Jornal dos Desportos

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Reportagens

"Sou atleta esforçado e tenho na equipa responsabilidades"

Silva Cacuti - 01 de Novembro, 2013

O triplista da Selecção Nacional de basquetebol em cadeira de rodas

Fotografia: José Soares

Quando saiu do Lubango para Luanda à procura de um tio, Manuel Jamba não imaginou que começava um percurso que havia de o tornar um atleta de alto rendimento em Angola.

Corria o ano de 2005, quando Jamba chegou a Luanda. A única direcção que tinha em mente era de um tio que residia algures no bairro da Vila Alice. Com uma pequena bagagem de mão, Jamba deambulou por ruas e ruelas de diferentes bairros de Luanda. A imagem e a cor da casa do tio não se vislumbraram. Desesperado pelo reencontro familiar, depois de intensa procura, uma voz soprou-lhe ao ouvido que o parente tinha fixado residência em Portugal.

A dura realidade fez com que Jamba encontrasse albergue na caridade, enquanto procurava condições para regressar ao Lubango e retomar os estudos que tinha interrompido na oitava classe. Vencido pelo cansaço, a Vila Alice acolheu-o.

A nova perspectiva de vida deu-lhe a oportunidade de conhecer algumas pessoas e fazer amizades. São pessoas que se tornaram amigos com essência de amor. Do seu íntimo nasceu a esperança de viver.

Jamba tem lembranças vivas de um amigo que dominava os movimentos de basquetebol em cadeira de rodas. Depois de apreciar as gincanas, o desporto pareceu-lhe muito estranho para os seus gostos. A saudade do tio e o reencontro perdido amachucavam-lhe a alma. Uma alma vazia e sem esperança. O falso sorriso nos lábios escondia a dor.

Desinibido e com ar alegre, o amigo exibiu-se quase até à exaustão. Com o coração acelerado, disparou um forte convite a Jamba. Perante a solicitação, o jovem de Lubango ficou atónito e confessou: “A princípio quis recusar, porque o meu objectivo era encontrar o meu tio, mas depois decidi avançar”.

A decisão foi a mais acertada. Tão certa que “os amigos do basquetebol passaram a ser parentes”. O abraço fraterno que recebeu diariamente fortaleceu as suas esperanças.

“Só encontrei os meus familiares ao fim de três meses”, recorda. Manuel Jamba lembra aquele momento da decisão com nostalgia e garante que a sua vida tomou outro rumo.

“Hoje, estou aqui como um grande jogador graças àquele momento em que decidi aceitar o convite para jogar”, reconhece.

Para esquecer as “malambas” (problemas – em tradução livre), a prática desportiva passou a ser o melhor hobby de Jamba. Com as suas fragilidades de aprendiz deambulou pelos campos durante os treinos.

“Foi difícil nos primeiros dias, porque só treinávamos”, disse.

Mas quem seria Manuel Jamba se não fosse atleta? À pergunta, baixa os olhos, torna-se sisudo, abana a cabeça e retruca: “É verdade, quem seria eu se não jogasse basquetebol em cadeira de rodas?”.

O silêncio toma a conversa. O seu pensamento vagueia no espaço, no rosto desenha-se uma lembrança secreta. Os olhos tornam-se mais tristes. Refugiado no seu mundo imaginário, Manuel Jamba controla as emoções, mexe-se e solta uma voz alegre. Tão alegre como o sorriso dos seus lábios.

“Agora, posso dizer que sou um grande atleta e tenho responsabilidades na equipa”, disse.

O jogador refere-se ao facto de ser o lançador da Selecção Nacional, um cargo que dá vitórias ao país. Face à importância do desempenho, manifesta o desejo de melhorar cada vez mais para ver o basquetebol angolano a crescer.

“Sinto sobre os ombros a responsabilidade de levar a equipa e vou procurar melhorar cada vez mais”, prometeu.

Manuel Jamba tem no basquetebolista angolano Carlos Morais, que recentemente fez testes no Toronto Raptors da NBA, como o seu grande ídolo. As razões associam-se à sua forma de estar em campo.

“Inspiro-me no Carlos Morais. É um jogador diferente. Mesmo a jogar na cadeira de rodas, procuro parecer-me em campo com ele, porque é realmente um grande atleta”, justifica.

Sobre o momento da Selecção Nacional no Campeonato Africano, o triplista considera que a equipa não esteve nos seus melhores momentos e não mostrou o real valor.

“A nossa equipa esteve um pouco nervosa, mas creio que vai passar. Estamos a aprender muita coisa com estas selecções que têm muito mais tempo de trabalho que nós”, disse.