Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Reportagens

Senhoras do Hospital Américo Boavida fazem travessia no deserto

28 de Agosto, 2009

Depois de encerrar as portas, as atletas da Mabu Fc encontraram um novo poiso para continuar com a carreira desportiva no Hospital Américo Boavida que na altura criou a sua equipa de futebol. No entanto, a equipa que vem dado cartas no Campeonato Provincial de Luanda, enfrenta uma série de dificuldades a julgar pela mudança de direcção da unidade hospitalar a que pertencem. É que até ao momento a nova direcção ainda não se encontrou com os responsáveis grupo desportivo. O futebol feminino em Luanda ganhou, no ano passado, mais uma equipa. Trata-se do Américo Boavida, composta de atletas vindas da extinta formação da Mabu. Deste modo, várias atletas que tinham em risco a continuidade da sua carreira, viram assim a oportunidade de continuar na modalidade. Se por um lado existe uma equipa que vem marcando a sua presença no panorama desportivo feminino, por outro as condições de trabalho podem levá-la a perder as suas atletas e consequentemente o seu encerramento por falta de patrocínio. O secretário-geral, Amorim Santana, garante que a situação pode conhecer resolução assim que a nova direcção do Hospital Américo Boavida manter contacto com o clube. “A direcção do hospital ainda é nova e está a tomar contacto com a realidade do mesmo. Só depois vamos ter uma reunião com ela para saber como fica a equipa de futebol feminino”, diz. As maiores dificuldades do clube, nos dias que correm, têm a ver com a falta de verbas para a realização de actividades, segundo Amorim Santana. A título de exemplo, neste momento a equipa tem apenas dois pares de equipamentos, doados pelo Ministério da Saúde. “Estamos à espera da reacção da direcção do hospital. Penso que brevemente as coisas podem melhorar, porquanto vamos ter um encontro com a direcção no sentido de nos ajudar a resolver os problemas da equipa de futebol feminino. Nos dias que correm, o futebol feminino é a única actividade colectiva que temos, uma vez que o futebol de salão está parado”, explica. Actualmente, a equipa depende financeiramente dos seus responsáveis, estes que vão resolvendo este ou aquele problema pontual. O Grupo Desportivo do Hospital Américo Boavida foi criado a 25 de Setembro do ano de 2000, com o intuito de recrear os trabalhadores do hospital. Na altura havia o futebol salão (em masculino e em feminina), judo, xadrez e, há um ano, o futebol feminino. A intenção do grupo desportivo é criar condições para nos próximos anos a equipa ter uma participação regular em campeonatos nacionais. “Entre várias participações e sempre sem apoio financeiro nem de infra-estruturas, e por termos amor ao desporto, enchemo-nos de coragem e decidimos federar o clube. É com grande orgulho que aceitamos vários convites de colectividades, mas é também com alguma tristeza que não podemos retribuir os convites por termos pouca capacidade financeira”, lamenta. Contudo, Amorim sente-se orgulhoso, pois muitas jogadoras do futebol feminino nacional saíram desta grande família. De acordo com o secretário-geral, a equipa está a crescer, acreditando mesmo que, dentro de dois anos, o trabalho que está a ser feito nos escalões de formação tenha tudo para dar frutos. Promoção da modalidade é o objectivo da agremiação Os objectivos que nortearam a criação da equipa de futebol do Hospital Américo Boavida foram a promoção da modalidade, incentivar a prática do desporto para um grupo de garotas cuja paixão maior era o futebol, participar em campeonatos provincial e nacional e em competições nacionais promovidas pela Federação Angolana de Futebol (FAF). Assim sendo, a equipa ainda está ser montada, mas, apesar disso, compete no campeonato provincial. “Este ano não vamos competir. Estamos a fazer treinos de captação nos quais já passaram por lá cerca de vinte estudantes. Depois do “provincial”, iremos fazer uma maior campanha de sensibilização e captar mais atletas para o nosso projecto”, garante Amorim Santana. É intenção da direcção Grupo Desportivo e Cultural Hospital Américo Boavida agregar no seu seio, tal como no começo, outras modalidades, das quais a escolha pende para o xadrez e o judo. A reactivação do futebol salão é também uma possibilidade. A efectivação deste projecto, diz Amorim Santana, dependerá do possível apoio do principal patrocinador, o Hospital Américo Boavida. “Caso se confirma o patrocínio, vamos arrancar com outros projectos. Ainda é um bocado difícil falar a data para o mesmo, na medida em que nada está definido com o patrocinador oficial. Caso as coisas venham a melhor, daremos novos passos”, promete.Treinador está esperançado  A equipa de futebol do Hospital Américo Boavida é treinada por Domingos Adriano, de 50 anos, antigo futebolista do Grupo Desportivo da Terra Nova. Pessoa de trato fácil, fez um balanço do trabalho que está a ser feito, visando a preparação da equipa para futuros compromissos. “Neste momento estamos a trabalhar com várias atletas que vieram de outros clubes, bem com algumas que estão no futebol pela primeira vez. Isso vai fazer com que tenhamos uma equipa recheada de atletas disposta a enfrentar compromissos futuros”, diz.  Adriano afirmou que neste período de competição no campeonato provincial, a prioridade não passa pela obtenção de grandes resultados, mas sim rodar a equipa e dotar as atletas de maior ritmo de jogo. No campeonato nacional, a prioridade das sessões de treino será a técnica e a táctica, reduzindo quase que drasticamente a quantidade de treinos físicos. “Far-se-á apenas a manutenção de toda a base que já foi realizada no período preparatório”, explica.(Somos um bocado esquecidas) Neste momento a equipa de futebol feminino joga sem qualquer patrocinador, devido a demissão da antiga direcção que assumia os custos da equipa da mesma. A crítica à falta de apoios é partilhada pela capitã da equipa, Ana Pereira Marques, atleta há mais cinco anos, que fala em nome grupo a que pertence. "É sempre bom praticar desporto, mas em Angola não há muito apoio. Somos um bocado esquecidos. Aqui ainda se pensa que o futebol é só para homens, embora, aos poucos, tende a melhorar”, revela a atleta. Quanto ao ambiente no seio da equipa, a capitã não vê qualquer anormalidade: “Somos bem tratadas, apesar das dificuldades por que passamos devido ao facto de a direcção não nos apoiar. Falta-nos transportes. Algumas vezes vamos jogar por meios próprios; outras as atletas não conseguem chegar a tempo nos jogos. Vezes sem conta, terminamos os treinos e não temos um lanche condigno”, explica, acrescentando que “temos dificuldades no que toca ao material de trabalho. Acho que é altura de se pensar de outra maneira o futebol feminino”. Classe à procura de maior credibilidade O futebol feminino precisa de sofrer uma enorme revolução, pois neste momento está numa fase decadente. Pessoas autorizadas dizem ser necessário mais apoio, novas infra-estruturas (não só desportivas como organizativas), novos quadros competitivos e aumentar o número de praticantes. É importante, pois, fazer-se uma grande reestruturação, esta qual só se concretizará quando o Ministro da Juventude e Desportos, o Ministério da Educação, a Federação Angolana de Futebol, as associações e os clubes se sentarem à mesa e discutirem o futuro da classe. O Grupo Desportivo e Cultural do Américo Boavida nasceu com o futebol salão, mas, passo a passo, começou a agregar outras modalidades como o xadrez e futebol feminino, sempre como uma "brincadeira" para os trabalhadores. O secretário-geral, Amorim Santana, vê a equipa de futebol feminino como "muito pequena, que de ano para ano vai tentando crescer e formar atletas". "Queremos ir mais longe, mas depende das ajudas que recebemos", confessa.