Jornal dos Desportos

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Reportagens

Sorteio trajado de beleza africana

Francisco Carvalho José Cola e M.Machangongo - 21 de Novembro, 2009

emoções humanas vagueiam numa viagem cósmica, onde os meteoritos navegam em direcção incerta

Fotografia: Jornal dos Desportos

O encanto da beleza empolga os espectadores e os telespectadores do mundo inteiro que acompanharam o sorteio da XXVII edição da Taça Africana das Nações Orange Angola’2010. Em cada alma um sorriso de felicidade por pertencer e estar num país movido pelo futebol. As vozes convergem numa linha estreita: um cenário deslumbrante.
Sob as imagens de uma cachoeira, a “mascote” da Taça Africana das Nações Orange Angola’2010 ginga com os seus dribles estonteantes e desaparece numa “ravina”. A queda levou-o ao palco. À sua mão repousa uma Taça bonita. É o troféu conquistado pelo Egipto em 2008, na cidade de Accra, Ghana, em 2008. Aplausos e mais aplausos. De homens de todas as latitudes do continente: Austral, Central e Norte.
Em cada rosto, um sorriso de “felicidade” que se funde com a apreensão. Uma tensão que começa com o fim da conferência de imprensa, onde a patrocinadora Orange revelou que 40 por cento das receitas é direccionado ao desenvolvimento do futebol continental.
A voz inconfundível de Mateus Gonçalves rompe de mansinho na engalanada sala do Centro de Convenções de Talatona. É o Mestre-cerimónia angolano. Vestido a rigor, anuncia a abertura do sorteio na voz do Ministro da Juventude e Desportos, Gonçalves Muandumba (ver peça ao lado).
O presidente da Confederação Africana de Futebol, o camaronês Issa Hayatou usa da palavra e arranca aplausos. O dirigente do futebol africano afirma que desde o primeiro dia nunca perderam a confiança pela realização do XXVII edição da Taça Africana das Nações. O sentimento de Hayatou deixa os angolanos mais regozijados e empenhados para o êxito “do maior evento desportivo” do país.
O director do Comité Organizador do Campeonato Africano das Nações (COCAN) e presidente da Federação Angolana de Futebol, Justino Fernandes, acalma os angolanos e a comunidade internacional: “Há uma nação mobilizada para a Taça Africana das Nações Orange Angola’2010”. A garantia é “absoluta”. Para justificar as suas palavras, Justino Fernandes afirmou que “o ano de 2010 é de futebol em África” e que “Angola é um país em franco desenvolvimento, apesar de sofrer as consequências da crise económica mundial”.
As provas estão à vista de todos. Novas infra-estruturas desportivas, rodoviárias, hoteleiras, sanitárias estarão à disposição de todos a partir de 10 de Janeiro de 2010. A constatação dos investimentos começa hoje nas quatro cidades que vão albergar a maior competição futebolística africana de 2010.

História presente
da cultura milenar

O som rítmico da marimba de Malanje identifica um continente com mais de 30 milhões de quilómetros quadrados: África. A música folclórica africana ganha compasso, reflectindo a sua história e o ambiente natural. Os batuques do Ballet nacional angolano expelem a força do continente. Uma imagem única e colorida que só os africanos sabem fazer. O futebol ganha a expressão da diversidade cultural do continente e a sensação do belo resplandece em cada olhar atento dos espectadores.
Um grupo de seis angolanos, em marcha compassada, invade o palco. A cada movimento, um pedaço do terceiro continente mais extenso agita-se nas indumentárias tradicionais. É a origem da humanidade e do futebol em ascensão. É a história presente de uma cultura milenar.
Ballet nacional exibe a festa do povo negro que resistiu bravamente à escravidão. A congregação, confraternização e resistência. Um chamado à luta por liberdade e por justiça. A dança exibida era a festa e a resistência cultural de um povo (africano); era a exaltação da vida e da liberdade.
Uma liberdade que o grupo teatral Julu levou ao palco do Centro de Convenções de Talatona. Os olhares perdem-se na diversidade dos povos africanos unidos e movidos pelo futebol. De Norte a Sul e do Oeste a Este, todos apelam ao Fair Play, a mascote da união futebolística. A voz feminina apela aos turistas que “em Janeiro, Angola vai conquistar” corações de homens de bem.

Euforia e angústia
abalam angolanos

A voz melódica de Filipe Mukenga rompe os tímpanos. O som badalado identifica o hino da XXVII edição da Taça Africana das Nações Orange Angola’2010. Uma bandeira vermelha, preta e amarela esvoaça no palco. É de Angola. Quatro jovens angolanas exibem-se com dança moderna num compasso irrepreensível e, no centro, Filipe Mukenga, com as suas tradicionais vestes africanas, canta para o mundo a beleza do país do futuro.
A sala ganha silêncio e as almas aconchegam-se numa leitura cuidada. O som consome a alma dos presentes em pouco mais de dois minutos. As luzes baixam de intensidade e a apreensão ganha espaço em cada homem do futebol. É a hora do sorteio.
A expectativa cresce para se saber a composição dos quatro grupos da XXVII edição da Taça Africana das Nações Orange Angola’2010. Um murmúrio leve invade a sala.
O representante da Confederação Africana de Futebol convida os quatro angolanos de gerações diferentes que contribuíram para o prestígio do futebol angolano no mundo. Por ordem de chamada, Rui Clinton foi o primeiro a receber a ovação do público. Seguiu-se Joaquim Dinis, “Brinca n’Areia”, Daniel Dungidi e Fabrice Maieco “Akwá”. O último angolano foi o que mais recebeu os aplausos. É o reconhecimento por tudo quanto fez em prol da imagem da República de Angola no mundo.
As bolas começam a ser extraídas. Rui Clinton coloca Costa do Marfim na Série B, Egipto, na C e Camarões, na D. A apreensão sobe de nível mais alto, quando Joaquim Dinis tira a primeira selecção para o grupo de Angola: Malawi. Um pequeno suspiro denuncia o sofrimento dos angolanos que manifestam com palmas. A seguir, Ghana para série B, Benin, na C e Gabão, na D.
Ainda não está terminado o sofrimento para os angolanos. Em cada mão, um gesto diferente. Talvez tenha sido o desanuviamento da pressão que se apoderava a cada minuto. Daniel Dungidi é chamado. Depois de girar as esferas, abre a primeira para o grupo de Angola: Mali.
A euforia e a angústia dos angolanos casam-se na sala. Ruídos e sorrisos confundem-se em desacordo mútuo. “Angola começa a ver o filme complicado”, diz um espectador.
Dungidi prossegue a sua tarefa e coloca na série B, Burkina-Faso, na C, Moçambique e na D, Zâmbia.
A agitação começa a tomar conta dos angolanos e dos estrangeiros. Os papões do futebol mundial estão à solta. Ninguém os queria para Angola, mas o sorteio vai ter de cumprir a sua missão e um deles vai ter de aconchegar-se no grupo de Angola. Murmúrios e mais murmúrios.
Fabrice Maieco, o maior marcador dos Palancas Negras de todos os tempos é chamado. A responsabilidade de Akwá é colocar o mais fraco no grupo de Angola, mas a sorte foi madrasta. Na primeira esfera sorteada contém o nome da Argélia. O país que teve a “amabilidade” de afastar o campeão africano actual, Egipto, do Campeonato do Mundo a realizar-se na África do Sul, em Junho de 2010. A reacção imediata dos angolanos revela o pessimismo. “Estamos fritos”, diz uma angolana de Cabinda.
A integração do Ghana, no grupo B, torna-o num da morte. O mais complicado. A Nigéria junta-se ao Egipto no grupo C e a Tunísia aos Camarões.
O sorteio da XXVII edição da Taça Africana das Nações Orange Angola’2010 está feito. Comentários tomam conta da sala do Centro de Convenções do Talatona sob o festim do fogo de artifício. Cai o pano do Sorteio.

Angola recebe troféu

O último momento da cerimónia do sorteio está reservado à entrega do troféu da Taça Africana das Nações Orange Angola’2010. O presidente da Federação Angolana de Futebol do Egipto entregou-o ao presidente da Confederação Africana de Futebol (CAF), Issa Hayatou, sob aplausos dos espectadores. O camaronês mais forte da CAF entregou o troféu mais disputado de África ao director do Comité Organizador do Campeonato Africano das Nações, Justino Fernandes. A África começa a vestir as cores do futebol.