devo relacionar-me.

Tem apoio dos familiares?
O apoio dos meus familiares vem desde o início da minha carreira como atleta, ou seja, treinava às 06h00 e todos os dias a minha mãe levantava mais cedo para me acordar; fazia um acompanhamento milimétrico. O mais caricato aconteceu num certo dia em que treinava os meus alunos no largo do Auto-Pechincha e a equipa da Académica liderada pelo Jó invadiu o recinto. Aquela atitude gerou uma confusão. Graças a intervenção dos meus familiares, tudo ficou resolvido. Isto ilustra muito bem o apoio que tenho dos meus familiares.

Escalões de formação
com materiais impróprios

Quais as principais dificuldades que enfrenta?
A falta de campos e de material de treino. No mercado nacional, existem poucos patins para iniciação e embora a federação nos tenha fornecido algum material, infelizmente, o mesmo é impróprio para treino dos escalões de formação, para os meninos dos nove aos dez anos de idade. Desse modo, é muito difícil trabalhar nestas condições.

Que apoio recebe e quais as entidades fornecedoras?
Temos apenas o apoio material, moral e financeiro do Hóquei 2000, equipa na qual continuo ligado às camadas jovens e espero que mais instituições dêem apoio, não só a esse clube, mas também a outros, que dão um contributo valioso a esse desporto no país.

Como tem sido visto pelos moradores do famoso bairro e amantes da modalidade, sendo um jovem formador?
Têm boa impressão de mim, porque, nos últimos anos, tiro muitos garotos da rua e ensino-os a patinar. Por esse facto, sou tratado com carinho por adultos e crianças, motivo que eleva o meu estado moral para continuar e fazer um bom trabalho em prol do desenvolvimento do hóquei em patins no país.